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Manjar do Marquês: Mais de 50 anos de dedicação e paixão à cozinha

Aos 90 anos continua a ser no restaurante que se sente feliz. A cozinha não foi a primeira escolha de Maria de Lurdes Graça, mas acabou por revelar um talento escondido.

Foto de Maria de Lurdes Graça com um tacho do seu arroz de tomate

Foi a escassos metros da vila de Figueiró dos Vinhos, onde o Rio Zêzere se junta com a Ribeira de Alge, na pequena aldeia de Arega, que Maria de Lurdes Graça nasceu e viveu até aos 11 anos, altura em que partiu para Lisboa para estudar. Apesar de ter nascido no campo, a adaptação à cidade foi fácil.

Aos 18 anos, começou a trabalhar na Companhia dos Telefones, como telefonista, onde permaneceu durante dez anos. Foi por amor ao marido, Evangelista Nunes da Graça, que decidiu deixar a carreira e a cidade para se mudar para Pombal e, assim, alterar o rumo da sua vida para sempre.

Chegou à pequena cidade de Pombal (na época, ainda vila), a terra natural do marido, em 1960, e foi aqui, no restaurante da pensão gerida pelo companheiro, que começou a fazer as suas primeiras receitas, as mesmas, que, hoje em dia, continuam a trazer a Pombal pessoas de todo o país e que levaram a que, no último jantar-conferência do REGIÃO DE LEIRIA, ela fosse uma das galardoadas com o Prémio Carreira, juntamente com Maria Alice Marto, fundadora do restaurante Tia Alice, em Fátima.

Hoje, aos 90 anos, Lurdes Graça, mais conhecida como “D. Lurdes”, recua no tempo 60 anos para relembrar o dia em que colocou um avental, pela primeira vez, na cozinha da pensão onde viria a descobrir e a aprimorar a arte culinária. “Um dia, a cozinheira que tínhamos desentendeu-se com o meu marido e foi-se embora. Ficámos sem cozinheira, de um dia para o outro. E foi nesse dia que disse ao meu marido: ‘Não te preocupes, eu vou tomar conta disto”, recorda Lurdes Graça que logo se aprontou para cozinhar, mesmo sem ter muita prática, na época. “Sempre tive muita força de vontade e comecei a fazer tudo sozinha”, diz. E foi aqui que começou a fazer os seus primeiros pratos, como os famosos filetes de pescada que hoje conhecemos.    

Pouco tempo depois, foi neste mesmo edifício que decidiu instalar o seu primeiro negócio de restauração, ao lado do marido, a cervejaria “Danúbio” que se tornou “o espaço de convívio dos pombalenses”. “Tínhamos marisco, pregos no pão, bacalhau assado, panados…”, recorda D. Lurdes. No entanto, na altura, “havia poucas pessoas em Pombal para frequentar aquela casa e fazê-la ‘andar’”, lamenta Lurdes Graça, lembrando o momento em que tanto ela como o marido perceberam que não era ali que estava o futuro. Ambos desejavam um caminho diferente mas ainda não sabiam qual. Nunes da Graça pensou mesmo em desistir da hotelaria e emigrar para a Alemanha. Lurdes não concordou. A determinação e a persistência fazem parte da sua personalidade. “Por vezes, digo que não sou teimosa, sou muito persistente”, conta entre risos.

O icónico “bar da Shell”

Corria o ano de 1967, quando um bar situado na gasolineira “Shell”, à entrada de Pombal, fechou e ficou disponível para uma nova gerência. Apesar das pequenas dimensões do espaço, D. Lurdes conseguiu perceber que ali poderia estar uma boa oportunidade de negócio, pela localização junto à principal via de circulação rodoviária que, na época, era a única que ligava a região norte ao sul do país. “Isto é tão pequenino mas pode ser que tenhamos sorte, disse eu para o meu marido”.

Nos primeiros tempos do snack-bar da Shell, Lurdes Graça continuava a cozinhar na cervejaria Danúbio. Era lá que preparava os pratos que servia nos dois estabelecimentos, até ao dia em que o marido percebeu que o futuro estava no snack-bar. Pouco tempo depois, dada a afluência de clientes, D. Lurdes mudou-se para o snack-bar para lá ficar permanentemente. “Foi nessa altura que comecei, sozinha na cozinha, a fazer tudo, os pastéis de bacalhau, os filetes, os panados, a sopa…”, conta, lembrando as multidões que, na época, se formavam à porta do snack-bar. “As pessoas eram tantas, tantas… Era impressionante. Os pombalenses chamavam-lhe ‘a mina de ouro’”, recorda.

O sucesso do snack-bar levou o casal a abdicar da pensão e da cervejaria, para se dedicarem exclusivamente ao novo negócio que parecia crescer, dia após dia. Foi neste pequeno espaço, onde a maioria das refeições era servida ao balcão, que Lurdes Graça desenvolveu muitas das receitas que, hoje em dia, mais de 50 anos depois, continuam a fazer sucesso.

Foi lá que serviu o seu primeiro arroz de tomate, a iguaria que hoje é conhecida nacionalmente, não só por ser servido diretamente do tacho, como pelo seu sabor que muitos definem como “único” ou “o melhor que alguma vez provaram”. Foi para responder a um pedido especial de um casal de “aristocratas” que era cliente assíduo no snack-bar, que D. Lurdes descobriu o potencial do seu arroz de tomate. “Sempre que este casal me visitava, fazia questão de comer este arroz e os clientes começaram a ver e a querer também”.

Quase duas décadas depois, numa altura em que o marido,  Evangelista Nunes da Graça, desejava descansar, após tantos anos dedicados à restauração, mais uma vez, foi a D. Lurdes que, com a sua determinação, levou o marido a mudar de ideias e a apostar num novo espaço. Revela que sempre foi a sua ambição ter um espaço a que pudesse chamar “seu” e deixar aos vindouros.

“O snack-bar da Shell, para além de ser muito pequeno, não era meu. Por isso, decidi criar o meu próprio restaurante. Pedi a um amigo engenheiro para desenvolver o projeto e ele fez o que está aqui hoje”, conta D. Lurdes, confessando que este foi um período difícil. “Não tinha a certeza se estava a tomar a decisão certa, chorei muito, mas arrisquei e consegui vencer”, afirma, orgulhosa.

O Manjar do Marquês como hoje o conhecemos abriu em 1986. “No dia da inauguração, tivemos duas  mil e tal pessoas”, recorda Lurdes Graça. E apesar da resistência que alguns clientes ainda demonstraram inicialmente porque preferiam o bar da Shell pelas suas características simples, depressa se tornou claro o potencial do novo espaço. “Quando começamos a ter clientes, era ‘um mar de gente’ …”, recorda D. Lurdes, com a emoção de quem olha para trás e vê que o seu sonho foi concretizado.

Nos últimos 30 anos, já passaram pelo Manjar do Marquês milhares de clientes, entre os quais personalidades nacionais. A fadista Amália Rodrigues e os vários presidentes da República, como Mário Soares, Cavaco Silva e, mais recentemente, Marcelo Rebelo de Sousa, são apenas alguns exemplos. Há mesmo registos fotográficos que estão expostos no restaurante, num armário que guarda também os muitos prémios que Lurdes Graça e o marido já receberam, ao longo da sua carreira.

Depois da morte do marido, em 2002, foi o filho, Paulo Graça, que assumiu a gestão do restaurante, mas sempre ao lado da mãe que faz questão de estar presente em todas as decisões. “Ainda hoje, não sai daqui nenhum cheque sem eu assinar”, diz. No futuro, Lurdes Graça gostava de ver os seus três netos à frente do negócio. Afinal, foi esse o propósito da sua fundação.

As receitas que foi criando e que hoje são autênticos ícones nacionais, como o arroz de tomate ou a famosa sobremesa “Manjar do Marquês”, que assim batizou por ser “boa” e “servida em Pombal”, na terra onde viveu Marquês de Pombal, e que inspirou o nome do restaurante, devem-se a uma aptidão natural mas também ao amor que põe em tudo o que faz. Para muitos dos seus pratos, afirma que são “as mãos” que fazem a diferença. Mas para outros, confessa que, sim, há segredos.

Aos 90 anos, continua a ser no seu restaurante que Lurdes Graça se sente feliz. “Hoje, continua a cozinhar “todos os dias”, garante. “Há dias em que chego às nove e meia da manhã e estou aqui até às onze da noite. Tenho uma casa muito bonita mas eu não quero estar em casa. Só quero estar aqui à volta dos meus funcionários, a falar com eles, a gerir, a ver o que está bem e o que está mal…É assim que sou feliz”.

Quando recorda o caminho que percorreu, afirma que sempre acreditou que “um dia, com a força do seu trabalho e a sua persistência, ia conseguir vencer na vida”. E venceu.

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