Passados 115 dias sobre a tempestade Kristin, Leiria começa as celebrações do Dia do Município, que se assinala esta sexta-feira, com uma cerimónia dedicada ao fenómeno meteorológico que transformou o concelho na madrugada de 28 de janeiro.
Para Gonçalo Lopes, presidente do Município, “a tempestade trouxe-nos destruição, mas trouxe também uma verdade que já não pode ser ignorada. Leiria tem voz”.
O autarca sublinhou que após “muito tempo” a repetir-se a ideia de que “Leiria é um gigante económico e um anão político”, esse período acabou: “O tempo do anão político terminou. Leiria tem voz. Leiria não se cala. Leiria não se verga”.
Ao longo do seu discurso, por várias vezes destacou a força e importância da comunidade para reerguer o território, nas suas diversas dimensões – desde o poder local, passando pelas forças de segurança e socorro, o movimento associativo e cada cidadão.
“O respeito também se mede na forma como o país responde quando um território é atingido com esta dimensão. A tempestade mostrou, com uma clareza que ninguém pode apagar, o papel essencial das autarquias”, disse ainda.
Gonçalo Lopes afirmou que quando se falar de poder local, não se fala apenas de proximidade. “Falamos de capacidade de resposta, de conhecimento do território e de confiança democrática. Não somos tarefeiros. Somos parceiros de pleno direito. Somos Estado”.
E acrescentou: “Nenhum país será verdadeiramente coeso se olhar para o território apenas a partir de gabinetes distantes, com mapas frios e critérios indiferentes à realidade concreta de cada comunidade”.
Referindo-se ao PTRR – Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência, considerou que “o que está em causa não é apenas o processo administrativo”, mas sim casas, escolas, empresas, associações e freguesias que precisam de regressar ao funcionamento pleno.
O presidente da Câmara disse acreditar “que quem decide saberá olhar para além dos formulários e compreender a dimensão humana, social e territorial desta reconstrução”.
“Não pedimos mais do que aquilo que nos é devido, mas também não aceitaremos menos do que aquilo que é justo”, garantiu.
Gonçalo Lopes definiu como compromisso do Munícipio “não apenas repor o que existia na véspera da tempestade”, mas “construir uma Leiria mais forte do que era”.
Para Luís Paulo Fernandes, vereador do Chega, este é um dia para celebrar o concelho, mas também uma data que exige “coragem para ver o que não está bem”.
O autarca disse que “como o Chega vinha a alterar, como o apagão alertou, não estávamos preparados”. “Ficou evidente também a total ausência de redundância energética e falhámos ao ponto de não se conseguirem garantir os mínimos básicos à população”.
O também deputado da Assembleia da República (AR) considerou que “a resiliência futura de Leiria passa obrigatoriamente por aqui” e que “governar é precaver, não é remediar a correr”.
“Quando olhamos para a resposta macro, é urgente exigir do Governo Central uma vigilância apertada à reciprocidade da proporcionalidade das medidas destinadas ao nosso concelho, nomeadamente nos fundos do PTRR e nos apoios à reconstrução”, afirmou, sublinhando que “Leiria não pode continuar a ser tratada como um parente pobre ou um concelho que sofreu com as tempestades, porque sofreu muito mais”.
Luís Paulo Fernandes apontou ao executivo municipal “falta de peso político e de prevenção”, mas também “uma gritante incapacidade de gestão interna”, referindo-se a atrasos no cumprimento de prazos de obras públicas, em que “quem paga a fatura e desperdício de dinheiro são os contribuintes que continuam privados de infraestruturas”.
O vereador exigiu ainda ao Governo Central um aumento do policiamento, “com mais fiscalização e tolerância zero contra a criminalidade”, considerando que o sentimento de insegurança nas ruas de Leiria aumentou.
Por sua vez, Nuno Serrano, vereador do PSD, considerou que Leiria tem muito com que se orgulhar: “Temos um tecido empresarial diversificado, dinâmico, assente em pequenas e médias empresas com capacidade de inovação. Temos uma sociedade civil participativa, uma comunidade associativa forte e mobilizadora, que reforça a coesão social e envolve os cidadãos”.
Além disso, “temos jovens com talento, profissionais competentes e uma tradição de iniciativa e uma oferta cultural e educativa pronta para atrair jovens e estimular novas ideias”.
“Estes fatores não surgem por acaso, são o resultado de um percurso coletivo, de escolhas consistentes e de uma comunidade que não abdica de progredir”, disse.
No entanto, para o autarca, “amar uma cidade não é apenas aplaudir o que está feito, é também ter coragem de olhar para os desafios que não se podem ignorar”. Nuno Serrano disse ser preciso ter respostas mais fortes na área da mobilidade urbana e intermunicipal e criar condições para que os jovens se estabeleçam no concelho, nomeadamente com habitação e emprego atrativo.
Também o vereador do PSD fez referência à segurança, sublinhando que “tanto na perceção como na realidade é uma preocupação central” e que “não há desenvolvimento verdadeiro sem tranquilidade, proteção e confiança no espaço público”.
Sobre a tempestade Kristin, o autarca disse que a capacidade de reação da comunidade é “uma das maiores riquezas da Terra”, mas ainda há muito a fazer. “Há investimentos que não podem ficar para depois”.
“E se queremos honrar esta resiliência e transformar os desafios em oportunidades, precisamos de olhar para o futuro com ambição. Precisamos de uma Leiria mais sustentável, mais acessível e mais inclusiva”, afirmou, considerando a linha de alta velocidade como o investimento mais urgente.