Mais de metade (54%) dos inquiridos num estudo sobre teletrabalho do Barómetro Covid-19 disseram que estão satisfeitos com a situação, mas apenas 37% manifestaram satisfação em relação ao equilíbrio entre o trabalho à distância e a vida pessoal.

Segundo os investigadores da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), estes dados podem estar relacionados com a perceção dos inquiridos de que as exigências de trabalho são maiores quando se está em teletrabalho (40%).

De facto, 59% dos participantes consideram que “trabalham mais horas do que o habitual” e 42% dizem não ser possível “desligar-se do trabalho” para poder descansar.

No entanto, aproximadamente 70% dos inquiridos consideram que têm total autonomia e flexibilidade para decidir como e quando termina o trabalho, enquanto 41% afirmam que “por vezes” estabelecem um horário de trabalho.

“Estes fatores podem ser um contributo para manter a satisfação no trabalho”, sublinha o primeiro questionário sobre “Teletrabalho e Saúde Ocupacional” do Barómetro Covid-19, dirigido apenas a pessoas que se encontravam ou já se encontraram em teletrabalho devido à pandemia e que teve como objetivo “conhecer melhor as condições de trabalho de quem exerce a sua atividade em teletrabalho e os seus potenciais efeitos para a saúde”.

O inquérito online, que ainda está a decorrer, envolve uma amostra de 1.082 participantes, dos quais 75% são mulheres, 64% estão entre os 30 e os 49 anos, 51% são casados ou em união facto, 48% têm filhos dependentes em casa, 46% são licenciados, 34% têm o grau de mestrado e 11% o doutoramento.

A maioria (68,5%) afirmou que já tinha tido estado e, teletrabalho, refere o estudo, adiantando que 93% estava nesta situação desde o período do estado de emergência covid-19 (cerca de um mês antes do questionário).

Questionados se gostariam que o teletrabalho fizesse parte da sua atividade profissional, 59% afirmaram em tempo parcial, 22% gostariam apenas de ter essa opção esporadicamente e 9% não gostariam sequer que fosse uma opção.

Analisando o “ambiente de trabalho e saúde”, o estudo verificou que apenas 9% utilizam computador, monitor, teclado e rato. Em 33% destas situações, a altura do teclado é diferente da altura do cotovelo e o topo superior do monitor está, relativamente à horizontal, em 47% dos casos acima ou abaixo da altura dos olhos.

Quase metade (47%) utilizam computador portátil sem monitor, teclado e rato externos. “Nesta situação, a utilização do painel de interface é sempre utilizada em 44% dos casos e por longos períodos de tempo, o que não é aconselhado”.

Relativamente às posições de trabalho são igualmente fora dos ângulos de conforto no que diz respeito ao teclado (42%). Sobre o monitor, 62% trabalham sentados com o topo do monitor do portátil abaixo da altura dos olhos, “o que poderá ser um fator de desconforto (ou mesmo dor) cervical, o que são posturas não adequadas de trabalho.

Quanto ao mobiliário utilizado para trabalhar, 62% utilizam um equipamento não adequado, nomeadamente cadeira da sala, da cozinha ou outra do mobiliário da casa. Apenas a mesma percentagem faz pausas esporádicas e curtas para descansar ao longo do dia.

Os dados revelam também que 73% dos inquiridos sentem que “a empresa confia no seu bom desempenho em teletrabalho”. No entanto, apenas 33% referem que lhe são disponibilizadas “todas as condições e recursos para poder trabalhar a partir de casa, de forma eficaz”.

Segundo o estudo, 45% não receberam qualquer tipo de apoio nem equipamentos para o teletrabalho (computador, monitor, teclado, rato, cadeira, secretária). Apenas 2,3% tiveram acesso a um portátil e a uma cadeira s só a 1,5% foi disponibilizada uma secretária.

Cerca de metade disse que se se pudesse melhorar o seu espaço de trabalho em casa compraria uma “cadeira e secretária adequadas”.

Três quartos dos inquiridos disseram não ter qualquer tipo de apoio de alguém da empresa da área da Saúde e Segurança do Trabalho sobre como adequar o mobiliário e os equipamentos informáticos para estarem mais confortáveis e serem mais produtivos.

Por último, 95% disseram não ter qualquer tipo de comparticipação da empresa para Internet.

A ENSP ressalva que “a amostra do estudo não é representativa da população portuguesa”, mas representa “uma franja da população que está em teletrabalho e revela um elevado nível de resiliência”.

O estudo conclui que “o teletrabalho em matéria de saúde (e segurança) ocupacionais, tal como a denominada ‘uberização’, coloca grandes interrogações sobre a melhor forma de proteger a saúde de quem trabalha e reforça a imprescindibilidade de mais e melhor conhecimento das relações entre o trabalho e a saúde por parte de todos”.