Cerca de 70% dos doentes seguidos no Hospital de Dia (HD) do Hospital de Santo André, em Leiria, são doentes oncológicos. A unidade, dedicada a tratamentos endovenosos e subcutâneos em regime de ambulatório, atende diariamente 50 a 60 doentes por dia e realiza anualmente cerca de 7.000 sessões para tratamento de várias patologias, com maior destaque na área oncológica. Os cancros mais frequentes são os do sistema digestivo (cólon e reto, estômago, pâncreas, vesícula biliar), mama, próstata, bexiga e pulmão, que são também os mais prevalentes entre a população portuguesa. A unidade acompanha ainda utentes com doenças inflamatórias do intestino, doença de Crohn e colite ulcerosa, esclerose múltipla, doenças autoimunes, artrite reumatoide, espondilite anquilosante, psoríase e artrite psoriática, entre outras. Sendo o envelhecimento um dos principais fatores de risco para o cancro, a maioria dos utentes do HD são seniores, embora surjam cada vez mais adultos jovens, a rondar os 40 anos, com prescrição de tratamentos oncológicos. Já no caso da patologia inflamatória, os doentes têm na sua maioria menos de 40 anos, alguns entre os 20 e 30 anos, adianta Alcina Ponte, especialista em Medicina Interna e diretora do HD desde 2014. Além da quimioterapia (quase sempre administrada por via endovenosa), o HD oferece tratamentos de hormonoterapia, biológicos/imunoterapia, e instilações vesicais no caso do cancro da bexiga. As sessões são programadas por ciclos, e os esquemas divergem na periodicidade e tempo de duração de acordo com a terapêutica prescrita para cada doente. “Quimioterapia paliativa aumenta sobrevida” Composta por quatro camas e 12 cadeirões, a sala de tratamentos é pequena para fazer face ao “aumento significativo” do número de doentes nos últimos anos. Uma evolução que Alcina Ponte atribui à maior incidência (novos casos) de cancros mas também ao facto dos doentes se manterem em tratamento durante mais tempo. “Os esquemas de quimioterapia aumentam a sobrevida do doente”, explica, referindo que, além dos tratamentos neoadjuvantes e adjuvantes (para redução do tumor e consolidação de outro tratamento), podem ser prescritos ciclos de quimioterapia paliativa para aumentar a sobrevida e melhorar a qualidade de vida do doente. A unidade funciona nos dias úteis, sendo os tratamentos administrados e monitorizados continuadamente por vários enfermeiros, que se mantêm atentos a eventuais efeitos adversos. Segundo Alcina Ponte, não há lista de espera no hospital de Leiria para tratamentos de quimioterapia. A maioria dos doentes é referenciada para o HD através de consulta intrahospitalar, sendo cada caso avaliado por uma equipa de médicos pluridisciplinar em sede de reunião de decisão terapêutica. “A partir do momento em que o doente tem prescrição de tratamento, fazemos um esforço para que o mesmo se inicie num espaço de duas semanas. E tem que ser duas semanas porque obriga a que o doente ponha um cateter central, com reservatório implantado com ligação a uma veia central. É um procedimento cirúrgico que é feito em ambulatório”, explica. “O que notamos é que temos menos tempo para falar com o doente e por isso tentámos alargar o horário. O doente oncológico precisa de ser ouvido e acarinhado e temos que estar presentes”

Consulta “quebra-gelo”

Antes de iniciar o tratamento, o doente é contactado telefonicamente e informado de todo o procedimento, incluindo os tempos de espera que poderá enfrentar decorrentes da necessidade de efetuar análises, validar resultados e preparar o medicamento “feito à medida” antes de cada sessão.

Para essa consulta de enfermagem, que também serve de “quebra-gelo”, Manuel Carreira, enfermeiro-chefe do HD, não conta o tempo. Aproveita para conhecer o doente, estabelecer uma relação de confiança, esclarecer dúvidas e falar de “questões menos más”, de esperança e de espiritualidade.

“Eu só falo uma vez de morte e é nesse dia. E é sempre com a mesma frase: ‘Não importa como é que eu morro, o que importa é como vivo até morrer’. O importante é isso”, destaca, acrescentando que a abordagem ao doente deve ser holística e humanizada.

Esta relação de proximidade com o doente é ponto de honra para a equipa do HD, que conta com 11 enfermeiros, metade dos quais com mais de dez anos de “experiência e dedicação”, entre outros profissionais.

E embora a equipa tenha sido “ajustada às necessidades” – em 2014 tinha apenas quatro ou cinco enfermeiros – e o horário de atendimento alargado, precisa de reforço, e a unidade carece de remodelação e ampliação. O concurso foi lançado em novembro mas ainda não há datas para o arranque da obra.

Já em casa, os doentes tratados no HD podem esclarecer quaisquer dúvidas por telefone, através de uma linha dedicada. “Procuramos que não recorram à Urgência tendo em conta a diminuição da imunidade. São doentes frágeis, e muitas vezes conseguimos tratar aqui os casos de desidratação, por exemplo. Se for um caso clínico mais complexo, contacta-se a Oncologia e só em último recurso as urgências”, acrescenta Manuel Carreira. “O cancro está muito ligado à morte e é preciso desmistificar isso. Uma gripe também pode matar e uma pneumonia também” Martine Rainho Jornalista martine.rainho@regiaodeleiria.pt Joaquim Dâmaso Fotojornalista joaquim.damaso@regiaodeleiria.pt

(O artigo faz parte integrante da revista Directório da Saúde 2019, onde o consta o dossiê Doenças Oncológicas. Atualizado com a divulgação do concurso para remodelação e ampliação da unidade)