Assinar
Saúde

Consulta do Viajante de Leiria: Ameaças globais exigem maior prevenção

Sabe tudo sobre Chikungunya, cólera, dengue, doença meningocócica, encefalite japonesa, febre amarela, febre tifóide, hepatite A, malária, poliomielite, raiva, sarampo e vírus Zika? Confira os esclarecimentos da médica Ana Silva

O número de utentes que recorreram à Consulta do Viajante, em Leiria, caiu a pique em 2020, devido à pandemia de Covid-19, descendo de 2.462 em 2019 para 693 no ano passado.

Basta atender ao balanço de abril de 2020, durante o primeiro estado de emergência em Portugal, em que a Consulta, que funciona no Centro de Saúde Dr. Arnaldo Sampaio, em Marrazes, realizou zero atendimentos relacionados com aconselhamento e orientação de pessoas em trânsito para outros países.

No meses seguintes, a curva de consultas manteve-se baixa, contrastando com os primeiros dois meses de 2020, que ultrapassaram os números de 2019.

Evolução do número de atendimentos na Consulta do Viajante de Leiria
Fonte: Unidade de Saúde Pública do Agrupamento de Centros de Saúde Pinhal Litoral (ACeS PL) Infografia: Helder Brites

Anteriormente e na última década, a Consulta sofreu uma evolução crescente O balanço de 2011 indica  1.456 atendimentos, número que cresceu para 2.043 em 2012, 2.214 em 2013 e 2.241 em 2014.  Já em 2015, regrediu para 1.559, recessão que Ana Silva, médica de Saúde Pública e coordenadora da Consulta do Viajante do Agrupamento de Centros de Saúde Pinhal Litoral (ACeS PL), atribuiu à “diminuição da emigração para Angola, que foi notória em 2015”.

Ainda assim, o início de 2016 voltou a registar um aumento considerável de pedidos, facto que associou às notícias sobre o vírus Zika, que fez avolumar as preocupações dos viajantes, nomeadamente acerca das medidas de prevenção da picada de mosquitos.

Registou-se também uma preocupação maior relativamente à febre-amarela, por parte de quem viaja para Angola. Mas nem sempre foi assim.

“Havia muita gente que viajava sem recorrer à consulta. Sabemos que muitos portugueses se limitavam a dar uma ‘gorjeta’ na chegada a Angola a troco de um carimbo, sem serem vacinados. Atitudes como esta contribuem para o ressurgimento de algumas doenças”, alerta a médica.

Lembrando que a vacina contra a febre amarela tem mais de 95% de eficácia, apela a quem viajar em trabalho ou de férias para não facilitar. “O carimbo não protege ninguém”, adverte.

As doenças emergentes têm estado na ordem do dia nos últimos anos. Depois do dengue em 2013, o vírus Zika, a febre -amarela, o sarampo ou a gripe das aves suscitaram o alarme a nível mundial, dado o risco da sua rápida disseminação.

Mas são muitas mais as doenças que preocupam as autoridades nacionais e internacionais face às ameaças à Saúde Pública. A convite do REGIÃO DE LEIRIA, Ana Silva descreve 12 destas doenças, indicando o que são, períodos de incubação, sintomas e sinais de alerta, riscos e consequências, tratamentos disponíveis, medidas preventivas e zonas e risco.

Saiba mais sobre a Chikungunya, cólera, dengue, doença meningocócica, encefalite japonesa, febre amarela, febre tifóide, hepatite A, malária, poliomielite, raiva, sarampo e vírus Zika.

Chikungunya

Que doença é esta?
Doença semelhante ao Dengue, que é provocada por um vírus que se transmite também pela picada do mosquito Aedes aegypti. O mosquito Albopictus, que existe na bacia mediterrânica, pode também ser um vetor de transmissão.

Sintomas/sinais de alerta
Febre, dores musculares e articulares, pequenas manchas vermelhas no tronco, mãos e pés. As dores articulares são tão intensas que o doente tende a ter dificuldade em andar, deslocando-se muitas vezes com o corpo ligeiramente fletido sobre si próprio. Daí o nome “Chikungunya”, que significa contorcido.

Tratamento  
Não tem tratamento específico, mas apenas sintomático

Riscos e consequências
Apesar de não ter tratamento específico,  a mortalidade é bastante baixa.

Período de incubação
Oscila geralmente entre 5-6 dias, podendo ir até 10 dias.

Medidas de prevenção e cuidados a ter
A prevenção passa por evitar a picada do mosquito. Não esquecer que os mosquitos voam baixo e os joelhos, pernas e pés são o local predileto da picada, pelo que estas regiões deverão ser alvo de especial proteção.

Existe vacina?  
Não há vacina.

Zonas de risco
Dentro das regiões mais afetadas e com as quais temos maior tráfego de pessoas encontramos países como Angola, Moçambique, Tanzânia e Brasil, Índia, região das Caraíbas e continente asiático.

Cólera

Que doença é esta?
A cólera é uma doença causada por um vibrião – vibrião colérico -, uma bactéria que uma vez no intestino produz uma toxina responsável pela diarreia do doente que pode ir até vários litros por dia. A transmissão é fecal-oral sendo a água contaminada a principal causa da doença.

Sintomas/sinais de alerta
A diarreia é o principal sintoma, podendo, em casos graves, ir até 20 litros.

Riscos e consequências
Desidratação devido às enormes perdas de líquidos, prostração e emagrecimento.

Período de incubação
De algumas horas a 5 dias.

Medidas de prevenção e cuidados a ter
O uso de água engarrafada ou potável e os cuidados com a alimentação são indispensáveis na prevenção da doença.

Tratamento  
A cólera tem tratamento desde que haja meios para tal, pois a hidratação adequada é fundamental.

Existe vacina?  
Existe vacina para esta doença mas a sua eficácia é mais baixa do que é habitualmente desejável: cerca de 85%,  dependendo dos estudos. É uma vacina oral, feita em duas doses com pelo menos uma semana de intervalo e reforço aos 2 anos. A toma da vacina não dispensa os cuidados com a água e alimentos. Está indicada apenas para países de risco e em estadias prolongadas, nomeadamente para indivíduos que pretendam ali residir. Mesmo assim, dado não ser uma vacina de alta eficácia, a opinião dos profissionais de saúde quanto à sua toma não é unânime.

Zonas de risco
Existe em países em que a distribuição de água potável é deficiente ou não existe. Dos países com que nos relacionamos, os africanos são os de maior risco, sendo Angola e Moçambique países que têm surtos de quando em quando.

Dengue

Que doença é esta?
É uma doença provocada por vírus, arbovírus, que tem 4 tipos diferentes, Den-1, Den-2, Den-3, Den-4. Transmite-se pela picada do mosquito Aedes aegypti.

Sintomas/sinais de alerta
Caracteriza-se por febre, exantema (pintas vermelhas no corpo) que surgem habitualmente ao 3º dia de febre, dores articulares e musculares intensas (razão porque se chama doença do “quebra ossos” em países africanos de língua portuguesa), dor de cabeça sobretudo retrocular. Habitualmente a febre dura cerca de 5 dias e o quadro evolui favoravelmente normalmente em cerca de 7 a 10 dias no máximo. Nas formas graves podem surgir hemorragias, que ocorrem sobretudo no Den-4, e quando se toma ácido acetilsalicílico ou derivados, ou anti-in­flamatórios.

Riscos e consequências
Os riscos surgem nas formas complicadas em que ocorrem hemorragias e o doente pode entrar em “choque” e morrer, o que é raro.

Período de incubação
De 2 dias a 3 semanas.

Medidas de prevenção e cuidados a ter
Previne-se exclusivamente evitando-se a picada do mosquito. Recomenda-se uso de ar condicionado em casa e para dormir ou rede mosquiteira como alternativa; uso de roupa larga, clara, fresca e comprida; uso de repelentes com aplicação regular de 4 em 4 horas. A rede mosquiteira nas janelas é obrigatória e evitar a exposição noturna é fundamental. Nunca esquecer que o local de picada predileto são os tornozelos, pelo que deve evitar-se o uso de chinelos após o pôr-do-sol.

Tratamento
 O tratamento é apenas sintomático pois não há terapêutica específica, usando sempre o paracetamol para a febre.

Existe vacina?  
Não existe apesar de haver uma em estudo há vários anos.

Zonas de risco  
América Central e do Sul, sobretudo Brasil, Ásia, Índia; alguns países de África, sendo Angola um dos mais importantes. O Japão teve um surto em Tóquio em 2014 mas foi rapidamente debelado. Dengue em Portugal propriamente dito não há. Após o surto da Madeira em 2012/2013, em que ocorreram cerca de 2.200 casos, sem nenhum óbito, os casos que têm surgido foram importados sobretudo de Angola e Venezuela, tendo em 2015 sido situações muito esporádicas. A situação do Dengue no mundo tem-se mantido sendo o Brasil, Venezuela e Índia os países com maior prevalência.

Doença Meningocócica

Que doença é esta?
É uma doença de elevada gravidade provocada por uma bactéria que tem vários serogrupos, sendo os mais frequentes o A, B, C, W e Y.  Esta bactéria transmite-se diretamente de pessoa a pessoa, através do contacto próximo com as secreções respiratórias ou saliva. O homem é o único reservatório da bactéria.

Sintomas/sinais de alerta
Caracterizam-se por cefaleias, febre, rigidez do pescoço, náuseas, vómitos, fotofobia (dificuldade em ver a luz) e alteração do estado de consciência.

Riscos e consequências
A sépsis meningocócica é uma complicação com grande taxa de letalidade.

Período de incubação
Rondam 10 dias entre o contacto com o meningococo e o início dos principais sintomas.

Medidas de prevenção e cuidados a ter
Em Portugal, os casos de doença meningocócica são raros atualmente. A baixa incidência da doença deve-se, não só à melhoria dos cuidados de saúde mas sobretudo ao facto da Men C, vacina para o serogrupo C – um dos mais frequentes nos países desenvolvidos -, fazer parte do Programa Nacional de Vacinação (PNV) português para as crianças, principal grupo de risco desde 2006, e da vacina Men B ter sido introduzida no PNV em outubro de 2020, sendo que este serotipo era um dos que infetava as crianças até um ano de idade, em particular até aos 6 meses.

Tratamento
Tem tratamento desde que instituído em tempo útil, mas as complicações mais graves, como a meningite e sépsis existem pois o diagnóstico nem sempre é fácil. Em países subdesenvolvidos, o acesso ao diagnóstico e à medicação adequada e correta é difícil.

Existe vacina?
Para além da MenC e MenB, existe outra vacina altamente eficaz (Menveo e Nimenrix), indicada para viajantes que se desloquem para os países da chamada cintura Africana da Meningite (a sul do Sahara e Norte de Moçambique) e que vão estar em contacto direto com a população local por períodos prolongados. Já no caso de viagens de curta duração, a vacina não tem indicação.

Zonas de risco
Existe por todo o mundo, havendo, contudo, uma prevalência muito alta na chamada cintura africana da África Subsariana, tendo, nesta região, uma incidência alta quer em adultos quer em crianças.

Encefalite Japonesa

Que doença é esta?
É uma doença inflamatória do sistema nervoso central causada por um vírus da família Flaviviridae cujo reservatório são as aves selvagens e aves e porcos domésticos. É transmitida pela picada do mosquito Culex circulando o vírus entre as aves e porcos e o mosquito.

Sintomas/sinais de alerta
A sintomatologia da doença é constituída por febre, congestão nasal, mialgias, diarreia, calafrios, cefaleias (dores de cabeça), vómitos e perda de consciência que pode culminar em convulsões.

Riscos e consequências
É uma doença assintomática em cerca de 90% dos casos sendo em 10% dos casos acompanhada de sintomatologia que pode culminar na encefalite. A taxa de mortalidade vai de 15 a 40%.

Período de incubação
De 4 a 14 dias.

Medidas de prevenção e cuidados a ter
Nem todas as pessoas que viajam para os países endémicos têm indicação para ser vacinadas. Deverão ser vacinados as que vão por períodos superiores a 30 dias e que vão permanecer em regiões rurais, dormindo em residências sem ar condicionado nem rede mosquiteira para as proteger, ou as que vão acampar.

Tratamento  
O tratamento da doença é apenas sintomático. Não há terapêutica específica para esta doença fazendo-se apenas o tratamento dos sinais e sintomas.

Existe vacina?  
Esta doença pode ser alvo de vacina de nome Ixiaro que se faz em 2 doses, preferencialmente com intervalo de 28 dias podendo contudo ser 8 dias.

Zonas de risco
Os países mais atingidos são a Índia, Timor, Filipinas e todo o sudoeste asiático. Não há casos de doença notificados em Portugal.

Febre amarela

Que doença é esta?
Doença viral, transmitida pelo mosquito Aedes Aegypti, provocada por um vírus da família Flavivírus. O principal vetor é o mosquito Aedes Aegypti.

Sintomas/sinais de alerta
Febre, mal-estar geral, cefaleias, dores musculares sobretudo a nível abdominal e lombar e cansaço. Pode haver também diarreia e vómitos. Contudo grande número de casos é assintomático, ou seja, sem sintomas. O diagnóstico é possível, quando, mediante suspeita, se pedem análises específicas.

Riscos e consequências
A doença pode evoluir com complicações hemorrágicas e hepatite grave com quadro de icterícia muito marcado que torna a pele e mucosas de cor amarela.

Período de incubação
Os sintomas surgem cerca de 3 a 7 dias após a picada do mosquito.

Medidas de prevenção e cuidados a ter
A prevenção faz-se pela prevenção eficaz da picada do mosquito com uso de repelentes e roupas adequadas, compridas e frescas, recomendando-se ar condicionado ou rede mosquiteira para dormir. A vacinação é fundamental para quem viaja para Angola.

Tratamento  
Não há tratamento específico como para a maioria das doenças virais, havendo apenas tratamento sintomático de suporte nomeadamente com transfusões, mas a taxa de letalidade é muito alta chegando a cerca de 50%. Também nesta doença está contraindicado tomar ácido acetilsalicílico (aspirina e derivados) ou outros anti-inflama­tórios para a febre, devendo tomar-se apenas paracetamol.

Existe vacina?  
A eficácia da vacina é superior a 95%, estando atualmente indicada a vacina Stamaril. Até 2014 era recomendada uma dose da vacina de 10 em 10 anos, mas desde junho de 2014 que a OMS assumiu a eficácia da vacina para toda a vida.

Zonas de risco  
Os países mais afetados são a África subsaariana a norte de Moçambique, Brasil e toda a região amazónica. Dos países com os quais nos relacionamos o pior é atualmente Angola que voltou a ter febre amarela desde dezembro de 2015, com 99 casos conhecidos e oito óbitos, e Brasil que teve um grave surto entre 2016 e 2019. Desde 1986 que Angola não tinha febre amarela.

Febre tifóide

Que doença é esta?
Ainda existe em todo o mundo, associada a baixo nível sócioeconómico e, como tal, a higiene ambiental, pessoal e alimentar deficitárias. É provocada por uma bactéria salmonela typhi. A transmissão é fecal-oral, pois a bactéria é eliminada pelas fezes.

Sintomas/sinais de alerta
São variáveis mas os mais importantes são febre alta, dores de cabeça, mal-estar geral, falta de apetite, pequenas manchas vermelhas no tronco, diarreia ou obstipação (prisão de ventre).

Riscos e consequências
Pode ter complicações graves como hemorragias digestivas.

Período de incubação
O tempo que medeia entre a ingestão do produto contaminado e o aparecimento dos sintomas é variável mas pode ir de uma a três semanas.

Medidas de prevenção e cuidados a ter
A prevenção faz-se através dos cuidados na higiene alimentar. Devem comer-se apenas alimentos cozinhados e beber bebidas engarrafadas, preferencialmente água, evitando saladas cruas e marisco. Deve dar-se preferência à fruta descascada para sobremesa evitando doces e salada de fruta, o que implica muito manuseamento com as mãos e respetiva lavagem. Esta medida é fundamental para prevenção desta doença e para todas as que se transmitem por via fecal-oral, como Hepatite A, Poliomielite e Cólera.

Tratamento
O diagnóstico laboratorial é acessível mesmo em países subdesenvolvidos. Tem tratamento desde que diagnosticada atempadamente, não sendo o tratamento muito dispendioso, mesmo nos países de risco.

Existe vacina?
Existe uma vacina comercializada sendo a sua eficácia de cerca de 77%, estando apenas indicada para quem viaja em estadia prolongada para países de risco, em que a doença ainda é endémica.

Zonas de risco
É prevalente nos países africanos, Índia, países do Sudoeste Asiático e América Latina.

Hepatite A

Que doença é esta?
É uma doença viral causada por um vírus da família Picornaviridae, e está relacionado com défice de higiene alimentar. Transmite-se por via fecal-oral, entre pessoas.

Sintomas/sinais de alerta
Os sintomas são variáveis, sendo que a maioria das crianças afetadas, mais de 95%, não tem sintomas.  Nos adultos, os mais comuns são febre, mal-estar geral, falta de apetite, dores abdominais e icterícia (mucosas e pele amarelas) entre outros.

Riscos e consequências
Nos adultos a Hepatite A pode ter complicações sérias e quem viaja para países de risco deve ser vacinado se não teve a doença.  Em Portugal, a geração com 50 anos ou mais está quase toda imunizada por ter tido a doença em criança sem ter conhecimento disso.

Período de incubação
É variável mas pode ir em média até 4 semanas.

Medidas de prevenção e cuidados a ter
Previne-se com a vacina que é 100% eficaz.

Tratamento
Não há tratamento específico mas apena sintomático.

Existe vacina?
Aconselhamos a vacina a toda a população até aos 40 anos sem qualquer análise prévia. À população com mais de 40 anos que viaja aconselhamos a análise para saber se teve Hepatite A ou não e a vacinação caso não estejam imunizados pela doença. Devem ser feitas duas doses com um intervalo de 6 meses a 1 ano e o utente fica vacinado para toda a vida.

Zonas de risco  
É endémica nos países africanos, em alguns países asiáticos, como a Índia e os do Sudoeste Asiático, América Central e Sul. Países sem condições higieno-sanitárias desejáveis, em que água potável não chega à população em geral e sem rede de esgotos adequados, são os países de maior risco.

Malária ou Paludismo

Que doença é esta?
É uma doença provocada por um parasita chamado Plasmodium, que tem quatro subtipos: oplasmodium falciparum, vivax, ovale e malarie. É transmitido ao homem pela picada do mosquito fêmea Anopheles, cujo período predominante da picada é após o pôr-do-sol e durante a noite.

Sintomas/sinais de alerta
Febre alta, que surge ao fim do dia e durante a noite (febre vespertina), calafrios, mialgias e artralgias intensas.

Riscos e consequências
Corresponde à doença com maior impacto mundial, sendo a que apresenta maior letalidade no mundo.

Período de incubação
Após a picada, o parasita aloja-se no fígado do homem onde permanece entre 1 a 4 semanas até começar o período sintomático. O diagnóstico faz-se através de uma análise ao sangue, a chamada “análise da gota espessa”, a única usada nos países subdesenvolvidos, sendo que, nos países desenvolvidos, estão também disponíveis análises mais específicas, mas mais dispendiosas.

Medidas de prevenção e cuidados a ter
Apesar de não existir uma vacina para a malária, é possível fazer-se prevenção através da prevenção da picada do mosquito e pela toma de medicamentos prescritos em função do destino do viajante, dado que a distribuição das diferentes famílias do Plasmodium no mundo é diferente consoante a região geográfica, o que condiciona a profilaxia a fazer. 

Tratamento
O diagnóstico atempado é fundamental, dado que o atraso no mesmo poderá ser fatal devido às complicações associadas à doença, tais como a malária cerebral que é uma complicação grave e letal numa grande percentagem dos casos. Assim, o aparecimento de febre até 4 semanas, após o regresso de um país em que a doença é endémica, deve pressupor o diagnóstico de malária até prova em contrário, a fim de permitir o início rápido do tratamento. Os países em questão e com os quais nos relacionamos mais são os da África Subsariana, Índia, Sudoeste asiático, Timor e os países que englobam a região Amazónica na América do Sul.

Existe vacina?
Não existe.

Zonas de risco
No que se refere aos viajantes, a malária afeta mais a população viajante “residente” em África e noutros países em que a malária é endémica, pois o tempo de estadia faz com que as pessoas vão ganhando “hábitos” e negligenciem os cuidados a ter com a profilaxia, quer medicamentosa quer em termos da picada dos mosquitos. Quem viajar para países em que a malária é endémica, deverá fazer com tempo a consulta do viajante a fim de ser devidamente aconselhado.

Poliomielite

Que doença é esta?
A poliomielite, conhecida em Portugal como Paralisia Infantil, é uma doença viral em vias de extinção que, contudo, devido à negligência quer das pessoas quer dos governos de alguns países, nomeadamente africanos, se tem manifestado por surtos. Transmite-se por via fecal-oral entre pessoas.

Sintomas/sinais de alerta
Febre, cefaleias (dor de cabeça), náuseas, vómitos, alterações do trânsito intestinal, dor nos membros com perda de força.

Riscos e consequências
A principal complicação é paralisia de um ou mais grupos musculares que atinge um dos membros, sobretudo inferiores e que ocorre em 1% dos doentes. Em Portugal os doentes com sequelas de poliomielite são indivíduos com mais de 50 anos e que ficaram com paralisia mais frequentemente de um dos membros inferiores.

Período de incubação
Oscila de 1 a 2 semanas.

Tratamentos  
Não há tratamento específico mas sintomático e de suporte.

Existe vacina?
Até há 10 anos a vacina era uma vacina viva e administrava-se por via oral em gotas. Dado o risco, embora muito baixo, de casos de chamada Paralisia Flácida foi substituída nos países desenvolvidos por vacina injetável e inativada. Nos países pobres, é administrada a vacina oral por ser muito mais barata. Ambas as vacinas são altamente eficazes. A vacina é recomendada aos adultos que viajem para países de risco.

Zonas de risco
Angola tem tido alguns surtos epidémicos, o último dos quais em 2019. Os países onde a poliomielite é ainda endémica são Afeganistão, Paquistão e Nigéria. O último caso em Portugal foi registado nos Açores em 1986.

Raiva

Que doença é esta?
A raiva é uma doença aguda grave, causada por um vírus da família Rhabdoviridae. É uma zoonose, ou seja, uma doença dos animais que se transmite aos humanos, que existe ainda em mais de 100 países. Os principais reservatórios do vírus são o cão, gato e macaco, havendo outros animais selvagens, como a raposa, morcego, coiote, entre outros que também a transmitem. A transmissão acontece pela mordedura destes animais, uma vez que o vírus existe na sua saliva.

Sintomas/sinais de alerta
Dor de cabeça, febre, salivação excessiva, confusão mental, alucinações, paralisia e convulsões.

Riscos e consequências
Culmina habitualmente na morte, com uma taxa de mortalidade que ronda os 100%. Para isto contribui o facto de não existir tratamento específico, sendo apenas realizada terapêutica sintomática.

Período de incubação
Estende-se geralmente entre 3 a 8 semanas.

Medidas de prevenção e cuidados a ter
A prevenção é fundamental, quer pela evicção do contacto com animais selvagens, transmissores da doença em países de risco, quer pela vacinação dos animais domésticos.

Tratamento
A mordedura acidental por um dos animais referidos implica lavagem abundante e desinfeção adequada do local afetado, devendo, iniciar-se de imediato a vacina, num esquema de 5 doses em 28 dias. Como já referido, o mais seguro é apostar na prevenção.

Existe vacina?
A vacinação em viajantes, com risco elevado de exposição está indicada, sendo necessárias duas doses da vacina com intervalo de oito dias. Está ainda indicada na pós-exposição, devendo ser feita administração imediata após a mordedura do animal. A vacina encontra-se disponível nalguns Serviços de Urgência de hospitais portugueses (como é o caso do Centro Hospitalar de Leiria), a fim de possibilitar a administração nas circunstâncias referidas e, particularmente, possibilitando aos viajantes que possam ter sido mordidos em países de risco, continuar a vacina à chegada a Portugal.

Zonas de risco
Portugal está isento de raiva desde 1960, mas nos países africanos, asiáticos e na América Central e do Sul, nomeadamente Brasil, é ainda uma doença comum. Em Portugal, o último caso de morte por raiva foi registado em 2014 tendo falecido um português residente em Angola, que foi mordido por um gato no aeroporto de Luanda. Na Europa, a doença foi também fatal para um jovem inglês, que foi também mordido por um gato em Marraquexe em dezembro de 2018, durante um período de férias.

Sarampo

Que doença é esta?
É uma doença que até há pouco tempo se julgava em vias de extinção e que, por negligência e “moda”, baseadas no receio associado à toma da vacina que previne esta doença, está a tornar-se uma doença emergente, não só em países pobres mas também em países europeus e nos EUA. Estas correntes, que semearam receio e desconfiança na opinião pública, baseiam-se em teorias que revelam um desconhecimento total da doença e da ciência nesta área.  É provocada por um vírus que se transmite por via respiratória, sendo bastante contagiosa.

Sintomas/sinais de alerta
Caracteriza-se por febre alta, conjuntivite, fotofobia (dificuldade em ver em ambientes muito iluminados), tosse, exantema (manchas vermelhas) generalizado.

Riscos e consequências
As complicações podem incluir otite, pneumonia, encefalite, surdez e morte.

Período de incubação
Pode ir de 7 a 10 dias.

Medidas de prevenção e cuidados a ter
A sua prevenção é possível com a vacinação gratuita, incluída no Programa Nacional de Vacinação, feita com a administração de uma dose aos 12 meses e outra aos 5-6 anos.

Tratamento  
O sarampo não tem tratamento específico, mas apenas sintomático, como a maioria das doenças virais. Em caso de infeção, para o controlo sintomático não deve ser usado ácido acetilsalicílico, que pode ser feito com paracetamol. Contudo, apesar da possível gravidade do quadro, é uma doença prevenível pela vacinação, medida que deverá continuar a ser privilegiada no controlo desta doença.

Existe vacina?
A vacina VASPR, introduzida em 1987, protege contra o sarampo, papeira e rubéola, substituindo a VAS. Prevê uma dose aos 12-15 meses, e uma segunda dose aos 5-6 anos. É ainda recomendada aos viajantes com menos de 18 anos que tenham as duas doses de VASPR e aos com mais de 18 anos que tenham uma dose de VAS ou VASPR, a menos que já tenham contraído sarampo. A vacina está contraindicada na gravidez, aconselhando-se que esta aconteça pelo menos três meses após a vacinação. A geração entre os 40 e 50 anos é a que deve ser alvo de maior atenção, uma vez que muitos não tiveram a doença, mas também não foram vacinados previamente, pelo que o deverão fazer.

Zonas onde existe
Em Portugal, graças à ótima cobertura vacinal (99% aos 6 anos de idade), não eram reportados casos autóctones (contraídos em Portugal) desde 2002, mas em 2017 tivemos um caso de morte numa adolescente de 17 anos não vacinada, que ocorreu em contexto de surto de sarampo desencadeado por caso importado e que deu origem a 29 casos de sarampo confirmados.

Vírus Zika

Que doença é esta?
O vírus Zika é um vírus da família Flaviridae que se transmite ao homem através da picada de mosquitos. Há contudo a possibilidade de ser transmitido por via vertical – mãe/filho e provavelmente durante o parto se a mãe estiver infetada. A transmissão sexual é também atualmente admitida. Contudo a picada do mosquito é a via mais importante. O mosquito aedes aegypti é o que está mais implicado, mas o aedes albopictus (que existe na bacia mediterrânica) pode também ser vetor de transmissão.

Sintomas/sinais de alerta
Febre, exantema (pintas vermelhas no corpo e face), dores articulares (artralgias), musculares (mialgias) ou de cabeça (cefaleias), conjuntivite não purulenta, ou seja olhos vermelhos (esta característica difere esta virose de outras também transmitidas pelo mosquito aedes aegypti) e, mais raramente queixas gastrointestinais. Admite-se que 60% a 80% dos infetados sejam assintomáticos, ou seja, não têm qualquer sintoma.

Riscos e consequências
Os riscos para o adulto não parecem ser muito importantes com exceção da mulher grávida ou que pretenda engravidar, uma vez que se admite como complicação provável a microcefalia no feto. Aconselha-se a mulheres em idade fértil que estiveram em países de risco a fazerem a serologia para o Zika a fim de saberem se tiveram ou não contacto com o vírus. A análise é feita no Instituto Ricardo Jorge de Lisboa e há já laboratórios em Leiria que fazem a colheita e enviam.

Período de incubação
Cerca de doze dias.

Medidas de prevenção e cuidados a ter
Previne-se exclusivamente pela prevenção da picada do mosquito, uso de repelentes adequados e uso de roupas largas, claras e compridas, com mangas,  e calças. Não devemos esquecer que os mosquitos voam baixo e a zona dos tornozelos é das mais importantes na picada. Nas zonas de risco, após o pôr-do-sol e durante a noite, evitar andar de chinelos. É ainda fundamental dormir com ar condicionado ligado ou com rede mosquiteira. Quanto ao uso de inseticidas em spray nos quartos, implica um tempo de espera (para aí permanecer) de três a quatro horas.

Tratamento
Não há tratamento específico, apenas sintomático. Para a febre, deve evitar-se a aspirina e tudo o que contenha ácido acetilsalicílico, tal como os anti-inflamató­rios em geral, pelo risco de complicações hemorrágicas. Assim, nas zonas de risco, a existência de febre implica a toma exclusiva de paracetamol.

Zonas de risco  
Segundo a Direção-Geral da Saúde, foram registados nove casos em Portugal desde junho do ano passado, todos eles importados da América Latina. Quem viaja para a América do Sul e Central, África e Ásia, tem que adotar os cuidados já referidos. O Brasil é atualmente um país de alto risco. De salientar que se espera que todos os países que tenham mosquitos aedes aegypti possam vir a ter o vírus Zika, incluindo as ilhas do Índico e Índia. De um modo geral, fora da Europa e América do Norte é de admitir que possa vir a existir a doença. Por agora não temos o mosquito em Portugal mas não é impossível que tal possa vir a acontecer.

Artigo publicado originalmente no Diretório de Saúde 2016 e atualizado

Apoie o REGIÃO DE LEIRIA

Se chegou até aqui é porque este é um texto que lhe interessa. Por detrás dele há uma equipa e um conjunto de recursos que custam dinheiro e que, para continuarem a existir, precisam da sua ajuda. Gostávamos de lhe explicar como.