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“Ficámos mesmo muito tristes porque foi extremamente difícil chegar até aqui”

Um casal de empresários perdeu parte do negócio de comércio de peixe. Outro viu as estufas voltarem a voar. O vale do Lis está inundado e 500 produtores afetados. A suinicultura também desespera

A Fishify, uma empresa familiar de comércio de peixe fresco e marisco, não deverá voltar ao Mercado Municipal da Marinha Grande. “Acho que isto é o fim do nosso mercado”, diz Rui Santos, o empresário que sonhou o negócio

“É triste o poder que a natureza tem, porque isto está lastimável. E ficámos mesmo muito tristes porque foi extremamente difícil chegar até aqui. Foram seis anos de muito trabalho, muito duro, em que construímos a Fishify”, conta Beatriz Pinto, companheira de Rui Santos.

Neste tempo, conseguiram “levar para a frente todos os projetos que o Rui tinha da faculdade, e com muito sucesso. Agora, não deixa de doer, porque são muitos sonhos”, adianta. Apesar da adversidade, garantem que “não vão desistir, porque são fortes e o caminho é para a frente”.

Na perspetiva de Beatriz Pinto, “aquilo que se vê nas redes sociais [onde publicaram a sua história], na Internet e na televisão não é 100% real. Não demonstra a catástrofe que isto está. Parece realmente que caiu uma bomba e explodiu. Isto é completamente um cenário de guerra”. Por isso, Rui Santos não sabe se algum dia reconstruirão o negócio na Marinha Grande, mas “não tem esperança”.

Vai continuar no Bombarral, onde também tem presença física, e na Internet.

Este é um exemplo de como a devastadora Kristin não escolheu entre pequenos e grandes negócios, nem entre sectores de atividade. Ainda na fileira alimentar, a suinicultura também está a atravessar enormes dificuldades, como atesta o responsável da Associação dos Suinicultores de Leiria, David Neves, que interpelou o Presidente da República, durante uma visita à cidade, para lhe comunicar “a catástrofe”.

“Há dezenas de milhares de animais em perigo, sem alimento, sem água e sem luz”, refere David Neves, adiantando que “há situações absolutamente dramáticas, sobretudo na região Centro, Oeste e Vale do Tejo”. Na segunda-feira, dia 2, a associação já tinha recebido 146 pedidos de ajuda e estimava que “mais de 50% do efetivo suinícola da região de Leiria foi afetado” pela tempestade.

“Entre estes 50%, algumas explorações estão completamente dizimadas. Estamos a falar de investimentos de uma vida, de pessoas que perderam tudo o que tinham”, refere o presidente da associação, considerando que na região existem “uns milhares que têm as suas empresas e estruturas em risco”.

E o recomeço não será fácil e poderá demorar um ano e meio. “Entre obras, receber porcas, inseminação, partos e o processo normal até os animais crescerem, estamos a falar de começar do zero”, explica David Neves, também presidente da Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores.

FOTO: Joaquim Dâmaso

No Vale do Lis, o cenário não é mais animador. Por causa da Kristin e das inundações, 500 produtores ficaram “muito afetados”, com estruturas danificadas e culturas alagadas, como explica o secretário-geral da Associação de Regantes e Beneficiários do Vale do Lis, Henrique Damásio.

Há algumas estufas, um “viveiro muito grande”, explorações com cavalos, armazéns e muitas culturas, sobretudo milho afetados, mas também arroz, pastagens e fruteiras atingidas, e os prejuízos são na ordem de “muitos milhões” de euros, num vale onde, dos 2.145 hectares, 1.800 estão submersos.

“Para fazer uma intervenção no rio Lis que estava prevista antes de esta história acontecer [para regularização do leito e das margens], eram precisos 3,5 milhões de euros. Isso era na condição de que não tivesse havido destruição. Agora, com a destruição, nem sequer consigo imaginar qual o valor”, explica Henrique Damásio.

Uma das estufas da região de Leiria destruídas foi a da Sociedade Agrícola do Vale do Lis, que já tinha sido vítima do furacão Leslie, em 2018. Agora, a tempestade Kristin provocou meio milhão de euros de prejuízos na exploração de alfaces de Fábio Franco, na Ortigosa.

“Foi novamente tudo pelos ares. Tenho 37 anos e a minha vida talvez tenha mudado para sempre”, diz Fábio Franco, admitindo que o futuro da Sociedade Agrícola do Vale do Lis é “uma incógnita”. A empresa tem dez postos de trabalho, cujo futuro é incerto – como incerto é ainda o regresso da normalidade à região.

Turismo pede rapidez e a Nazaré quer apoios

O município da Nazaré pediu esclarecimentos à Secretaria de Estado das Pescas e do Mar quanto à não inclusão das atividades piscatórias e de aquacultura nos apoios anunciados pelo Governo. O presidente da Câmara, Serafim António, quer saber “as razões que justificam esta exclusão da comunicação pública relativa aos apoios financeiros extraordinários destinados a mitigar os prejuízos provocados pelas recentes intempéries”, tanto mais que “é reconhecido que vários concelhos da orla marítima foram severamente afetados, com impactos diretos nestes sectores de atividade”.

No caso da Nazaré, “a pesca e as atividades associadas assumem um papel estruturante na economia local, sendo fundamentais para a subsistência de muitas famílias”, vinca o autarca, admitindo que “a eventual exclusão destes sectores dos mecanismos de apoio suscita, por isso, legítimas preocupações junto do município e da comunidade piscatória”. Uma vez que foram registados estragos “em algumas embarcações e em infraestruturas do Porto de Abrigo da Nazaré”, a autarquia solicitou esclarecimentos sobre os procedimentos a adotar. No caso do turismo, o presidente do Turismo Centro de Portugal (TCP), Rui Ventura, espera que os apoios a conceder às unidades de hotelaria e restauração venham “o mais rapidamente possível”.

Para isso, conta com “a experiência” de Paulo Fernandes (ex-presidente da Câmara do Fundão), que lidera a Estrutura de Missão criada para apoiar a recuperação das áreas afetadas. “É um autarca de referência e, com a experiência que tem, seguramente vai contribuir para, em articulação com todos, conseguirmos dar uma resposta rápida e eficaz”, considera Rui Ventura, que visitou zonas afetadas: “Uma coisa é ver na televisão, outra é ver no terreno. A devastação que causou é impressionante”.


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