Uma escultura com seis metros de altura é inaugurada a 05 de outubro na Vieira de Leiria, no concelho da Marinha Grande, distrito de Leiria, num manifesto contra a ignorância e em homenagem à República, explicou hoje o autor.

Fernando Crespo, que é o criador do coração de aço de 12 metros inaugurado em Fátima aquando da visita do papa Francisco em 2017, imaginou uma nova obra composta por duas figuras neoclássicas iguais: uma dourada que se apresenta de pé sobre uma moldura quadrada, e outra escura, sob essa, de cabeça para baixo.

“Todo esse conjunto assenta numa pirâmide, cujo vértice está a dez centímetros da figura que está ao contrário. É como um perigo latente, uma fragilidade. É uma metáfora, como se fosse uma vítima que está quase a ser punida por estar confinado a um espaço de ignorância”, descreveu o autor à agência Lusa.

Segundo o escultor, “a ignorância é um grande estigma” e “a República veio resolver parte do problema. Infelizmente as coisas têm-se vindo a degradar”, lamenta, justificando dessa forma a associação do novo trabalho ao 5 de Outubro, dia da inauguração.

“Esta é a linguagem, facilmente entendível, que entendi para consagrar a República, o que é o conhecimento para o indivíduo e a limitação do conhecimento para o mesmo indivíduo”, sublinha.

A peça será instalada no local onde existiu a antiga escola primária de Vieira de Leiria, de onde é natural Fernando Crespo, que frequentou esse estabelecimento de ensino, entretanto “demolido há vários anos”.

No mesmo espaço ficará a peça escultórica que evoca “a liberdade que o conhecimento traz”, em oposição “ao confinamento cultural, com as consequências que a falta de cultura tem”.

Iniciativa de uma comissão de ex-alunos, a obra serve ainda de “homenagem ao ensino e aos professores do ensino primário”, incluindo o antigo docente de Fernando Crespo, Fausto Augusto Linhares, que merecerá distinção especial no dia da inauguração.

A propósito do trabalho pensado para a Vieira de Leiria, o artista critica “o estado da cultura” no país.

“Esta escultura e o seu aparecimento são paradigmáticos. Só é possível porque eu dei o que pude, para deixar ali uma marca”, diz Fernando Crespo, explicando que cedeu gratuitamente o trabalho, ficando a cargo do município da Marinha Grande pagar os materiais.

“Estou a cumprir a minha obrigação cívica e artística para com o país e para com a República. Não sou artista do regime. Esses estão protegidos e, em tempo de crise, os municípios fazem ajustes diretos de valores perfeitamente disparatados. Não posso deixar de sentir alguma indignação”, acrescenta.