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Turismo religioso é uma das alavancas do desenvolvimento da economia de Ourém

O concelho está a desenvolver estratégias para enfrentar desafios como a falta de habitação e de recursos humanos, a investir nas zonas industriais e noutras medidas que fixem empresas e pessoas

O turismo religioso é essencial para “construir o futuro” e representa uma forte alavanca para o desenvolvimento de Ourém. Embora outras atividades estejam em crescimento, Fátima é a principal força motriz da economia do concelho, que lidera o Médio Tejo em muitos indicadores.

“O concelho tem um grande pendor empresarial e está dividido em duas partes muito diferentes: uma a norte, densamente povoada e com muitas pequenas e médias empresas ligadas à construção civil, metalomecânica e madeira, e outra a sul, caracterizada pelo turismo, hotelaria e restauração, que emprega muitas pessoas”, descreve o presidente do município, Luís Miguel Albuquerque.

É um dos poucos concelhos do país que vive uma situação de “pleno emprego, com uma taxa de desemprego de 2%, manifestamente inferior à média nacional (6,3%)”. “Obviamente, esta circunstância deixa-nos satisfeitos e mostra bem a nossa capacidade e dinâmica empresarial”, afirmou o autarca, no dia 18, na sessão de abertura da conferência “Ourém 2030 Construir Futuro: Afirmação e desenvolvimento do concelho”.

Para potenciar esta dinâmica, a autarquia “procura dar melhores condições às empresas para que se possam instalar ou desenvolver”, apostando na criação ou ampliação de zonas industriais. “Queremos proporcionar novas oportunidades, pois só poderemos crescer fixando pessoas e empresas, que dependem diretamente umas das outras”, explicou o presidente da câmara municipal.

“O ecossistema empresarial do concelho de Ourém” foi o tema da intervenção da presidente da Associação Empresarial Ourém – Fátima (ACISO), Purificação Reis, que fez um retrato pormenorizado da economia. Ourém conta com 6.019 empresas e 17.797 trabalhadores, apresentando “uma boa dinâmica empreendedora, quando comparado com os restantes concelhos da CIM Médio Tejo”.

Um dos temas centrais da sua intervenção foi o turismo religioso. “É um dos pilares económicos de Ourém, não só pela atividade económica direta, mas também pela indireta. Este efeito alavanca reforça a sua grande importância”, explicou Purificação Reis na conferência realizada no Auditório Cultural dos Paços do Concelho de Ourém.

No ano passado, Fátima recebeu 6,8 milhões de pessoas, de 94 nacionalidades, “o que demonstra a recuperação face ao drástico período da pandemia”. A hotelaria registou mais de um milhão de dormidas, “já muito próximo do recorde de 2017”.

A presidente da ACISO apresentou também desafios que o concelho enfrenta e que precisam ser resolvidos para garantir um desenvolvimento sustentável, como “a falta de recursos humanos qualificados face às necessidades das empresas”. “O tecido empresarial avança mais rápido que a capacidade de resposta e de alteração de conteúdos dos estabelecimentos de formação e de ensino”, constatou.

A dificuldade em captar e reter talento é “um dos principais desafios atuais”, bem como a disponibilização de habitação digna e a preços acessíveis”, referiu, considerando que “é fundamental a existência de condições de acompanhamento e formação dos imigrantes”.

O presidente do Turismo Centro de Portugal, Raul Almeida, também destacou este sector. “Muitas pessoas não têm noção da importância do turismo. O PRR vale 21 mil milhões de euros, mas, só no ano passado, o turismo gerou 25 mil milhões e no ano anterior 22 mil milhões”, destacou na sua intervenção, intitulada “Indústria de paz e desenvolvimento”.

Na sua perspetiva, o turismo religioso tem um “grande potencial de crescimento” e, por maioria de razão, “Fátima também”. “Há alguns desafios, e um dos principais é a promoção externa, porque os turistas estrangeiros, da Coreia, dos EUA ou do Brasil, procuram muito este destino, e compete-nos fazê-la em articulação com a hotelaria e outras atividades relacionadas”.

As acessibilidades também precisam de ser melhoradas. “É necessário um plano que traga as pessoas de forma organizada, porque depois de chegarem a Lisboa ou Porto, os transportes públicos têm grande dificuldade em chegar a Fátima com a frequência necessária”, adiantou Raul Almeida.

Para o presidente do Turismo Centro de Portugal, “é preciso passar à frente da página do aeroporto, mas reclamar o que tem de ser feito em termos de acessibilidades ferroviárias e rodoviárias na Região Centro”. No caso de Fátima, o acesso por estrada é relativamente fácil, mas a estação de comboios mais próxima, na Linha do Norte, fica a 22 quilómetros de distância, em Caxarias.

O 1º secretário executivo da CIM do Médio Tejo, Miguel Pombeiro, centrou a sua participação nos “Projetos da CIM Médio Tejo. Apostas para Ourém e para a região”. Não esqueceu o turismo, destacando que o município alberga 76% dos hotéis, 8% do alojamento local e 6% do alojamento rural do Médio Tejo. Entre as 12 mil camas da região, nove mil encontram-se naquele concelho.

Noutra área, Miguel Pombeiro destacou que “Ourém é a grande referência da região ao nível do ensino profissional. Mais de 50% dos alunos estão em estabelecimentos de ensino do concelho”, que se destaca quer em termos de cursos, quer em número de estudantes.

A habitação foi outra das questões salientadas. O Município de Ourém vai investir 24 milhões de euros em projetos para a construção de 100 fogos, no âmbito de uma iniciativa intermunicipal da CIM do Médio Tejo. No total, a região vai investir 148 milhões de euros em casas para a “classe média”.

No campo das acessibilidades, Miguel Pombeiro repôs na ordem do dia a abertura do aeródromo militar de Tancos à aviação civil. “As situações de Monte Real e de Tancos são completamente diferentes na importância que têm para as Forças Armadas. Monte Real é uma base NATO e a pista de Tancos foi abandonada há anos. Portanto, o uso civil de Tancos é viável”, destacou.

O presidente executivo da Brand Builders, Paulo Moura de Mesquita, abordou o tema “Valor XXI, uma estratégia de captação de investimento e atração de talento para Ourém”. Considerou que “uma região recetiva ao investimento tem de ter a capacidade de se especializar”. “Às vezes olhamos para a diversificação como um redutor de risco, isso é verdade, mas não pode ser exagerada. É importante que seja dentro de áreas com conexões. Uma especialização setorial é crítica para captar mais investimento”, explicou na conferência organizada pelo jornal REGIÃO DE LEIRIA, em parceria com o Município de Ourém.

Na sua opinião, os quatro eixos de investimento “mais interessantes para a região de Ourém são a floresta e silvicultura, a indústria transformadora, máquinas e equipamentos, e o turismo”. Para obter resultados em qualquer um deles, é preciso “capacidade de diferenciação”, apostar no conhecimento e atrair investimento.

Por sua vez, o presidente do conselho diretivo do IEFP, Domingos Lopes, destacou a aprendizagem e atualização ao longo da vida profissional para corresponder às mudanças cada vez mais rápidas. Numa intervenção subordinada ao tema “O desafio das políticas de Emprego e de Formação Profissional”, constatou que “a mudança faz parte da vida, o que caracteriza os últimos anos é ser constante e mais acelerada”.

Esta mudança “lança novos desafios e oportunidades, que também implicam riscos. Nos processos de transição e ajustamento há sempre quem não consiga acompanhar, mas queremos garantir que ninguém fica para trás”, referiu Domingos Lopes, destacando: “As realizações das últimas décadas devem-nos fazer sentir orgulhosos, pois nos indicadores de desenvolvimento do país, a educação e a formação profissional têm tido um excelente desempenho”.

“Num contexto de mudança acelerada, se as nossas competências, conhecimentos e capacidades não forem treinados, aperfeiçoados e sistematicamente ajustados, corremos o risco de nos tornarmos rapidamente desajustados. A redução contínua da aprendizagem não existe”, alertou.

Por isso, o IEFP continuará a investir em programas de formação contínua para os desempregados, mas também para apoiar as empresas na formação dos seus trabalhadores. “Há uma necessidade crescente de aperfeiçoar e desenvolver medidas para as pessoas com baixas qualificações, que continuam a ser prioritárias. Contudo, as pessoas com qualificações mais elevadas também precisam de se atualizar, pois rapidamente podem ver as suas competências desajustadas”, adiantou o presidente do IEFP.

Por fim, o vogal executivo da Comissão Diretiva do Centro 2030, Jorge Brandão, falou sobre “Os desafios do novo quadro comunitário PT2030”, considerando que “se não fossem os fundos europeus, a capacidade de investimento do Estado português seria extremamente reduzida. Entre 2014 e 2020, 88% da sua capacidade dependia do dinheiro da Europa. No caso de Espanha, a dependência era de 40%”.

O nosso país já vai no sexto ciclo de fundos europeus, iniciados em 1986, que mudaram de lógica com o período do PT2020. “Nos períodos anteriores, tratava-se verdadeiramente de programas de desenvolvimento regional. A União Europeia pedia a cada estado-membro que desenhasse um programa de desenvolvimento regional, definisse as suas prioridades e o apresentasse para negociação a uma comissão de avaliação”, explicou Jorge Brandão.

Depois, a própria Europa passou a definir as prioridades numa perspetiva global, ficando os estados-membros com a obrigação de contribuir para esta estratégia comum. “Esta mudança introduziu alterações substanciais na forma, nos modos, nas tipologias e nos setores de financiamento que tínhamos à nossa disposição”, adiantou o responsável, considerando que é “preciso capacidade de sentido crítico acerca daquilo que se faz, de evoluir e de percorrer novos caminhos”.

Esta mudança de estratégia da União Europeia tem sido, “ultimamente, uma questão principal para os municípios, que gostariam de investir mais em determinadas áreas, mas os fundos estão alocados a outras que, eventualmente, consideram menos importantes. Mas temos de seguir este caminho”, concluiu.

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