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Autárquicas 2021

Gonçalo Lopes: “Se há uma meta a alcançar é combater a abstenção e reduzi-la”

Assumiu a presidência da Câmara de Leiria há dois anos com a saída de Raul Castro. Cumpriu um mandato curto, mas intenso. Para o próximo não antevê menos trabalho: promete dar resposta ao problema das suiniculturas.

foto de gonçalo lopes no percurso polis em leiria

Um ano depois de assumir as funções de presidente de Câmara, o REGIÃO DE LEIRIA entrevistou-o. Nessa ocasião, uma das suas afirmações foi: “o resto do mandato vai ser um mandato Covid”. Em que medida a pandemia condicionou o seu desempenho como presidente de Câmara?

Foi condicionado não só em Leiria, mas em todo o país. O contexto pandémico veio a piorar e o foco das nossas ações diárias como autarcas virou-se sobretudo para o combate à pandemia. Isso ficou bem visível com a mobilização de grande parte dos vereadores para definir estratégias e medidas de mitigação do efeito pandémico, com a criação de respostas na área da saúde, na área económica e na área social, o que fez com que muitas das nossas energias se direcionassem para aí.

O que é que deixou de fazer por causa da Covid?

Sobretudo as obras que tinham sido pensadas sofreram adiamentos devido às questões económicas que existiram e que persistem ainda no contexto atual. Mas abriu-se também uma janela de indefinição relativamente ao futuro mundial que resulta da sociedade pós-pandemia. Alguns investimentos terão necessariamente de ser analisados no contexto de uma nova sociedade, que passam pela organização do espaço público, organização dos espaços culturais, desportivos, dos locais de trabalho. Temos um centro de negócios para ser lançado e também temos que perceber qual a influência que o teletrabalho terá em toda a sociedade. Não vamos tomar decisões que podem condicionar o nosso futuro. Obriga, durante este ano, a ter muita ponderação e a focar na resolução dos problemas imediatos.

Em relação ao seu desempenho, ao que fez enquanto presidente de Câmara na pandemia, como se sente?

No período pandémico, senti que deveria dedicar tudo o que tinha, todas as energias que tinha a este combate. É um combate de uma vida. Costumo dizer, e digo conscientemente, que este ano, este período que vivemos ficarão escritos na história mundial e nós fazemos parte da história.

Fez tudo o que podia ter feito?

Há partes relacionadas com a área da saúde, onde não podíamos passar as nossas competências. Houve momentos em que gostaríamos de ter uma intervenção mais ativa, mas não temos a competência. Também não podemos fazer intervenções em áreas que não são nossas, área hospitalar, dos centros de saúde. Isso foi o mais importante do período de combate à pandemia, o papel de autarca como criador de elos e de pontes com a administração pública nas mais diversas áreas, segurança social, forças de segurança, sobretudo saúde, economia. Daí termos criado o gabinete económico e social que é inovador, porque sabíamos que tínhamos que ter uma forte ligação e entrosamento na região no combate à pandemia. Daí resulta o reconhecimento que Leiria conseguiu alcançar no combate à pandemia, algo que enche de orgulho os autarcas, o sector da saúde, o sector social, o sector económico, porque de facto foram muito energizados neste combate em que mobilizámos muitos recursos. Afetámos 1,2 milhões de euros nu fundo de emergência social que não existia, 750 mil euros no apoio às microempresas que passam por muitas dificuldades, a esteticista, o restaurante, a loja do pronto-a-vestir. Houve um forte investimento no apoio às famílias e às microempresas. Não poderíamos nunca ficar de lado do auxílio às populações e à economia.

“Só no dia das eleições é que me sinto efetivamente um presidente democraticamente eleito”

A partir de 26 de setembro, se vier a presidente de Câmara, sê-lo-á após uma eleição. Vai sentir que ocupa o cargo com outra legitimidade?

Sem dúvida. Claro que esta eleição é a primeira eleição em que participo como cabeça de lista. Fiz parte do projeto autárquico na Câmara nos últimos 12 anos como vice-presidente. Tenho felizmente hoje uma base de apoio que ultrapassa as questões partidárias, tenho muitos independentes, os presidentes de junta, isso resulta muito do trabalho que desenvolvi ao longo do meu trajeto autárquico nos últimos 12 anos. No entanto, só no dia das eleições é que me sinto efetivamente um presidente democraticamente eleito, embora muitas das pessoas que acompanham a vida autárquica sempre reconheceram a minha capacidade e uma pessoa que poderia suceder a este projeto autárquico ao longo dos anos. Seria sempre uma referência de continuidade e isso só faz com que eu tenha um peso enorme de responsabilidade em cima dos ombros, não só nos últimos dois anos, mas desde que começou este processo autárquico.

A sombra do anterior presidente da Câmara, Raul Castro, já não vai pairar sobre si?

Não é nada que me incomode. Estou tranquilo sobre o trabalho feito. Os leirienses conhecem o meu trabalho como presidente de Câmara nos últimos dois anos e não existe qualquer tipo de sombra sobre a minha atuação como autarca e esse tipo de preocupação hoje em dia não me atinge.

Em novembro do ano passado, Raul Castro, numa entrevista ao REGIÃO DE LEIRIA, deu-lhe nove valores por não estar a cumprir o programa. Na altura o Gonçalo não reagiu a essa entrevista, mas pergunto-lhe agora como é que encarou essas declarações?

Nesta fase, em que estamos num período de campanha, não faz sentido comentar avaliações ou outro tipo de comentários sobretudo de uma pessoa com quem trabalhei durante 12 anos, afincadamente e com total lealdade. Sendo ele candidato também a uma autarquia vizinha, faço questão de não criar qualquer tipo de ruído. Sinto um grande orgulho por tudo aquilo que foi feito. Acho que foi um trabalho notável de recuperação económica e financeira do concelho e do município onde eu e uma equipa muito grande demos tudo. Demos mais do que aquilo que é normal, numa vida autárquica, a um projeto de mudança em Leiria e naturalmente só tenho a agradecer e elogiar todos aqueles que tornaram este projeto político, autárquico, viável e com a dimensão que tem hoje. Hoje é uma referência no contexto nacional porque ter esta quantidade de autarcas, de membros de listas envolvidos na vida política de um município como o nosso, que tem uma dimensão relevante no contexto nacional, é de facto uma obra notável.

E como será a vossa relação se ambos forem eleitos?

Teremos que esperar pelo dia 26. Poderei não ser eleito nesse dia, assim como ele poderá não ser eleito. Não tenho qualquer tipo de antecipação sobre cenários futuros. Aquilo que desejo a todos os candidatos não só de Leiria, mas todos os candidatos autárquicos da nossa região, é que façam uma campanha por elevação, que tenham uma visão não só de desenvolvimento do seu concelho, mas de toda a região, que todos juntos podemos tornar este território ainda mais atrativo e um exemplo no contexto do desenvolvimento nacional. Há muito por fazer e, portanto, temos que colocar sempre os interesses do nosso território e das nossas populações à frente de questões pessoais ou de questões de menor dimensão. Irei sempre, como tenho feito até hoje, colocar os interesses de Leiria à frente dos interesses partidários ou de relações ou de conflitos de natureza pessoal.

O que tem a dizer a quem o acusa de desbaratar dinheiro, de gastar como se não houvesse amanhã? Tem muita obra feita, isso é evidente, mas as acusações de que a gestão não tem sido a melhor têm sido frequentes.

O Município de Leiria tem uma dimensão e uma necessidade de desenvolvimento muito grande e a Câmara tem condições para ajudar nesse desenvolvimento. Precisamos de políticas ativas muito fortes para o futuro. Continuamos a acumular receitas anualmente. A Câmara tem um orçamento de 100 milhões de euros e todos os anos aumenta o seu saldo de transferência, portanto não consegue investir ao ritmo que ambiciona. A tentativa de dizer que a Câmara desbarata recursos é uma mentira e os números comprovam. Entrámos na Câmara com 110 milhões de euros de dívida e conseguimos reduzi-la em mais de 60%. Hoje temos uma dívida muito menor do que quando entrámos. Não é possível alcançar esses resultados desbaratando. Por outro lado, há uma forte contradição das pessoas que acusam a Câmara desse despesismo, porque são os mesmos que reclamam mais obra e mais investimento ao mesmo tempo que criticam aquilo que é feito. Houve decisões que já tomámos e que já tomei, onde garantimos a sustentabilidade e a segurança relativamente às finanças da Câmara como o adiamento de obras cujo investimento poderia colocar em risco os orçamentos futuros.

É o caso do pavilhão?

O multiusos de Leiria.

Se vencer, Gonçalo Lopes será o primeiro militante socialista a presidir à Câmara de Leiria.  Fotos: Joaquim Dâmaso

Se for eleito qual será a sua prioridade, sendo certo que já avançou com as áreas que considera centrais: a questão da requalificação da bacia do Lis, a mobilidade, a atração de residentes para o concelho com melhores condições em termos de habitação, cultura, desporto e a instalação de empresas criadoras de emprego. Mas dentro destas prioridades qual é a que está no topo?

A questão do ambiente é a minha principal preocupação. Desde o primeiro dia em que passei a ser presidente de Câmara várias medidas tomei para a resolução de défices ambientais que o concelho tem.

Está a falar da poluição suinícola ou no geral?

No geral. Hoje um autarca tem que ter uma visão muito clara, muito determinada sobre aquilo que são os interesses ambientais com vista à sustentabilidade da sua comunidade. Quem ignorar as preocupações das alterações climáticas e os impactos que a atividade económica tem no meio ambiente e na vida das pessoas, é um autarca que está desfasado por completo daquilo que será a sua geração futura. Não estamos a governar a pensar naquilo que são os nossos dias, estamos a pensar para uma geração que hoje tem 10 anos e quando tiver 20 anos quer um concelho que seja ambientalmente sustentável porque se não for não vai querer viver cá. Isto é uma missão que todos temos que assumir e o presidente da Câmara tem que ser o líder desse movimento. O primeiro exemplo foi a questão do gás da Bajouca que, sem qualquer tipo de hesitação, recusei e lutei juntamente com a população dessa freguesia para que não existisse exploração de gás; a ligação imediata com o Governo e com os agentes locais na tentativa de encontrar soluções para a resolução da poluição suinícola que é um dos principais problemas que temos no concelho; a melhoria do desempenho do saneamento básico na zona urbana que está obsoleto e que provoca problemas de infraestruturas e de poluição das linhas de água; a criação de um serviço de vigilância ambiental; a revisão daquilo que é a manutenção e limpeza do espaço público. A área do ambiente é uma preocupação geral de todos os autarcas do país e tem que haver uma agenda transversal para conseguir fazer essa transformação.

No caso da poluição suinícola, consegue avançar com uma data aos leirienses para o fim das descargas de efluentes no rio?

Nenhum político, a não ser que seja um populista, tem condições de assumir qualquer tipo de data para terminar um problema que se arrasta há mais de 50 anos.

Não estabeleceu para si objetivos nesse domínio?

Tenho um objetivo para o próximo mandato que é conseguir criar um parque tecnológico agroindustrial que promova economia circular junto das empresas produtoras de efluentes agroindustriais, nomeadamente os suinícolas e os avícolas. Para ter uma ideia, Leiria é a capital da produção suinícola intensiva. São 300 suiniculturas ativas todos os dias, a produzir carne para nos alimentarmos, mas também a produzir efluentes, uma atividade económica que produz uma externalidade. Essa externalidade tem que ser resolvida. Durante tanto tempo nenhum autarca conseguiu resolver, nem o sector nem o Governo conseguiram resolver e a minha determinação – e as pessoas já me conhecem, fiz esse trabalho na cultura, transformando também aquilo que é o panorama da nossa cidade e da nossa imagem em termos de cultura – a minha energia nos próximos quatro anos é para tentar resolver este problema, não tenho é uma data exata de resolução.

Se for eleito, até ao final do próximo mandato compromete-se com esse parque?

O compromisso está assumido, nunca ninguém o assumiu. Nunca ninguém o colocou no topo das prioridades. Estou a assumi-lo como compromisso de honra de que irei fazer tudo, eu e aminha equipa, para conseguir ultrapassar este problema. Não tenho uma data definida para a sua resolução porque será gradual. Começamos no zero e daqui a quatro anos iremos ter provas dadas, irei dar a cara por aquilo que conseguirmos fazer ao longo desse período e estou convencido de que vamos melhorar bastante o nosso desempenho ambiental quer em termos de poluição provocada por sectores poluidores, mas também naquilo que é o nosso desempenho em termos ambientais nas zonas mais urbanas nomeadamente a cidade.

No campo da mobilidade, há alguma meta quantificável que tenha colocado ao nível por exemplo da redução do número de automóveis a circular na cidade, número de utilizadores das ciclovias? Acontece muito em política: estabelece-se um objetivo, mas não se estabelecem metas quantificáveis que depois permitam aferir se esse objetivo efetivamente foi cumprido. Tem alguma meta estabelecida nessa matéria?

Na política também há indicadores de desempenho, não é só nas empresas e nas outras atividades. O político é um gestor e gere os recursos públicos para alcançar objetivos. Volto a dizer, os nossos objetivos na área da mobilidade, só nos últimos dois anos, com o aumento do número de ciclopistas na cidade, a criação de condições para a redução dos carros e da velocidade dos carros na cidade, a aposta que está a ser feita no aumento de zonas pedonais, a aposta que tem sido feita na reabilitação do Polis são indicadores, são resultados que temos para apresentar.

Mas só são eficazes se forem utilizados, certo?

Este tipo de discussão é mundial. Acompanho muitas discussões sobre a importância que os meios de transporte leves têm dentro das cidades e é um discurso muito habitual. Aquilo que sei é o seguinte: cidade que não tem oferta nesta área não terá futuro, porque as gerações futuras já não querem possuir carros, querem usar transportes e muitos deles querem transportes ambientalmente sustentáveis. Quem não tiver resposta para isto, a cidade fica démodé. E não posso correr o risco, daqui a 10, 15 anos, não ter uma cidade de referência para a juventude. Não posso pensar a cidade como pensaram os autarcas dos anos 90. Não estou a pensar para aquilo que é o meu estilo de vida, estou a pensar a cidade num conceito para o estilo de vida que quero deixar para gerações futuras, porque daqui a uns anos quando chegar um outro autarca, o desejo que tenho é que ele também pense a cidade, não para os seus dias, porque a cidade precisa de ser planeada no mínimo com dois a três anos de antecedência para conseguir cumprir com o ciclo eleitoral. Isso só se consegue se tivermos essa capacidade de antecipação e de visão. Esse tipo de intervenções, são intervenções que já estão estudadas e Portugal tem uma vantagem, é que pode pegar em tendências de outros países europeus mais desenvolvidos e utilizá-las como referência. Temos exemplos disso no urbanismo tático que foi montado na Heróis de Angola em plena pandemia que foi tão criticada. Hoje é elogiada por muitas pessoas, não só pela criação da ciclopista, a diminuição das faixas de rodagem, a criação de espaço público confortável, abrangente, e que permite ter sucesso em termos de adesão.

Uma obra muito contestada, aliás.

É bom sinal.

O que é que a contestação quer dizer?

Significa que a cidade está viva, que se preocupa e que tem opinião. Pegar nos pontos mais críticos da cidade, para nós, é um desafio. Acredito que na base do diálogo e do entendimento podemos encontrar as melhores soluções. Fizemos isto com o circuito Polis, que o REGIÃO DE LEIRIA tanto debateu. Hoje é utilizado sem qualquer tipo de contestação. Nós gostamos do desafio e de ter a população desperta para dar sinal daquilo que acha bem e mal, porque queremos uma cidadania ativa e participada e o que aconteceu com a Heróis de Angola é um pouco isso.

“Leiria pensou durante muito tempo pequenino, só via das muralhas do castelo para a praça Rodrigues Lobo e a nossa ambição é ser uma referência da região e uma referência no contexto nacional”

Em relação a grandes obras como as das avenidas Nossa Senhora de Fátima e General Humberto Delgado, o que pensa fazer para, no futuro, não haver estas derrapagens no tempo e também no preço?

Não fazemos tudo bem. Também não fazemos com intenção nem de provocar mal-estar às populações nem de gastar mais ao erário público. Sabemos que há obras que são muito difíceis de implementar. Fizemos as obras do castelo num ambiente muito difícil quer da defesa do património, quer de engenharia, quer de arquitetura. As avenidas da cidade são muito antigas, com infraestruturas que desconhecemos. Os projetos têm que ser mais bem preparados, mais cuidados, e quando temos situações inesperadas, extraordinárias isso provoca não só atrasos, mas também desvios orçamentais. É algo que temos que melhorar no nosso desempenho como autarquia e tenho plena noção de que isso é uma das nossas prioridades. É por isso que também tenho agora na equipa alguém vocacionado para a área técnica, do Politécnico de Leiria, um engenheiro com formação nesta área para podermos melhorar aquilo que, no nosso entender, é uma área que precisa de um cuidado e de uma qualidade reforçada.

Em relação à componente turística, dizia também que pretende apostar nessa vertente. Como é que Leiria se vai tornar mais atrativa?

Há uma prioridade que é a atratividade para viver. Estamos bem e podemos ser ainda mais atrativos com o aumento daquilo que é a qualidade de vida que o concelho oferece na cultura, desporto, saúde, educação e formação. Oferecendo estas condições de excelência através dos nossos agentes promotores dessas áreas vamos tornar a nossa cidade ainda mais atrativa e vamos ter mais gente a viver no nosso concelho e isso é excelente. O turismo não é um sector âncora como é no Algarve ou como é em Lisboa ou no Porto que, atualmente, em ambiente pandémico vive em profundas dificuldades. A nossa não dependência do turismo num ambiente de pandemia foi uma vantagem. No entanto, é um sector extremamente dinâmico num país que tem condições excecionais para atrair turistas sobretudo estrangeiros. Leiria terá que ter uma forte aposta na área do turismo, daí a aposta no turismo cultural, e naquilo que é a Capital Europeia da Cultura (CEC), uma rede de 26 municípios de modo a assumir aqui uma liderança, uma âncora de atratividade para uma região que já tem muita qualidade e oferta turística e onde Leiria tem que sobressair como líder dessa região.

E como é que Leiria vai sobressair?

A aposta nas dinâmicas culturais é decisiva, a reabilitação do castelo é um primeiro passo, a reabilitação do património da nossa identidade é decisivo. Uma cidade com o seu centro histórico recuperado, atrativo, vai fazer com que Leiria seja uma cidade muito apetecível para viver. Depois, apostar também naquilo que são os recursos naturais de freguesias que têm património natural excecional que pode ser também motivo de atração.

Por exemplo…

O expoente máximo será a importância de reabilitar o turismo em Monte Real, uma aposta na requalificação e atratividade da praia do Pedrógão, todo o circuito do rio Lis, desde a nascente à foz, tem um enorme potencial para ser um circuito de natureza e de lazer e turístico com a criação de uma ciclopista, um investimento entre a Câmara de Leiria e da Marinha Grande que já está projetado, está a aguardar financiamento comunitário. Portanto, estes investimentos podem transformar aquilo que é a imagem e a oferta turística de Leiria.

No caso de Monte Real, podemos ter esperança de voltar a ter uma vila termal?

A qualidade da água é um fator decisivo de sucesso. Não podemos nunca abrir umas termas sem ter a garantia de que a água cumpre com os seus requisitos medicinais. A pior coisa que podia acontecer era defraudar as expectativas de quem quer usar as termas e a sua água para fins de saúde. Não cumprir com essa missão era o fim total e absoluto do destino termal. Só a natureza é que vai conseguir estabilizar a qualidade da água e a partir daí todas as condições de recuperação económica e turística de Monte Real serão uma evidência. Atualmente estamos a apostar na reabilitação urbana da vila, naquilo que são as suas principais vias, criando zonas de lazer e de contemplação e de fruição do espaço comercial na sua principal estrada. Vamos continuar no próximo mandato a fazer isso e, naturalmente, haverá depois da parte privada a necessidade de reforçar e adaptar-se a uma nova estratégia de turismo que já não é também aquela que era praticada há 40 ou 30 anos.

Voltando à CEC, se o título não vier, Leiria vai sentir que valeu a pena este processo?

Vale sempre a pena. Nós fizemos uma ligação com 26 municípios que nunca antes tínhamos feito. Os municípios por natureza concorrem para atrair empresas, estabelecimentos de ensino superior, atrair determinado tipo de investimentos públicos e privados. A área da cultura foi coser e a abertura foi a chave para podermos criar relação entre municípios, porque a cultura tendencialmente tem a ver com a nossa emoção, com a nossa identidade. Tornou-se o fator decisivo de coesão no território de 26 municípios, que deu a Leiria uma dinâmica e uma liderança nunca antes alcançada no passado, porque nunca houve um projeto que conseguisse unir com tanta unanimidade, com tanto empenho, como esta CEC.

É errado pensar-se que por ser uma rede os benefícios para Leiria saem diluídos e pouco evidentes?

É como a Europa. A Europa também é um projeto de coesão, de integração e nós olhamos este projeto como um projeto de coesão e de integração no território onde todos ganhamos. Se a cultura crescer em toda esta abrangência territorial, Leiria não sai nunca diminuída por pensar em grande. Leiria pensou durante muito tempo pequenino, só via das muralhas do castelo para a praça Rodrigues Lobo e a nossa ambição é ser uma referência da região e uma referência no contexto nacional. A dimensão que queremos trazer para Leiria nunca houve no passado qualquer tipo de história sobre esta matéria. Este tipo de ligação de candidatura de âmbito regional necessita da afirmação do município e Leiria está disponível para o fazer sempre participando, sempre fazendo um esforço coletivo para que todos possam beneficiar desta liderança.

Leiria sai engrandecida e não diminuída na sua opinião.

Só podia ter uma visão e uma dimensão regional a nossa candidatura, porque achamos na nossa estratégia que a nossa proximidade regional é a melhor maneira de nos desenvolvermos.

Não está a tirar partido dos trunfos dos outros municípios, tentar colar-se aos outros quase de forma oportunista?

Não tenho essa opinião, não temos tido essa reação. Leiria hoje é reconhecida por ter uma grande capacidade de integrar e de fazer rede internamente quer com o Politécnico de Leiria, quer com os empresários através da Nerlei, quer com o hospital regional, quer com outros municípios. Uma visão egoísta, muito virada só para as suas fronteiras é uma visão redutora e nem é europeia. Hoje temos que ter uma preocupação em atrair e fixar pessoas, mas não é com a desgraça do vizinho do lado. Cada vez mais os concelhos que fazem parte da nossa região têm que ocupar no espaço de ação dentro das suas fronteiras uma dimensão regional e esse espaço só é garantido com uma liderança clara, transparente, apaixonada, em que não coloca os interesses do seu município à frente dos seus vizinhos. Isso é uma vantagem que temos para o futuro com esta candidatura a CEC e com a dinâmica que queremos criar também na Comunidade Intermunicipal da Região de Leiria que não é um somatório de municípios. Há uma região com um potencial muito grande que ainda está por explorar.

O Gonçalo Lopes vai sair reforçado deste processo de CEC, enquanto líder da região? Aquilo que se diz muitas vezes em relação a Leiria e em relação a esta região é que falta liderança, é o tal gigante económico e anão político. Sente que se está a projetar a esse nível?

Nós temos muito talento na nossa região. Também temos políticos talentosos e devemos aproveitar não um político em particular, mas todo o capital existente ao longo dos anos – autarcas, deputados, membros do Governo, independentemente dos partidos – para podermos fazer a diferença naquilo que é a nossa região e esse tipo de união ainda está por fazer. Poderei dar o meu contributo humilde para que essa união exista, porque se não conseguimos fazer vamos continuar a ter sempre um desenvolvimento adiado. Não há nenhuma pessoa a título individual que consiga revolucionar o desenvolvimento de uma região. Não existe nem aqui nem em nenhuma parte de Portugal um trabalho individual de um único político, ou de um único partido. Esta abrangência dá muito trabalho e é naturalmente um esforço que tem que ser feito de coesão entre as mais diversas forças políticas. Daí que uma visão isenta, transparente, focada naquilo que são os interesses da região de Leiria devam ser as prioridades dos políticos que estão em eleições.

Nesta autárquicas, o que será uma vitória para si?

Há um grande objetivo que é manter a nossa câmara governada pelo nosso projeto. Naturalmente, ter uma maioria que o permita fazer de uma maneira estável e esse é um dos nossos objetivos.

Não tem por objetivo eleger mais um vereador?

Não. Quer dizer, se puder eleger mais não vou dizer que prefiro eleger menos.

Mas traçou esse objetivo?

O nosso objetivo primeiro é evitar e combater a abstenção, esse é o nosso principal adversário. Dos contactos que tenho mantido desde que me assumi como candidato recebo muita mensagem de apoio, muitas pessoas que acreditam no nosso projeto e que têm uma imagem triunfal daquilo que serão as próximas eleições autárquicas. Isso é o meu principal receio como candidato, é que todos aqueles que acreditam neste projeto, no dia das eleições não manifestem essa vontade e fiquem em casa. A abstenção é a nossa principal preocupação e se há uma meta a alcançar é efetivamente combater a abstenção e reduzi-la tendo em conta que nas autárquicas há mais participação política. Mas manter o nível de participação será um sinónimo de vitória deste projeto.

O que poderia ser uma derrota?

Crescer o número de pessoas a não participarem na vida política de Leiria para nós é uma desilusão, é uma derrota, não só para mim, mas para todos os outros candidatos autárquicos.

Mas perder um vereador também seria uma derrota, ou não?

Claro que sim. Estou a fazer conta de manter uma equipa com o maior número de pessoas disponíveis para conseguir fazer o trabalho que queremos desenvolver. Perder elementos de uma equipa é sempre uma derrota. Mas posso dizer que o nosso foco é criar condições para que as pessoas possam votar de uma maneira esclarecida e massiva no dia 26 de setembro. Esse é um esforço que tem de ser feito, não só pelos diversos candidatos – temos mais de 500 pessoas candidatas nestas eleições, e que não repetimos, que só se candidatam a um lugar – e que hoje estão preparadas para captar e transmitir aquilo que é o nosso projeto e as nossas ambições e para isso combater a abstenção.

Quem antevê que venha a ser a sua oposição na Câmara? Apenas o PSD ou nem o PSD?

Não tenho nenhuma leitura de como será o futuro quadro eleitoral. Acho que há ainda muitas pessoas que ainda não decidiram o seu sentido de voto e que precisam de ser esclarecidas. Naturalmente que há vários partidos que se propõem a vencer as eleições e outros que se propõem a ser oposição. Aqueles que se propõem a ser oposição dentro da Câmara terão que apresentar as suas ideias. É saudável que haja um forte debate público sobre as diversas ideias para que se possa definir quem é que deve governar e quem deve fazer oposição.

Se vencer, tenciona atribuir pelouros à oposição?

No momento certo irei analisar qual é o quadro político que resulta das eleições. Vai depender muito do número de vereadores eleito por cada um dos partidos, mas naturalmente se for necessário fazer entendimentos com outros partidos para obter estabilidade governativa irei fazê-lo.

O candidato da CDU, Sérgio Silva, afirmou em entrevista que “a gestão de recursos humanos na CML tem sido profundamente errada. Foi durante muitos anos de choque frontal com os trabalhadores, de calúnia aos trabalhadores, de insinuações várias sobre muitos trabalhadores”. O que tem a dizer perante esta acusação?

Não li a entrevista, mas partindo do princípio que ele fez esse tipo de afirmações não me parecem adequadas. Os funcionários da Câmara têm feito um trabalho de esforço notável, não só no ambiente de pandemia, mas também anteriormente. Nunca baixam a guarda e, naturalmente, sei bem o esforço que a grande maioria faz para alcançar objetivos diariamente, de qualidade de serviço municipal. Por isso, esse tipo de afirmações de quem trabalha na Câmara, de quem teve tantas responsabilidades no passado dentro da Câmara, no meu entender, não são isentas e não justas, tanto mais que não são verdade. Para ter uma ideia, promovemos os bombeiros municipais a sapadores; temos vindo a recrutar novos recursos humanos para enriquecer as equipas, renovando o sangue dentro da Câmara num ritmo assustador; fizemos integração dos novos funcionários que vieram do Ministério da Educação, quase duplicámos o número de funcionários do município com essa descentralização; e temos hoje uma equipa altamente motivada e empenhada na resolução dos problemas de Leiria, portanto não tenho qualquer tipo de evidências de que existam situações que o Sérgio Silva mencionou.

“Nunca tivemos como critério se para a Câmara é um homem, para a assembleia tem de ser uma mulher, não tivemos isso em consideração. Analisámos o perfil de uma pessoa que possa promover o diálogo, o entendimento, a moderação dentro de um órgão onde há combate político”

Nestas autárquicas, todas as candidaturas à Câmara de Leiria são lideradas por homens. Que comentário lhe merece este facto?

A questão da participação de mulheres na política, de jovens, de vários tipos de idades, de várias profissões para mim é muito importante. A diversidade é fundamental. A minha vice-presidente é uma mulher com a qual tenho uma relação profissional e política excelente e sei perfeitamente que estará à altura, sempre que eu não puder, para me substituir. Tenho a plena noção da importância que as mulheres têm na política e por isso a nossa lista da Câmara é uma lista onde a participação das mulheres é fundamental. Uma equipa de alto desempenho é uma equipa diversa. Temos que ter os criativos, temos que ter os executivos, os executores, os ponderados, os de maior sensibilidade cultural e efetivamente acho que tenho hoje uma equipa que cumpre com todos esses requisitos e que está preparada e motivada para dar a melhor resposta.

Não seria mais equilibrado ter uma mulher como cabeça de lista à assembleia municipal? Não equacionou essa possibilidade?

A nossa preocupação foi encontrar candidatos ou um candidato à assembleia municipal que pudesse ser um elo de equilíbrio, de isenção e de condução dos trabalhos e, portanto, foi essa a principal característica que tentámos encontrar. Daí a escolha do Antonio Sales para desempenhar essas funções. Nunca tivemos como critério se para a Câmara é um homem, para a assembleia tem de ser uma mulher, não tivemos isso em consideração. Analisámos o perfil de uma pessoa que possa promover o diálogo, o entendimento, a moderação dentro de um órgão onde há combate político e, de facto, achamos que o António Sales tem essas características pela experiência alcançada nos últimos anos, sobretudo no último ano e meio. Como membro do Governo, pode dar-nos uma grande ajuda no enriquecimento do trabalho da assembleia municipal.

O que é que os municípios devem ou podem fazer para garantir a sustentabilidade da Imprensa Regional?

Como ficou comprovado, durante o período da pandemia, os órgãos de comunicação social foram muito importantes na nossa estratégia. No uso das máscaras, no recomeçar Leiria, em todas as preocupações olhámos sempre para a comunicação social como um parceiro para poder implementar políticas de comunicação, para poder mobilizar toda a comunidade em determinado tipo de objetivos transparentes e de objetivos coletivos. A nossa imprensa regional é decisiva para aquilo que é a nossa visão de sociedade, promoção da consciência crítica, informação dos munícipes, ligação ao tecido empresarial e associativo. Merece e deverá continuar a merecer o envolvimento dos autarcas naquilo que é a sua sustentabilidade económica para poder desempenhar as suas funções, respeitando sempre a independência entre as diversas instituições.

Perfil

Nasceu em Leiria há 45 anos. Casado, com dois filhos, é licenciado em Economia. Antes de ter integrado o executivo de Raul Castro foi delegado regional de Leiria do Instituto Português da Juventude e adjunto do então Governador Civil de Leiria, Paiva de Carvalho. Desde 2016 que é presidente da concelhia de Leiria do PS. Se vencer será o primeiro militante socialista a ser eleito presidente de Câmara de Leiria. 

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