O músico de Leiria – e maestro da Orquestra Jazz de Leiria – lançou o quarto disco de jazz em nome próprio. Em “Dice of Tenors”, César Cardoso homenageia grandes nomes da história do saxofone tenor. Ao REGIÃO DE LEIRIA, o saxofonista e compositor fala também do cancelamento dos concertos da Orquestra Jazz de Leiria e do papel que a música pode ter no futuro.

Como surge este quarto disco?
A ideia foi criar uma coisa diferente do que tinha feito anteriormente. Desde logo pelo tipo de formação bastante alargada, um octeto, que permite mais diversidade. Ao mesmo tempo, estava também à procura de uma abordagem nova a nível da composição: à medida que fui evoluindo enquanto músico e contactando com outros músicos, é natural que absorva informações que quero por em prática, com a minha linguagem. Nos últimos anos, por influência sobretudo do Miguel Zenón, mas também de outros músicos, passei a ver a música de forma um bocadinho diferente. E [neste disco] decidi pegar nuns standards e desconstruí-los, no bom sentido.

O que fez aos standards?
É a primeira vez que estou a gravar covers, digamos assim. É muito complexo gravar standards, porque já foram gravados tantas vezes… Fazer só mais uma versão não fazia sentido. Pensei numa homenagem aos saxofonistas tenores – e daí o título do disco, “Dice of tenors” – que influenciaram o meu percurso. E foi uma forma de aplicar os novos métodos de composição e métricas.

Como escolheu os saxofonistas homenageados?
Havia muito por onde escolher. Mas pensei naqueles que mais me influenciaram e que estudei mais a sério. Cheguei ao Hank Mobley, que foi o primeiro disco de jazz que comprei; do Dexter Gordon, do Sonny Rollins e do [John] Coltrane ‘saquei’ muitos solos enquanto estudante – e estes tinham de estar. Estão mais relacionados comigo e com a minha maneira de tocar.

Quem são estes músicos com quem trabalhou neste disco?
Quando comecei a imaginar o disco pensei num grupo grande, à semelhança dos San Francisco Jazz Collective, de que o [Miguel] Zenón fazia parte. Sempre gostei daquela sonoridade e gostava de explorar aquele universo. Depois comecei a ver que músicos havia. Em Portugal há grandes e incríveis músicos… Tinha de escolher músicos que me garantissem que a coisa funcionava, porque os ensaios quase não existiram. Uns vivem no Porto, o Jeff[ery David] na Praia de Mira, além da malta de fora… Na secção rítmica, o Damien [Cabau] já me acompanha desde o primeiro disco e tinha de estar; o baterista tinha de ser alguém com muita experiência e que percebesse este tipo de linguagem e Marcos Cavaleiro é ‘o’ baterista para este tipo escrita; quanto ao pianista, gosto muito do Óscar [Marcelino] e escolhi-o porque lê muito bem e tem uma abordagem que gosto muito; no vibrafone, o Jeffery influenciou, em Portugal, quase todos os outros vibrafonistas que vieram a seguir, é o ‘pai’ do vibrafone em Portugal; nos sopros, queria contar com o Miguel [Zenón], que é uma mais-valia e um prazer ele participar – e gosto muito da maneira de ser dele; tinha também de ter um trombone e um trompete e pensei: no trombone, em Portugal, mesmo de jazz puros, há um ou dois, mas para esta estética que queria lembrei-me que tinha estado em Itália há uns anos e fiz um contacto com um italiano, o Massimo [Morganti], que era o maestro da orquestra. Foi ótimo ele aceitar. Falta o trompetista: em Portugal havia uma ou outra solução, mas porque não arriscar e trazer um lá de fora de que gosto? Gosto muito da abordagem do Jason Palmer e foi muito bom ele aceitar. Juntar muitos bons músicos nem sempre resulta num bom grupo, mas acho que desta vez correu bem, tive sorte. Eles entusiasmaram-se com a música e isso ajudou a que se entregassem mais à causa.

Para “Dice of tenors”, César Cardoso formou um octeto com músicos de topo

Que tal o resultado final?
Naturalmente sou sou suspeito, mas estou muito satisfeito. É o melhor disco de sempre. Tudo correu bem: os arranjos funcionaram muito bem, os músicos foram impecáveis, conseguimos gravar tudo num dia, o que foi uma coisa louca. São oito temas e são coisas mesmo difíceis.

Que novas abordagens e caminhos diferente são estes?
São arranjos para este tipo de formação e um tipo de harmonias um bocadinho mais sofisticadas, métricas que não tinha usado noutros discos e muita modelação ao longo da música. Também nos dois originais que estão no disco há uma abordagem que nunca usei antes. Amigos que ouviram dizem que soa muito complexo e natural ao mesmo tempo.

O que significa o título “Dice of tenors” [em português, “Dado de tenores”?
É um trocadilho: eram seis saxofonistas, o dado tem seis faces e a capa é um dos lados do dado. Se abrirmos, há seis faces como se fosse um dado. Foi uma mistura de simbologias – e está tudo interligado.

Como é lançar um disco no meio desta tempestade?
[risos] Lançar… Vou lançar nas plataformas digitais. Tinha um concerto para junho, num festival de jazz que foi cancelado. Infelizmente isto apanhou-nos a todos e a nós, das artes e da cultura, ainda pior. Vai ser difícil, os concertos para este grupo vão aparecer se calhar só para o ano. Neste momento não dá para planear o que quer que seja.

Também a Orquestra Jazz de Leiria sofreu com isto. Os concertos com Miguel Araújo foram cancelados…
Foi uma “facada” grande… Foi dois dias antes do primeiro concerto e um dia antes do ensaio geral com o Miguel. Já tínhamos feito uma série de ensaios, de arranjos. Mas estava a aproximar-se a data e eu estava a ver as notícias… E, de repente, seis meses de trabalho desmoronaram-se ali. Perdemos muito dinheiro com isto. Custou mas foi realmente uma decisão sensata. A situação não está para brincadeiras.

Há cem anos, na epidemia de Gripe Espanhola, o jazz teve um papel importante, nos anos 20. Pode voltar a ser importante, após a crise que vivemos?
Espero que sim, mas o jazz agora é um nicho muito mais pequeno e não chega a tanta gente… Na altura era a música da moda e hoje não é.

Que papel pode ter agora a música e o jazz?
Toda a música vai ter de ser reinventada. Vamos ter de pensar no que vai acontecer. As pessoas estão preparadas para outra coisa, começaram a assistir a concertos gratuitamente na net. Mudar este estigma vai ser muito difícil e temos de pensar numa maneira de dar volta à situação. Não vai ser fácil, vai afetar não só o jazz, mas toda a música.