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À procura de energia que lance alguma luz sobre a Cultura de Leiria

Com os agentes culturais paralizados no meio da calamidade, o município de Leiria tocou a reunir para transmitir um apelo: “Temos de arranjar ânimo para que ninguém desista”.

O que fazer quando tudo mete água, está escuro mal o sol se põe, faz frio de rachar e a comunicação é soluçante? O dilema destes dias, comum a muitos de nós, é uma nuvem aparentemente sem resposta na calamidade que se abateu sobre o território. Depois do covid, dos incêndios, do Leslie e de desgraças outras de cujo o nome perdemos o rasto, é preciso arranjar forças para reagir e não nos deixarmos abater de vez.

Foi essa a mensagem vincada pela Câmara de Leiria na semana passada aos representantes de estruturas culturais do concelho. No auditório do Estádio de Leiria, a crise juntou um elevado número de responsáveis de ranchos, filarmónicas, grupos de teatro, escolas de dança e outras associações, num raro momento de encontro – poucas vezes tantas dezenas de instituições de Leiria de áreas tão díspares se encontraram na mesma sala.

Todos foram ao mesmo: saber o que fazer com mais este pedaço de distopia soprado a 28 de janeiro.

Faça-se luz

A receita servida pelo município à Cultura é a mesma aplicada ao Desporto ou a Educação. Não parar. “Eu joguei andebol. Quando íamos a Castanheira de Pera, jogávamos num ringue… um ringue! E agora, se não dá para equipar nos balneários, é na carrinha ou vimos equipados de casa”.

O exemplo pessoal do presidente da Câmara funcionou de mote para a ideia central: é preciso recomeçar, mesmo que só existam condições mínimas. Há muita coisa a ficar pelo caminho ou adiada, como a comemoração dos 130 anos da filarmónica das Chãs, o encontro de contadores d’”O Nariz” ou o Festival da Cidade Criativa da Música.

Independentemente disso, “temos de voltar à atividade. Podemos não fazer os eventos, mas temos de continuar a formação cultural, a escolinha de música, de dança, o teatro, tudo o que tem a ver com formação de crianças e jovens – não podemos baixar os braços”.

Gonçalo Lopes foi pragmático: “Não pensem em ter do melhor para voltar a abrir. Vamos abrir mesmo quando não está bom”. Até porque “é importante mostrar às pessoas que vamos precisar delas para melhorar. Abram as portas!”, incentivou.

A vereadora da Educação e Cultura, Anabela Graça, lembrou que é preciso que “as crianças não sintam que estamos a viver uma grande crise”. “Psicologicamente é muito mau: ontem [4 de fevereiro] as crianças voltaram à escola e desenharam casas sem tectos e carros com árvores em cima…”.

Tempo de partilhar

A Cultura ressente-se dos problemas das populações – ou não fosse feita por elas: sem eletricidade, é quase impossível fazer alguma coisa, até porque a maior parte da atividade acontece em horário pós-laboral.

“Gostava que nos dessem uma previsão. A água veio hoje, a luz ninguém sabe. As coletividades vão sobreviver, o povo é que pode não sobreviver. Ninguém nos sabe dizer nada…”, lamentou o representante da filarmónica da Bidoeira. “É impossível trabalhar sem luz!”, desabafou alguém da plateia para Gonçalo Lopes.

“A luz? A luz tem de vir. Há de chegar, não sabemos é quando…”, disse o presidente da autarquia, num misto de revolta e resignação. “A vossa primeira missão é ver o que têm de fazer no curtíssimo prazo para ter as condições mínimas de funcionamento. Não esperem ter tudo bem. É preferível não estar perfeito mas estar a funcionar”, insistiu, incentivando, com a vereadora, à solidariedade.

O autarca, não esconde, está preocupado: “Se perdermos energia na cultura, não perdemos só tempo; andamos para trás anos, anos!”. “Temos de arranjar ânimo para que ninguém desista. Ficar sem telhado não é o fim da atividade. As pessoas estão juntas para resolverem os problemas. Leiria tem isto, esta força humana que nos caracteriza”, disse Anabela Graça.

Ato contínuo, a SAMP foi a primeira a disponibilizar o seu auditório a outras estruturas; o Rancho Vale da Rosa, na Caranguejeira, ofereceu a sede ao vizinho Rancho dos Soutos – que ficou sem tecto – ensaiar. “Até podem trocar pares”, brincou Gonçalo Lopes; e, entre outras partilhas, a filarmónica da Maceira, cuja nova sede ficou a meter alguma água, disse haver, também ali, condições para outros.

“A confiança que tenho em vocês é a mesma que deposito nos leirienses que hoje sobem aos telhados para arranjar as telhas. É a mesma dos empresários que ficaram com as fábricas destruídas e estão a contratar quem lhes ponha as coberturas para recomeçarem a trabalhar. É esse o nosso ADN e é isso que vai surpreender muita gente”, elogiou Gonçalo Lopes.