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SOS Ucrânia

Aulas à distância são a última réstia que liga professoras ucranianas à “vida normal”

Em frente a um computador ou ao telemóvel, a milhares de quilómetros da Ucrânia, há duas professoras, de Microbiologia e Piano, que continuam a dar aulas a quem ficou no país.

Lilia Voinova, a filha e os dois netos estão alojados no centro de acolhimento de Monte Redondo desde 26 de março Joaquim Dâmaso

Entre os escombros da guerra, há ainda quem mantenha alguma ligação com a “vida anterior”. É o caso de Lilia Voinova, 51 anos, e Liudmyla Polorenko, 42 anos, que continuam a dar aulas, mas a partir do centro de acolhimento temporário de Monte Redondo.

Professora de Piano há 30 anos, Lilia Voinova dava aulas a crianças de 6, 15 e 16 anos num conservatório de música em Pershotravensk, no distrito de Dnipropetrovsk. Em conversa com o nosso jornal, conta que tinha muitos estudantes premiados e alunos de outros países.

Com a chegada da pandemia, teve de começar a ensinar a partir de casa, processo que se repetiu este ano, em fevereiro, com a declaração do estado de emergência.

Agora, longe de casa e em contexto de guerra, usa a rede social Viber e o piano que o centro lhe ofereceu para continuar a ensinar. São cerca de 12 alunos que se conectam a partir da Ucrânia para ter acesso aos momentos teóricos, três vezes por semana, e práticos, uma vez por semana. Á vezes, quando a rede o permite, a professora entra também em contacto com os alunos estrangeiros.

O facto de Lilia poder continuar a exercer a profissão, ainda que em outros moldes e com menor frequência, serve um pouco de distração para o que se passa no país de origem. Mas continua a fazer falta o “contacto físico com os alunos”, lamenta.

Lilia Voinova, a filha e dois netos, estão em Monte Redondo desde 26 de março. Tinham abandonado a Ucrânia no dia 22 para fugir dos disparos e bombardeamentos diários. Por causa dos ataques russos a comboios, estiveram retidos na fronteira durante muito tempo, conta Lilia, explicando que para trás ficou o marido, a mãe de 75 anos e o pai, que é tetraplégico.

Liudmyla Polorenko deixou o marido e os pais em Mikolaiv, para proteger os filhos da guerra Foto: Joaquim Dâmaso

Liudmyla Polorenko chegou alguns dias antes que Lilia, mais precisamente a 19 de março. Abandonou a cidade de Mikolaiv no dia 14 com os dois filhos, de 8 e 9 anos, depois de vários dias escondidos do caos da guerra. Admite que “se não fosse pela segurança deles, nunca teria saído do país”. Por lá, ficou o marido, a combater, e os pais, que não querem deixar a terra natal.

Era na Universidade Nacional Petro Mohyla do mar Negro, que Liudmyla exercia a função de professora de Microbiologia. Hoje continua a dar aulas, mas com pouca frequência e a menos jovens, até porque alguns dos alunos tiveram de se juntar ao exército.

E como os estudos “não são a prioridade neste momento”, vai colocando trabalhos na plataforma Moodle, sem data de entrega estipulada. Sempre que os estudantes necessitam, faz chamadas via Zoom, recorrendo ao computador que o centro também disponibilizou.

Ambas as professoras sentem-se gratas pelo acolhimento e apoio que estão a ter em Portugal. Lilia Voinova repete incasavelmente que está agradecida pela oportunidade que todos os voluntários lhe deram “de sobreviver e salvaguardar a vida” da filha e dos netos. Apesar de nunca ter estado em Leiria e de não conhecer ninguém por cá, conta que já fez “muitos amigos” em Monte Redondo.

Quanto ao regresso à Ucrânia, está nos planos de Liudmyla Polorenko mas tem ainda de ser ponderado. Sabe que “nos próximos três/quatro anos ainda não será seguro voltar, por causa das minas deixadas na cidade”.

Em contraponto, também existem jovens deslocados um pouco por toda a região de Leiria a ter aulas à distância com as escolas ucranianas.

Integração nas escolas aquém do desejado

Enquanto em vários concelhos, todas as crianças e jovens deslocados já se encontram inseridos nos estabelecimento de ensino – como é o caso da Batalha, em que as 47 crianças que chegaram já frequentam o Agrupamento, e de Pombal (16 crianças) – em Leiria o processo vai sensivelmente a
meio.

Dos 96 cidadãos ucranianos em idade escolar alojados no concelho, 50 estão a frequentar a escola, mas ainda faltam 46. Boa parte deste número corresponde às crianças que estão no centro de acolhimento temporário de Leiria, no bairro da Secil (Maceira), e todas as que estão no centro de acolhimento de Monte Redondo.

Em declarações ao REGIÃO DE LEIRIA, a vereadora com o pelouro da Educação, Anabela Graça, explicou que “não fazia sentido” colocá-los na escola esta semana, “porque era chegar e sair” para férias. A ideia, avança, é fazer a integração no início do 3º período do ano letivo, ou seja, depois da Páscoa.

Para que o processo corra da melhor forma possível, os serviços de ação e desenvolvimento social da Câmara Municipal de Leiria (CML), bem como uma equipa do PIICIE – Plano Integrado e Inovador de Combate ao Insucesso Escolar da Comunidade Intermunicipal da Região de Leiria, estão a trabalhar em conjunto para acompanhar as crianças no primeiro dia de aulas.

Estas 46 crianças e jovens, explica, vão ser distribuídas pelos Marrazes, Arrabalde, Escola Básica e Secundária Henrique Sommer, na Maceira, Escola Secundária Domingos Sequeira, em Leiria, Escola Profissional de Leiria e Agrupamento de Escolas Rainha Santa Isabel, na Carreira.

Ainda no âmbito da integração escolar, a vice-presidente do Instituto da Segurança Social (ISS), Catarina Marcelino, revelou esta segunda-feira, dia 4, que vai aumentar a capacidade das creches de todo o país para receber crianças refugiadas.

O anúncio foi feito no estádio de Leiria, durante a assinatura de um protocolo entre a AMITEI- Associação de Solidariedade Social de Marrazes, a CML e a Secil, que formaliza o trabalho que tem vindo a ser feito por estas entidades para apoiar os deslocados ucranianos.

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