Aquelas paredes sempre foram brancas, realçando a arquitectura depurada e angulosa que José Aurélio imaginou, desenhou e concretizou no antigo edifício industrial do centro de Alcobaça. Mas isso está a mudar: desde agosto, há uma “revolução” a acontecer no Armazém das Artes (AA), com a intervenção de uma dezena de artistas de “Territory”. É a primeira paragem do projeto apoiado pela Rede Portuguesa de Arte Contemporânea (RPAC), com curadoria de Hyland Mather, e que chegará também a Óbidos e a Sines.
A fachada foi profundamente alterada por uma intervenção coletiva. No interior, os artistas criaram obras pensadas para os espaços do AA. Há ainda esculturas, pinturas, instalações, bem como criações que recorrem à luz, texto ou tecnologia. Ao todo, são “bem mais de uma centena de obras”, conta a diretora do AA. “Por mais mockups que se fizessem para ver virtualmente o que ia ser, está a ser muito engraçado. É curioso como o AA aguenta tão bem esta intervenção”, conta Maria Manuel Aurélio. O mural exterior (na fotografia do topo da página) “está a ter um impacto enorme”, mesmo antes da inauguração. “Temos muitas reações, as pessoas comentam e estão muito curiosas”.
Esse é um dos objetivos da iniciativa que marca vários momentos importantes para o espaço cultural: além de ser o primeiro projeto apoiado pela RPAC, rasga novos horizontes e garante maior projeção. “Estamos a falar de vários artistas com visibilidade nacional e internacional e isso vai-nos permitir despertar interesse em público que, se calhar, até aqui não era muito simpatizante da nossa proposta ou se calhar nem reparava”.
Maria Manuel Aurélio, espera também que a comunidade de Alcobaça “se relacione de forma diferente com o AA”. Por outro lado, “Territory” leva o AA para “uma zona mais vanguardista e menos convencional” da arte contemporânea. “Queremos assumir que estamos aqui para fazer diferente” e desafiar o público a descobrir arte contemporânea “de uma forma entusiasta”.
Maria Manuel Aurélio conta, para isso, com o contributo dos dez artistas (AkaCorleone, Bisco Smith, Catarina Leitão, Mando Marie, MOTS, Padure, Ricardo Romero, Rudolfo Quintas, The Lost Object e Wasted Rita), que “vibraram muito com o espaço”, potenciando a relação simbiótica entre criações e a arquitectura ampla. “Claro que vai ser uma redescoberta, toda uma sensação diferente quando entramos”.
Mas “Territory” – nome que resulta dos dez territórios distintos da arte contemporânea presentes – “respeita muito aquilo que o Armazém é”, e que está ligado à ideia original de José Aurélio. E o que pensa de tudo isto o escultor e fundador? “Ao início mostrou alguma preocupação, mas neste momento está superentusiasmado: adora o projeto”.
O que está a acontecer no AA vai além de uma exposição convencional e leva a arte pública para dentro de casa, “o que por si só já é provocador”. “Esta forma de exibir um bocadinho transgressora em relação ao que seria expectável para um espaço como o Armazém é muito interessante e muito desafiadora”. A diretora antevê que o público “vai ser esmagado – no bom sentido – com uma série de estímulos que se calhar não estaria à espera”.
A exposição “Territory: Fronteiras na arte pública” pode ser visitada até março de 2028. A inauguração é sexta-feira, dia 16 (18h-22h), em sessão aberta ao público, com comida, beberete e som a cargo de PeixePeixePeixe. Para o ano, “Territory” chega no verão à NovaOgiva, em Óbidos, e, no outono, à Casa de Artes de Sines.







“[Territory] Está a ser uma descoberta que, confesso, quase supera as nossas expectativas. Havia algum receio: estas paredes nunca deixaram de ser brancas. (…). Mas não podemos abandonar a ambição do projeto do Armazém das Artes, porque é dela que ele nasce”
— Maria Manuel Aurélio, diretora do Armazém das Artes