Quando o Herói, um labrador de dois anos e meio, entra no hospital de Leiria os olhares em volta iluminam-se. Utentes e profissionais de saúde centram a sua atenção numa visita pouco comum, mas que chega com uma missão muito especial: alegrar o dia dos doentes. Como? Através da Intervenção Assistida por Animais (IAA). A primeira sessão decorreu no dia 4 e levou à unidade hospitalar o cão e, claro, o seu tutor César Gonçalves.
Entre a entrada principal e a Unidade de Internamento Transitório, que abriu este ano, com capacidade para 15 utentes e onde vai acontecer a sessão, é notório o espanto de quem vê passar um quatro patas, de pêlo claro, numa estrutura onde é raro encontrar um cão. Pedem para dar festas e perguntam o que está ali a fazer. E é isso que, pelo caminho, o tutor vai explicando.
O Herói é um dos cães da Ânimas – Associação Portuguesa para a Intervenção com Animais de Ajuda Social, está a ser treinado para ser cão de assistência e realiza IAA como “uma espécie de part-time”, em que faz visitas a crianças e adultos.
No caso da Unidade Local de Saúde da Região de Leiria (ULS-RL), o projeto prevê sessões com adultos, todas as semanas, ao longo de 12 meses, no âmbito do projeto “Corações Caninos”.
Entre os olhares de carinho, muitas festas e um processo rigoroso de desinfeção (ver caixa ao lado), o Herói está pronto para entrar ao serviço. E assim que entra na sala de internamento há uma mudança no ambiente. Desde logo com a aproximação de profissionais de saúde, mas também com a curiosidade dos pacientes, que vão espreitando a chegada desta equipa especial.


02 Esta visita especial fez Angélica Alves lembrar-se dos animais que tem em casa e aguardam a sua chegada
Fotos: Joaquim Dâmaso
Angélica Alves foi premiada com a primeira festa e há um sorriso que se torna permanente no seu rosto. Tem 31 anos, estava internada há duas semanas e, mesmo sabendo previamente que este momento chegaria, deixou-se surpreender.
Lembrou-se dos oito cães, todos rafeiros, que a esperam em casa e de como é boa a sua companhia. Não tem dúvidas de que a presença do labrador a animou e fez esquecer, nem que fosse por breves minutos, do que a levou até ali.
É enquanto decorre esta visita que, ali ao lado, Maria de Lurdes se espanta ao ver o Herói e começa a pedir, repetidamente, para o trazerem mais próximo e lhe poder dar uma festa. Com 80 anos, estava no hospital de Leiria há seis dias e não descansou enquanto não se abraçou a este cão ‘terapeuta’. “Adoro animais”, foi dizendo várias vezes.
Num momento difícil de colocar em palavras, a emoção era notória nos rostos em redor, que testemunhavam o esforço da idosa para chegar cada vez mais próximo do cão, ora esticando os braços, ora esticando-se para fora da cama. Um ajuste na posição e logo se tornaram possíveis os mimos ao labrador de 35 quilos. Mas foi mais além.
Ao notar o carinho da utente pelo cão, César Gonçalves estendeu uma manta na cama, junto a Maria de Lurdes, e em poucos segundos o Herói estava deitado ao seu lado. Mais festas, muitas lambidelas, e um momento que ficará guardado na memória – da doente e de quem assistiu. “Foi muito aconchegante”, disse ao REGIÃO DE LEIRIA.
“Vem aí um cão-médico?”. A pergunta é colocada, entre risos, por Miguel Gonçalves, que direciona logo a mão na direção do focinho do Herói. Entre festas, o paciente de 33 anos lembra-se do cão de família e de todos os animais que, especialmente o pai, cuida em casa.
“Este momento foi bom, permite tirar a ideia do contexto do hospital, e apesar de estarmos cá dentro, a mente foge um bocadinho”, afirma. E acrescenta: “De repente, não anda tudo atrás dos problemas e estamos aqui todos contentes”.
Por esta altura, há já um cansaço notório que o quatro patas não consegue disfarçar. César Gonçalves, de 37 anos, explica que estas sessões representam “uma pressão muito grande para os cães”. É que, desde o momento em que lhes vestem o colete – literalmente, um colete de trabalho – eles sabem que estão a trabalhar e percebem o cuidado que têm de ter ao movimentarem-se. Um cão jovem dificilmente ficaria sossegado ao subir para uma cama ou a receber atenção e mimos, mas isso acontece nestas sessões.



04 A presença do quatro patas também chamou a atenção dos profissionais de saúde
05 O pêlo do cão é desinfetado antes do início de cada sessão
Fotos: Joaquim Dâmaso
Ainda assim, a bateria do Herói permite-lhe uma última visita, com direito a mais um salto para uma cama. Nuno Carvalho, de 50 anos, está há um mês na Unidade de Internamento Transitório e anima-se ao ver entrar a equipa da Ânimas.
Por não conseguir falar, é ao recorrer a papel e caneta que explica que tem vários cães em casa, todos resgatados da rua, e, por isso, os animais fazem parte da sua vida. “É uma boa companhia, não é?”, questiona César Gonçalves. E o doente acena assertivamente.
Ao fim de cerca de 45 minutos, a missão está cumprida e comprova-se que este labrador não poderia ter outro nome que não Herói. Não faz diagnósticos, nem cura doenças, mas surge como uma lufada de ar fresco num sítio onde a incerteza dos dias se torna, por vezes, pesada. Resta retirar-lhe o colete de trabalho e deixá-lo correr livremente na relva mais próxima para um descanso que é mais do que merecido.
Controlo de infeções é uma preocupação do projeto
Promover o bem-estar emocional de doentes e profissionais de saúde do hospital de Leiria é o objetivo do projeto “Corações Caninos”, cujo protocolo foi assinado no final de outubro. Ao longo de um ano, em 52 sessões semanais, duas duplas da Ânimas vão visitar a unidade hospitalar.
Paulo Lopes, enfermeiro diretor da Unidade Local de Saúde da Região de Leiria (ULS-RL), explica que “existem evidências científicas do benefício dos animais nas instituições de saúde, quer em termos de diminuição de stress, mas também da melhoria do estado anímico dos utentes”.
A unidade hospitalar já tem projetos que envolvem música ou palhaços, aos quais se juntam agora também os cães. Estas visitas ocorrerão todas as terças-feiras, nos serviços dos hospitais cujos profissionais se mostrarem interessados.
52
O protocolo assinado entre a Unidade Local de Saúde da Região de Leiria e a Ânimas – Associação Portuguesa para a Intervenção com Animais de Ajuda Social prevê a realização de 52 sessões, semanais, ao longo de um ano. O custo do projeto “Corações Caninos” chega aos 20.400 euros, assumidos na totalidade pela associação, no âmbito da sua política de responsabilidade social
No entanto, há que ter em conta que o Herói não deixa de ser um animal, o que obriga a cuidados de desinfeção e higiene. Neste caso, o pêlo do cão é desinfetado antes da sua entrada na unidade onde decorre a sessão, com toalhitas especiais para o efeito, e os doentes desinfetam as mãos logo após o contacto com o animal. Mas os cuidados não ficam por aqui.
Segundo Teresa Praxedes, enfermeira responsável do Grupo Coordenador Local do Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistência aos Antimicrobianos do hospital de Leiria, o cão “tem de ter o plano de vacinação em dia, bem como de desparasitações”. Além disso, semestralmente, a Ânimas é responsável por enviar os resultados de análises realizadas às fezes do cão.
No que diz respeito à segurança, em situações de emergência são as duplas da Ânimas que “assumem, sempre, a responsabilidade pelo cão”, conforme se lê no documento que estabelece o protocolo. Já “a segurança dos pacientes é da responsabilidade da ULS-RL”.
“Nós não vimos curar nada, vimos é dar alegria”
César Gonçalves não tem dúvida do que o leva a realizar sessões de Intervenção Assistida por Animais em locais como o hospital de Leiria: “Fazer esquecer o mal que os doentes podem estar a passar”. Treinador de cães de assistência na associação Ânimas, tem ainda um cuidado particular no contacto com os pacientes, que motiva a aproximarem-se do Herói e desafia até a darem-lhe um biscoito.
“Nós não vimos curar nada, vimos é dar alegria”, afirma. E acrescenta: “Notamos bastante que quando entramos com o cão, toda a gente sente que está ali algo diferente, e basta um sorriso para ficarmos contentes”.
Ao REGIÃO DE LEIRIA, explica que o Herói está numa fase de treino para se tornar cão de assistência, um dos serviços que a associação presta gratuitamente, mas, “normalmente, os cães que vêm fazer este tipo de trabalhos a hospitais são cães de serviços assistidos”.
Ainda assim, este foi mais um momento de treino para o labrador que, no dia a dia, terá de saber lidar com a atenção das pessoas. Para o especialista, esta é “a melhor profissão do mundo”.
A associação Ânimas é uma Instituição Particular de Solidariedade Social , fundada em 2002 e promove programas de Intervenções Assistidas por Animais. Além disso, cede de forma gratuita cães de serviço e cães para surdos, realiza ações de formação e produz trabalhos de investigação científica. Desde 2011 que integra a Assistance Dogs Europe e a Assistance Dogs International.