O centenário da Colónia Agrícola dos Milagres, no concelho de Leiria, é assinalado este sábado, dia 18, com um programa que inclui teatro, uma exposição e espaço de partilha de memórias, anunciou a Junta de Freguesia.
As comemorações, no parque de merendas do Ravasco, começam às 10 horas, com a sessão solene, seguindo-se o desfile da Filarmónica Bidoeirense pela rua da Colónia.
Pelas 11h30, há missa e homenagem aos colonos, e depois do almoço decorre uma recriação da história da colónia, com teatro, exposição fotográfica e documental, e espaço de partilha das memórias da comunidade.
Numa publicação na rede social Facebook, a Junta de Milagres afirmou que “celebrar os 100 anos da Colónia Agrícola é homenagear todos aqueles que fizeram parte deste percurso e reconhecer o legado que continua presente na vida” da freguesia.
“Não é todos os dias que se celebram 100 anos de uma colonização, neste caso da colónia agrícola, primeira colónia em Portugal”, declarou à agência Lusa a presidente da Junta, Vânia Sousa, destacando a recriação histórica, com o testemunho de uma ex-colona.
A presidente da Junta lembrou ainda que a freguesia cresceu com o contributo dos colonos.
“As pessoas vieram para aqui trabalhar, fizeram com que houvesse um crescimento”, destacou Vânia Sousa.
Sobre as sementes para o futuro que gostaria que esta data simbólica deixasse, a autarca desejou que “as pessoas, cada vez mais, valorizem” as suas origens.
De acordo com a investigadora Sara Mónico, a Colónia Agrícola dos Milagres ocupava 220 hectares, integrados nos 1.134 hectares do baldio da freguesia dos Milagres, e estava organizada em três núcleos: Alcaidaria e Mata, Triste Feia e Bidoeira.
“Inicialmente foram construídos 16 casais agrícolas, tendo a reorganização de 1939 levado à extinção do núcleo da Triste Feia e à construção de mais 13 casais, passando a colónia a contar com 25 casais agrícolas”, explicou a docente doutorada em Antropologia.
Além das habitações e respetivos anexos, a colónia “dispunha de equipamentos coletivos como moagem, campo de demonstração agrícola e posto médico”.
“O número de habitantes variou ao longo do tempo. Há registo de 39 pessoas em 1930, 59 em 1940 e 84 na década de 1960, valor que diminui para quase metade (47) na década seguinte”, esclareceu.
Segundo Sara Mónico, docente na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Politécnico de Leiria, “o objetivo era o de aumentar a área agrícola, fixar população no meio rural e converter trabalhadores agrícolas em pequenos proprietários”, não se tratando de “uma obra com data de término”.
“Cada família de colonos tinha atribuída uma casa de habitação e uma parcela de terreno suficiente para garantir o sustento da família, ficavam obrigados ao pagamento de uma renda ao Estado e da entrega mensal de uma parte da sua exploração agrícola”, como legumes, cereais ou madeira, esclareceu.
A investigadora precisou que “durante um período inicial de cinco anos detinham um título de fruição provisória, no qual tinham de demonstrar as suas qualidades de trabalho e de zelo pela casa atribuída”, sendo que, “após pagamento do valor definido pelo casal agrícola, no início do contrato, a propriedade passava a definitiva”.
“Os colonos que foram ficando conseguiram cumprir com o contrato e comprar a sua propriedade”, adiantou, observando que persistem “algumas casas de (ex)colonos e respetivos terrenos, que, entretanto, já passaram para filhos e netos”.
À pergunta sobre o que foi feito dos terrenos, disse que “o baldio que foi dividido e entregue aos colonos foi posteriormente adquirido pelos que ficaram e que conseguiram pagar”.
“Os documentos mostram que nem todo o baldio foi ocupado, provavelmente, essa parte não colonizada, manteve-se ou mantém-se nas mãos do Estado”, indicou.
Sara Mónico acrescentou que se pode questionar as razões que levaram à escolha de um baldio na freguesia de Milagres para a concretização desta iniciativa, dado não ser “um local conhecido ou central”.
“A resposta estava num dos relatórios da Junta de Colonização Interna, em que o principal engenheiro responsável pela obra, Mário Pais da Cunha Fortes, referia que, na altura, 1926, o Ministério da Agricultura não tinha terreno melhor”, relatou, explicando que a sua concretização nesta freguesia se deveu muito à ação do padre José Ferreira Lacerda, que foi pároco de Milagres várias décadas.
Colónia Agrícola dos Milagres foi primeira experiência de colonização interna no país
A Colónia Agrícola dos Milagres foi a “primeira experiência de colonização interna em Portugal” e marcou “o início de uma política que o Estado pretendia alargar ao resto do país”, revelou a investigadora Sara Mónico.
“A Colónia Agrícola dos Milagres tem importância sobretudo por ter sido a primeira experiência de colonização interna em Portugal e por marcar o início de uma política que o Estado pretendia alargar ao resto do país”, declarou Sara Mónico, doutorada em Antropologia.
Explicando que “foi concebida como um projeto-piloto, onde se testou um modelo de instalação de famílias em casais agrícolas, dotados de habitação, terrenos para cultivo e infraestruturas de apoio”, Sara Mónico reconheceu que, “ao longo da sua existência, serviu também para experimentar diferentes critérios de seleção dos colonos e modelos de exploração agrícola, refletindo a evolução das políticas de colonização interna do Estado Novo”.
“Apesar da sua importância pioneira, revelou igualmente as dificuldades e limitações deste modelo, nomeadamente devido à fraca aptidão de alguns terrenos, à preparação insuficiente de alguns colonos e aos resultados agrícolas abaixo das expectativas”.
Segundo a docente da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Politécnico de Leiria, em processo de transformação para Universidade de Leiria e Oeste, “as colónias agrícolas surgiram na sequência das ideias fisiocráticas e de um longo debate, iniciado no século XVIII, sobre a necessidade de aproveitar o território nacional”.
“O seu objetivo era transformar grandes áreas de baldios e terrenos incultos em terras produtivas, fixando famílias, desenvolvendo a agricultura, aumentando a produção de cereais e modernizando o mundo rural, na convicção de que uma agricultura forte era a base do crescimento económico do país”.
A importância da Colónia Agrícola dos Milagres, que assinala 100 anos no sábado, mede-se em termos locais, mas também nacionais.
“A nível local, a colónia transformou a paisagem e a ocupação do solo, mas também gerou conflitos. A apropriação e divisão de terrenos baldios retiraram às populações vizinhas áreas que eram tradicionalmente utilizadas para pastoreio, recolha de lenha e outras atividades essenciais à economia rural, criando tensões sociais entre colonos e habitantes locais”, recordou.
Já a nível nacional, “a Colónia dos Milagres constitui um marco na afirmação da intervenção do Estado sobre o mundo rural, procurando, aparentemente, responder aos problemas da agricultura e da fixação da população, mas os seus resultados ficaram muito aquém das expectativas”.
“Apesar do investimento técnico e científico, estas experiências não conseguiram travar o abandono do mundo rural, nem a emigração que se intensificou nas décadas seguintes”, adiantou a docente natural de Leiria.
Nesse sentido, “o seu valor não reside tanto no sucesso da iniciativa, que não aconteceu, mas no facto de representar um momento importante para a história das políticas agrárias e do ordenamento do território, que há muito se falava”.
Sara Mónico adiantou que, “do ponto de vista patrimonial, a Colónia dos Milagres conserva um valor histórico e documental significativo, apesar da pouca visibilidade que tem”.
“É um testemunho das políticas agrárias do século XX, em regimes políticos distintos, das formas de ocupação e organização do território e das experiências de colonização interna, mas também das suas limitações, ou seja, dos conflitos que suscitaram (entre população das aldeias próximas e entre os próprios colonos) e das mudanças sociais que ajudaram a efetivar”, relatou.
Nascida no regime republicano (a lei é de 1925), mas concretizada num regime ditatorial, a Colónia Agrícola “registou várias mudanças de atribuição de responsabilidades e de reorganizações” e, “apesar de tudo, conseguiu sobreviver até ao fim do Estado Novo”, acrescentou a investigadora.