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Dupla de Leiria retoma viagem pela EN2 de bicicleta até Faro no domingo

Agostinho e Sérgio vão percorrer na próxima semana a segunda parte de uma viagem solidária. Por cada quilómetro percorrido vão receber uma verba que será utilizada na reconstrução de bens danificados pela tempestade Kristin.

Foi concluída com sucesso a primeira semana de ligação de Chaves a Faro, pela EN2, em bicicleta, pelos leirienses Agostinho Rodrigues e Sérgio Marcelino. No próximo domingo, a dupla parte para a segunda parte da viagem, até ao sul do país, mas ficam, para já, muitas histórias para contar.

A primeira etapa ligou Chaves a Abrantes, entre os dias 23 e 30 de maio.

Terminada esta primeira parte do projeto “Portugal de lés a lés em bicicleta btt pela EN2”, Agostinho Rodrigues, um dos participantes nesta viagem, partilhou com o REGIÃO DE LEIRIA um balanço “de uma aventura inesquecível”.

“Foram jornadas marcadas por temperaturas quase sempre acima dos 30 graus, pela dureza da altimetria, pelo cansaço acumulado e por uma enorme capacidade de superação. Mais do que uma viagem de bicicleta, foi um verdadeiro teste ao nosso espírito de sacrifício, companheirismo, resistência mental, controlo emocional, garra, resistência física e resiliência. Dia após dia, quilómetro após quilómetro, fomos descobrindo não apenas o país profundo, mas também a nossa própria capacidade de enfrentar desafios”, diz.

“A aventura começou em Chaves, cidade termal de origem romana, conhecida pelas suas famosas termas.
No dia 23 de maio ligámos Chaves a Vila Real, passando por Pedras Salgadas e Vila Pouca de Aguiar. Os primeiros quilómetros revelaram-nos uma região de montanha, rica em recursos hídricos, vegetação abundante e cerejais carregados de fruto. Sob um calor já intenso, cada subida exigia esforço redobrado.

A chegada a Vila Real permitiu-nos recordar a majestosa Casa de Mateus, um dos mais belos exemplos do barroco português e símbolo maior da região.

No dia 24 de maio seguimos de Vila Real para Lamego, passando por Santa Marta de Penaguião.
Entrámos no coração do Alto Douro Vinhateiro, Património Mundial da UNESCO, onde os socalcos cobertos de vinhas desenham uma paisagem única no mundo. Entre montanhas, vinhedos e pequenas aldeias, encontrámos gentes trabalhadoras, humildes e profundamente ligadas à terra, à cultura do vinho e às tradições agrícolas que atravessam gerações. A Serra do Marão dominava o horizonte enquanto o calor continuava a colocar à prova a nossa resistência.

A 25 de maio realizámos a ligação entre Lamego e Castro Daire. Em Lamego destaca-se o imponente Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, um dos mais importantes centros de devoção mariana do país e ex-líbris da cidade. Atravessámos depois a majestosa Serra de Montemuro, atingindo os 972 metros de altitude no Mézio, o ponto mais alto desta etapa. O percurso foi dominado por montanhas, cursos de água e extensas manchas de verde.


Estas são também terras da transumância, onde durante séculos os pastores conduziram os seus rebanhos pelos caminhos serranos, moldando a cultura e os costumes locais.

No dia 26 de maio ligámos Castro Daire a Viseu. Embora o relevo se tornasse gradualmente mais suave, as pernas já começavam a sentir os efeitos do esforço acumulado. Em Viseu recordámos a figura lendária de Viriato, o guerreiro lusitano símbolo da resistência aos romanos. Cidade de forte identidade histórica e cultural, Viseu acolheu-nos com a simpatia característica das gentes beirãs, conhecidas pela sua hospitalidade, serenidade e apego às tradições.

A 27 de maio seguimos de Viseu até Penacova, passando por Tondela, Santa Comba Dão e pela Barragem da Aguieira. A paisagem alternou entre vales férteis, extensas florestas e grandes espelhos de água. Antes de chegar a Penacova fizemos uma passagem pela singular Livraria do Mondego, instalada numa antiga pedreira e perfeitamente integrada na paisagem natural. Em Penacova, terra intimamente ligada ao rio Mondego, recordámos a tradição gastronómica da lampreia, uma das especialidades mais apreciadas da região.

No dia 28 de maio ligámos Penacova a Góis. O percurso decorreu por algumas das mais belas paisagens naturais do centro do país, entre praias fluviais, rios cristalinos e os relevos das serras da Lousã e do Açor.
A natureza apresentou-se em todo o seu esplendor, mas as constantes subidas e descidas, aliadas ao calor intenso, continuaram a exigir grande determinação. O cansaço acumulava-se, mas o espírito de entreajuda e companheirismo foi sempre mais forte.

A 29 de maio fizemos a ligação entre Góis e Sertã, passando por Pedrógão Grande e pela impressionante barragem do Cabril. Mais uma vez enfrentámos um percurso muito exigente, com sucessivas subidas e descidas que castigavam o corpo, mas fortaleciam a mente. Em compensação, fomos brindados com paisagens de rara beleza, onde o verde das encostas e a abundância de água criavam cenários verdadeiramente memoráveis.

Na Sertã encontrámos uma terra orgulhosa das suas tradições, conhecida pela hospitalidade das suas gentes e pelo famoso maranho, um dos pratos mais emblemáticos da gastronomia beirã. Finalmente, no dia 30 de maio, ligámos Sertã a Abrantes, passando por Vila de Rei. Um dos momentos altos do dia foi a visita ao Centro Geodésico de Portugal, assinalado pelo emblemático Marco Geodésico do Picoto da Melriça, considerado o centro geográfico de Portugal Continental.

As temperaturas continuavam elevadas e as constantes subidas e descidas obrigaram-nos a recorrer às últimas reservas de energia física e mental. A chegada a Abrantes representou o culminar de oito dias de esforço, dedicação e superação. Ao longo desta etapa percorremos regiões profundamente diferentes entre si.

Mas foi também uma extraordinária demonstração de amizade, espírito de equipa, entreajuda e capacidade de superação. A força mental revelou-se tão importante quanto a força física. Houve momentos difíceis, mas nunca faltaram coragem, determinação e vontade de seguir em frente.
Mais do que percorrer uma estrada, percorremos uma parte importante da história, da cultura e da identidade de Portugal. E se esta primeira etapa terminou em Abrantes, a aventura está longe de terminar”, conta Agostinho Rodrigues.

Para o próximo domingo, dia 7, está marcada a retoma do percurso pela EN2, entre Abrantes e Faro, onde a dupla conta chegar a 11 de junho.

Mas mais do que uma aventura e viagem de bicicleta, este é também um projeto solidário.

Os ciclistas leirienses contam com uma vertente solidária que chega através da empresa Lusical (em Alcanede), onde Agostinho Rodrigues trabalhou antes de se reformar: a empresa vai contribuir com um euro por cada quilómetro percorrido. Mas outras entidades podem juntar-se à causa, mencionam os ciclistas.

É que a verba angariada será utilizada na totalidade para ajudar alguém da região, na reconstrução de uma casa afetada pela tempestade Kristin, na compra de eletrodomésticos ou outro bem.

“Não vamos entregar dinheiro, vamos aplicar sempre em alguma coisa que faça falta a alguém ou a alguma instituição. Quanto mais apoios conseguirmos arranjar, mais vamos ajudar”, explica Agostinho Rodrigues.


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