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Judepina canta em Leiria o dia-a-dia de Cabo Verde

Depois do lançamento do disco de estreia, o músico radicado em Leiria concretiza este sábado mais um sonho, num concerto com convidados no Teatro Miguel Franco.

Um homem posa ao ar livre com uma guitarra acústica. Ao fundo, vêem-se edifícios e um castelo numa colina.
Judepina lançou em 2021 o disco de estreia, "Pé na txon", que leva agora ao palco do Teatro Miguel Franco FOTO: Joaquim Dâmaso

Chegou a Leiria em 2003 para estudar no Seminário mas por cá descobriu que o futuro lhe reservava outra vocação. Hoje, perto de completar 40 anos, faz por encontrar na música uma forma de vida. Enquanto o sonho amadurece, trabalha numa fábrica de plásticos para alimentar o desejo de, um dia, viver dos discos e concertos.

De sonho em sonho, Judepina cumpre este sábado mais um: tocar numa sala de espectáculos como o Teatro Miguel Franco, onde apresenta logo à noite o disco “Pé na txon”, lançado no verão passado, recheado e inspirado em ritmos africanos e afro-americanos.

“Já toquei n’O Nariz e na Fnac mas este é um concerto com outra dimensão. É o realizar de um sonho de infância. É uma casa acolhedora, para mim vai ser um dia que não vou esquecer”.

Pela primeira vez, Judepina atua com banda. Vítor Copa na bateria, Nuno Veríssimo no baixo e dois convidados especiais de Cabo Verde: “Um grande guitarrista caboverdiano, Renato Monteiro, que vem do Porto, e um grande teclista, Edson Sanches, que chega de Aveiro”.

Os bilhetes para o concerto deste dia 26 de março custam 6 euros e Judepina gostava de ter a sala cheia. “Ia ser a ‘cereja no topo do bolo'”. Mas “vai haver festa sempre com os que lá estiverem”.

No final de 2021, Judepina voltou à terra natal para mostrar a música que fez em Portugal. Atuou no Quintal da Música, um espaço famoso de música ao vivo na cidade da Praia. “Toquei com músicos que via sempre na televisão, como o Theka ou a Mayra Andrade. Foi cinco estrelas”.

Mas nem só em Cabo Verde ou Portugal se ouve a música do artista radicado em Portugal. Através das plataformas online, “Pé na txon” tem passado fronteiras, numa projeção que Judepina descreve como “espectacular e surpreendente”.

“Quando vejo que a minha música está a ser escutada na Holanda, na Inglaterra, na Bélgica, em Israel… Fico muito surpreendido. Não tem a ver só as comunidades caboverdianas nesses países, mas também porque o meu estilo é world music e tem muita aceitação nesses países, até na Alemanha. Várias pessoas têm entrado em contacto comigo para poderem adquirir o CD”, conta. 

Longe vão os tempos em que, quando chegou a Portugal, frequentou o Orfeão de Leiria. “Estudei guitarra clássica no Orfeão de Leiria, mas senti que não era para mim. Gosto de improviso, de fusão e a guitarra clássica é uma disciplina muito grande”.

O gosto pela música começara antes, aos 15 anos, mas não ficou por aí. “Comecei a ver como tocar bossa nova e jazz. No Youtube está lá tudo. Não tem diploma, mas o resto está tudo [risos]”, conta, divertido.  

De forma autodidata, cruzou esse conhecimento adquirido na internet com os vários estilos da sua preferência, do blues ao funk – “o do Seu Jorge, não da favela” -, do jazz ao afrobeat, do funaná ao batuque e à coladera, sem esquecer os sons da África profunda. 

Assim, começou a passar para música e letra os sentimentos. “As minhas músicas têm a ver com o que passei quando cheguei a Portugal. A saudade e a lembrança de tudo o que vivi ou das histórias que me contaram em Cabo Verde”. 

No Seminário, o tempo livre fê-lo pensar e escrever sobre assuntos da sua terra, como “o pessoal que vai trabalhar, o marido que bate na mulher, o marido que tem muitos filhos e não há comer para todos. As minhas músicas contam o dia-a-dia do povo de Cabo Verde, sobretudo do interior da ilha de Santiago, onde a vida é mais dura”, conta Judepina, que é de São Domingos, uma cidade a 10 quilómetros da capital. 

Não esconde que tem saudades de casa, mas Leiria é já “como uma segunda casa”. “Dá para fazer a pé, é calmo. Faz-me lembrar a minha terra”. Já a atitude das pessoas é diferente: “Aqui as pessoas estão sempre a queixar muito e a reclamar. Se tivessem vindo de um lado onde tivessem passado dificuldades, pensavam diferente”.

Entretanto, depois do disco de estreia, Judepina já pensa no próximo. “É como quem faz uma tatuagem: faz-se uma e já se pensa no próximo. Já estou a compor novas músicas”. Até lá, vai sair entretanto uma morna, conta o músico, que está a estudar a hipótese de ir tocar “à Holanda, França e Luxemburgo. Vou ver se vou lá no verão!”.