A bola parou. Não há treinos, nem data para os jogos. Os equipamentos estão dentro do saco, tal como as chuteiras e sapatilhas. Agora a tática a adotar terá de ser outra. Fora das quatro linhas, mas, na mesma, sobre os campos e pavilhões.
As contas aos danos provocados pela depressão Kristin ainda não estão fechadas, mas estima-se que facilmente ultrapassem as dezenas de milhões de euros. Pavilhões derrubados, paredes e muros caídos, bancadas destruídas, telhados levantados, vedações tombadas, instalações destruídas. O cenário é desolador e o castigo é mais doloroso do que um simples cartão vermelho.
“O problema maior vai ser nos pavilhões. Os telhados voaram, os pisos, que são caríssimos, vão estragar-se e depois, devido à burocracia e a tudo o que se passou no distrito, é preciso dar atenção primeiro àquilo que é essencial para a nossa vida, enquanto cidadãos. Somos dirigentes associativos, mas somos, acima de tudo, membros da sociedade. Sabemos que isto vai ser extremamente difícil”, refere Carlos Mota Carvalho, presidente da direção da Associação de Futebol de Leiria (AFLeiria), ao nosso jornal.
Na terça-feira, a direção da AFLeiria ainda estava a fazer o levantamento dos prejuízos junto dos clubes. A incidência maior foi registada nos concelhos de Leiria, Pombal, Marinha Grande, Batalha, Porto de Mós e Pombal, mas também nos concelhos de Ansião, Figueiró dos Vinhos, Pedrógão Grande, Alvaiázere e Castanheira de Pera há registos de danos.
A última jornada foi adiada e o mesmo vai acontecer às provas previstas até dia 12, de modo a dar tempo a todos os intervenientes para recuperar as instalações, com segurança, nos casos em que foi possível.
A situação vai ser reavaliada dia a dia, mediante o evoluir da situação, uma vez que depois do vento, agora é a chuva que está a dificultar e atrasar as operações de limpeza e recuperação.
Sp. Marinhense vive “a pior tragédia” da história do clube em dia de aniversário
No dia em que o Sporting Clube Marinhense completou 87 anos de atividade, recebeu a pior prenda. O pavilhão nº1 não resistiu às fortes rajadas de vento causadas pela depressão e caiu.
“Está inutilizado para as três modalidades que temos: basquetebol, hóquei em patins e patinagem”, explicou Bruno Julião.
Segundo o diretor desportivo do clube, o espaço, “uma segunda casa, primeira para muitos”,foi dos primeiros pavilhões a surgir na cidade e mobiliza três centenas de atletas de formação.
Apesar do elevado nível de destruição, o dirigente acredita que o “clube vai ter de sobreviver a esta tragédia, como sobreviveu a outras”. “Esta é a pior, mas não vamos baixar os braços, porque esta é a nossa casa”, disse.
A solidariedade entre clubes funcionou desde a primeira hora. Vários clubes disponibilizaram-se para receber treinos das equipas de formação e o HC Turquel recebeu a equipa sénior do Sp. Marinhense, que ainda não sabe onde realizará os jogos em casa.
Na segunda-feira, elementos da claque do OC Barcelos deslocaram-se à Marinha Grande para entregar mil euros aos leões da Embra, para ajudar na reconstrução do pavilhão, e trouxeram bens alimentares e roupa.
Sem casa está também a equipa de hóquei do SCL Marrazes, que ficou sem condições para treino e jogo, uma vez que as telhas do pavilhão foram arrancadas pelo temporal.


“Tememos que os clubes não aguentem”
Contudo, o dirigente receia que em alguns casos a recuperação não aconteça. “Estamos a trabalhar desde a primeira hora para tentar arranjar soluções. Esperamos que não haja abandono de dirigentes associativos e que alguns clubes não sejam obrigados a fechar.
Todos vamos passar por muitas dificuldades, inclusive a AFLeiria. Tememos que os clubes não aguentem, mas confiamos na força, na resiliência, no espírito de ajuda de todos os dirigentes associativos.
Temos de estar unidos para tentar que efetivamente não haja o encerramento [da atividade], porque embora o futebol, o futsal, o hóquei, etc, sejam atividades secundárias, são importantes para a coesão, para a união do nosso distrito e do país”, diz.
Carlos Mota Carvalho esteve, no dia 30 de janeiro, com o presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), Pedro Proença, para lhe dar conta dos danos e para reforçar a necessidade de apoio. Na segunda-feira, a Comissão Coordenadora para as Emergências no Futebol (CCEF), que junta FPF, Sindicato dos Jogadores, Liga Portugal, Associação Nacional de Treinadores de Futebol e Mesa do Plenário das Associações Distritais e Regionais (ADR) de Futebol, reuniu-se pela primeira vez.
Seleção doa receita aos clubes
Ficou decidida a abertura pela FPF do Fundo de Catástrofes para apoio aos clubes afetados, no montante de 100 mil euros; a alocação parcial da receita do jogo particular da seleção nacional AA, no dia 10 de junho, às ADRs/clubes afetados; e a articulação e acompanhamento com o Governo dos meios do Banco de Fomento e com a Estrutura de Missão para a reconstrução da região Centro. A CCEF vai ainda reunir com as associações e clubes afetados e, dia 20, estará em Leiria a visitar os equipamentos desportivos afetados.
E são muitas as infraestruturas afetadas em todas as modalidades. A lista é imensa e as dificuldades de comunicação que ainda se registavam na terça-feira tornavam difícil fazer um levantamento completo de todas as ocorrências. Neste artigo destacamos algumas das situações que chegaram ao conhecimento do REGIÃO DE LEIRIA. Haverá muitas mais que, naturalmente, divulgaremos nas próximas semanas.
Nos campos de futebol foram afetadas sobretudo as bancadas, vedações e balneários. Há postes caídos, bancos fora de sítio e muito lixo acumulado.
As ações de limpeza começaram nos primeiros dias e em alguns campos a atividade já retomou.
A Academia Desportiva CCMI foi dos primeiros clubes a regressar aos treinos. Na segunda-feira, a bola começou a rolar, com condições de segurança, no Campo de São Francisco de Assis, na Cruz da Areia.
Já no campo do Soutocico, que tinha a conclusão das obras das novas cabines de suplentes, vedações, muros e arranjos da zona envolvente prevista para esta semana, ainda não foi possível retomar as atividades.
“Temos de andar para a frente. Os miúdos tinham de sair de casa”, sublinhou o presidente Renato Cruz, que terá a difícil tarefa de concentrar 21 equipas e 400 atletas num único campo.
Quem também vai utilizar o relvado da Academia CCMI são as equipas sub19 e sub23 da União de Leiria. A academia de Santa Eufémia sofreu estragos nos balneários, bancada e infraestruturas, que deverão ser corrigidos nas próximas semanas, mas até lá, as formações treinam em Leiria. No centro de treinos de Bidoeira de Cima, os balneários ficaram inundados e as zonas de trabalho e convívio ficaram danificadas. A União de Leiria SAD trabalhou, na semana passada, na Cidade do Futebol (Oeiras), ficando por determinar onde irá realizar os jogos da II Liga até final da época.
A imagem do revestimento da cobertura do estádio dr. Magalhães Pessoa, em Leiria, enrolado, como se uma folha se tratasse, correu televisões e jornais nas primeiras horas do dia 28. As ações de limpeza ainda estão a decorrer e serão necessárias algumas semanas de trabalho, além das vistorias técnicas para que possa voltar a funcionar e receber competições.
De coração partido
Na Ilha, Pombal, este fim de semana, um grupo de voluntários deverá reunir-se no campo das Lagoas, para reconstruir a vedação exterior. “Desolados e de coração partido, mas com a vontade de retomar rapidamente. Depois do furacão Leslie, em 2018, que afetou de forma severa o nosso clube durante vários meses, a depressão Kristin causa mais um rasto de destruição massiva nas nossas instalações. Perdemos de forma irreversível várias balizas de futebol e futebol de praia”, partilhou o clube. Houve ainda danos na cobertura da nova bancada, nos telhados/coberturas dos balneários e em todos os sistemas de iluminação.
As vias de acesso e as instalações foram limpas nos últimos dias, mas a atividade desportiva está dependente do fornecimento de energia elétrica.
Cenário idêntico verifica-se na Aldeia do Desporto. “O SCL Marrazes é mais do que um clube: é uma casa, um ponto de encontro, um espaço de crescimento, valores e sonhos — sobretudo para os nossos jovens atletas. Ver o nosso espaço afetado desta forma custa, mas não nos define. Somos um clube feito de pessoas resilientes, unidas e com um enorme espírito de comunidade. (…) iremos trabalhar para recuperar, reconstruir e voltar ainda mais fortes”.
No andebol, Atlético Clube da Sismaria, Juve Lis e SIR 1º Maio sofreram estragos nos pavilhões.
No atletismo, a Juventude Vidigalense, que já estava a trabalhar de forma condicionada devido às inundações no centro nacional de lançamentos, e o Clube de Atletismo da Marinha Grande estão a braços com inúmeros prejuízos, tentando conciliar ao mesmo tempo as provas nacionais em pista curta que estão a acontecer.
As provas de atletismo agendadas para a Expocentro, em Pombal, foram deslocalizadas para Braga. Segundo a Federação de Atletismo, nos dias 7 e 8 realizam-se os campeonatos nacionais sub18 no Fórum Braga, tal como os campeonatos nacionais de clubes – I e II Divisão, nos dias 13, 14 e 15.
No Grupo Alegre e Unido, em Bajouca, Leiria, a pista de atletismo foi inaugurada no último verão, depois de muitos meses de trabalho e dedicação de atletas e dirigentes do clube. Há vedações tombadas, parte do muro junto à pista de atletismo caída, tal como a zona de lançamentos ou as janelas do bar.
Campanhas de angariação
Nos Milagres, Leiria, o pavilhão que serve de casa à EGFA – Escola de Ginástica de Formação Acrobática ficou virado do avesso, ou se adaptarmos à modalidade, deu uma verdadeira cambalhota. Também as zonas de treino do Ateneu Desportivo de Leiria e do Trampolins Clube de Leiria, no pavilhão dos Silvas, estão fortemente condicionadas, devido, sobretudo, às telhas que levantaram ou voaram do edifício.
A Federação de Ginástica de Portugal anunciou que vai disponibilizar um “apoio máximo por entidade de 7.500 euros”, para os clubes afetados pela depressão, para “reparações urgentes” de infraestruturas, reposições de condições de segurança, reparação de material gímnico danificado ou aluguer temporário de espaços para continuação da atividade.
A regra e disciplina que caracteriza a prática de artes marciais também enfrenta tempos difíceis. O Clube de Judo Dragão, no pavilhão dos Silvas, não deverá pisar o tatami nas próximas semanas, tal como o Clube Karaté Leiria.
Situação mais complicada enfrenta a associação Piranha World Fighters. O clube de kempo viu o seu pavilhão, em Moinhos de Carvide, desmoronar. Nem os troféus europeus e mundiais conquistados escaparam à tragédia. O espaço, que serve de “escape do stress do dia a dia, o local onde se criavam amizades para a vida, o sítio onde se ensinavam valores que vão muito além do desporto”, terá de ser reconstruído quase na totalidade. O clube, como muitos outros, já criou uma campanha de angariação de fundos no valor de 60 mil euros, que serão usados para reparação e reconstrução do pavilhão, substituição de material danificado (tatamis, equipamento de treino e segurança) e criação de condições mínimas para retomar os treinos com segurança.
Muitos outros clubes e associações estão igualmente a dinamizar campanhas de angariação.
Tal como na pandemia Covid-19, os clubes enfrentam períodos difíceis, não tanto pelo regresso dos atletas aos treinos, mas pela dificuldade em ter condições e instalações para a prática desportiva.
Mota Carvalho lembra que “o movimento associativo costuma ser muito forte e ter muita resiliência, força de vontade e união”, e “nos pequenos clubes, nomeadamente de aldeias e vilas, são o principal fator de coesão destas populações”. “Enquanto agentes associativos, sabemos que neste momento é mais urgente e muito mais importante ter eletricidade, água, hospitais e escolas a funcionar e só depois é que haverá condições para olharmos para o movimento associativo”, conclui.