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Cultura

Cinema ganha um novo festival inclusivo na Batalha

“Batalha Inclusive Film Fest” tem estreia marcada para sábado, 4 de setembro, e inclui uma sessão com audiodescrição e legendagem, preparada para pessoas com dificuldades de visão e audição.

Na sessão Grande Prémio Inclusão, o público presente será convidado a votar no seu filme favorito, em boletins também disponíveis em braille Foto: BIFF

Há três semanas que uma equipa de oito pessoas prepara quatro filmes para poderem ser vistos por público com dificuldades de visão e audição. “É um trabalho insano e que desconhecíamos completamente”, assumiu hoje o realizador Bruno Carnide, diretor do novo “Batalha Inclusive Film Fest” (BIFF), festival dedicado à inclusão que arranca a 4 de setembro.

O novo festival terá quatro sessões, mas apenas na competitiva, que atribui o Grande Prémio Inclusão, haverá audiodescrição e legendagem, em sala e não dedicada de acordo com o espectador, para permitir que todos percebam como é para uma pessoa cega e surda assistir a cinema inclusivo.

A inclusão, contudo, “tem muito que se lhe diga”, sublinhou o responsável pelo BIFF, porque ela começa “logo nos filmes estrangeiros que vemos e que são legendados para português”.

Por isso, para chegar a um auditório mais vasto será preciso um orçamento “muito maior” e “muito mais tempo”, do que este que está a ser dedicado pelas equipas do Centro de Recursos para a Inclusão Digital (CRID), do Politécnico de Leiria, com o auxílio de pessoas com dificuldades auditivas e de visão, para preparar os quatro filmes que vão a concurso, num total de 40 minutos.  

Em futuras edições do BIFF, a intenção é aumentar a capacidade de inclusão, mesmo que seja “impossível passar um filme e ele estar disponível para todas as pessoas”. “Era preciso pensar em minorias, comunidades emigrantes e muito mais”, o que implicava ter o mesmo filme exibido várias vezes, exemplifica Bruno Carnide. 

No arranque do novo festival da Batalha, a inclusão começa nos flyers, produzidos com letra maior do que o habitual e em braille, mas também pela gratuitidade dos bilhetes e pela acessibilidade à sala. Por outro lado, a seleção de filmes procura uma abrangência etária dos filmes exibidos, que começa logo a partir dos 3 anos, numa sessão de Monstrinha, pensada em colaboração com a Monstra.

O BIFF, que é organizado pelo Leiria Film Fest e o município da Batalha, pretende assim levar o cinema a todos e promover a produção de filmes no concelho.

“Este é um passo em frente, o primeiro de muitos passos que temos de dar. Queremos marcar a diferença com a componente da inclusão e por a região no mapa com esta abordagem”, sublinhou hoje o presidente da Câmara da Batalha na apresentação. 

Para Paulo Batista dos Santos, o BIFF surge num “território inclusivo”, que tem no Museu da Comunidade Concelho da da Batalha “um exemplo”, sendo o festival uma nova proposta para “partilhar a cultura de forma igual com todos”, mas não só as pessoas portadoras de deficiência:

“Há um conjunto de doenças que a idade traz. Haverá 80 milhões de europeus que poderão estar a caminhar para dificuldades na sua mobilidade, na visão e na audição. Hoje a inclusão não se esgota só em quem é portador de deficiência, mas em todos os nossos concidadãos que têm dificuldades e que querem participar ao longo da vida no que é a cultura e o turismo”. 

O autarca considera que com esta realização se está a fazer “um bocadinho de história no cinema na região e, atrever-me-ia a dizer, até no país. Não é um tipo de iniciativa replicada por outras entidades”, frisou.

O ator Tobias Monteiro, natural da Batalha, apadrinha a estreia do BIFF e admite que falar em festival inclusivo “é sempre muito arriscado nos dias que correm”, porque para ser verdadeiramente inclusivo teria de ser “muito mais abrangente”, abarcando temáticas como “a questão racial ou os direitos LGBT”.

“Mas são baby steps. Só o facto de estarmos a começar, com uma tentativa destas, para que seja uma lançada uma reflexão para como podemos tornar as questões da cultura – neste caso cinema – mais inclusivas, é de facto importante. O tema em si é muito importante e dar protagonismo a essa questão é fundamental”, frisou.

E o “padrinho” do festival garantiu que a organização está “disponível para todo o tipo de sugestões que possam surgir” a partir desta primeira edição, de modo a “colmatar eventuais falhas e para que possamos encontrar novas soluções e que um invisual, seja um deficiente motor, um surdo ou outra pessoa possa beneficiar de uma boa sessão de cinema sem prejuízo da própria obra”.

Tobias Monteiro deseja que a discussão gerada pelo festival da Batalha possa “servir de motor para ajudar a colmatar as falhas que existem” no acesso à cultura e ao cinema.

A organização do BIFF ambiciona ainda disseminar o gosto pelo cinema, mostrando quatro filmes com ligação ao concelho da Batalha. “Percebemos que não há aqui muita gente a fazer filmes e queremos que este festival possa alavancar esse interesse”, disse o diretor do festival, Bruno Carnide

O BIFF começa às 11 horas de sábado no Auditório Municipal da Batalha, com os filmes da Monstrinha (para crianças dos 3 aos 5 anos), prosseguindo à tarde com sessões de curtas da produtora Tripé (15 horas) e de filmes realizados no concelho (17 horas).

O destaque é o Grande Prémio Inclusão, que fecha a programação às 18 horas com a competição entre quatro filmes que abordam desde a dança de pessoas com mobilidade reduzida às migrações, passando pelos transtornos obsessivos compulsivos à obesidade e anorexia

A concurso estão “Raiz”, de Vasco André dos Santos, “Roberto”, de Carmen Córdoba Gonzalez, “Nestor”, João Gonzalez, e “Migrants”, de Hugo Caby, Antoine Dupriez, Aubin Kubiak, Lucas Lermytte e Zoé Devise.

Dez por cento do orçamento do festival será entregue à obra da Casa do Mimo – Centro de Lúdico e Ocupacional para Crianças e Jovens, com sede na Batalha, divulgou a organização.

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