Procurar
Assinar

Subscreva!

Newsletters RL

Saber mais

“Há uma sensação de impotência por não poder ajudar”: testemunhos da tragédia que abalou a Venezuela

Maribela Vieira e Derek Gonçalves são venezuelanos e contam na primeira pessoa como acompanharam a informação sobre o sismo que atingiu o país no mês de junho.

“Foi a coisa mais espantosa que já vivi na minha vida”. Foi assim que Derek Gonçalves descreveu os momentos em que a terra tremeu na Venezuela, na sequência dos sismos de magnitude 7,2 e 7,5 que atingiram o país no passado dia 24 de junho de 2026.

Através de dois testemunhos, um vivido no terreno e outro acompanhado à distância, em Portugal, o REGIÃO DE LEIRIA partilha o retrato do medo, da destruição, mas também da solidariedade e da esperança que marcaram os dias seguintes à tragédia, através de cidadãos com ligações a Leiria.

Residente na Venezuela há 13 anos, Derek Gonçalves encontrava-se em Charallave, no estado de Miranda, uma zona menos afetada pelos sismos, quando estes aconteceram.

Após os primeiros abalos, a eletricidade e as comunicações foram interrompidas. Só horas mais tarde, através das notícias e do contacto com amigos, se apercebeu da verdadeira dimensão da catástrofe. “Só passadas algumas horas é que realmente me apercebi da dimensão da catástrofe. Os maiores danos registaram-se no estado de La Guaira”, recorda.

A viver na Batalha, em Portugal, a milhares de quilómetros de distância, Maribela Vieira viveu aqueles dias com um sentimento de impotência. Com familiares e parte do património na Venezuela, acompanhou a evolução da situação através das redes sociais e do contacto permanente com familiares e amigos.

“É uma situação de desespero. É um povo sofrido, que tem lutado muito ao longo dos últimos anos. Há uma sensação de impotência por não poder ajudar, principalmente pelas crianças que ficaram sem família”, afirma.

Segundo Maribela, a comunidade venezuelana residente em Portugal tem acompanhado os acontecimentos através das redes sociais com enorme angústia, sobretudo numa altura em que começava a acreditar na recuperação do país. “O país estava a começar a ver uma luz ao fundo do túnel e, de repente, acontece isto. É apenas dor e desespero”.

Apesar de os familiares viverem a cerca de 600 quilómetros da zona mais afetada, o receio manteve-se devido à possibilidade de novas réplicas. “O meu irmão chora todos os dias. Há um sentimento constante de medo”, revela.

A família é proprietária de um hotel que escapou aos maiores danos, registando apenas algumas fissuras nas paredes. Ainda assim, decidiu enviar toalhas e lençóis para apoiar as pessoas que ficaram desalojadas.

À medida que foi conhecendo a realidade das zonas mais atingidas, Derek deparou-se com relatos marcados pela perda, pela incerteza e pela dificuldade em recomeçar. “As pessoas perderam familiares, amigos e muitos dos seus bens. Há muita angústia e preocupação sobre como voltar a reconstruir as suas vidas”.

Segundo explica, uma das maiores dificuldades está relacionada com o alojamento das famílias afetadas. “Muitas pessoas vivem atualmente em refúgios e tendas. Existe também um grande receio de novos sismos e dificuldades no acesso a alguns bens essenciais. Ainda assim, tem havido muita solidariedade por parte da população e do governo”.

Na zona onde reside, os principais constrangimentos fizeram-se sentir ao nível da eletricidade e das comunicações. “Ficámos sem eletricidade e Internet durante cerca de seis horas, mas ambas as ligações já foram restabelecidas”, explica Derek.

Destaca ainda a resistência das infraestruturas da empresa onde trabalha, do grupo NOV, que resistiram aos abalos sem danos estruturais. “Depois das réplicas, os edifícios ficaram intactos porque foram projetados com um elevado nível de resistência sísmica”, justifica. Na sua opinião, este tipo de construção poderá servir de exemplo para futuras obras no país.

Os dois sublinham igualmente a importância da solidariedade demonstrada nos dias que se seguiram aos sismos. Maribela destaca a união do povo venezuelano, mas alerta para a vulnerabilidade das crianças em situações desta natureza. “O povo venezuelano é muito solidário e tem existido muita união nestes momentos difíceis. As forças internacionais também têm ajudado bastante. Mas, durante estas tragédias, há quem se aproveite das crianças e das pessoas mais vulneráveis”, realça.

Também Derek considera que o apoio internacional desempenhou um papel importante na resposta à emergência. “A ajuda internacional foi fundamental nas operações de resgate e a população está muito agradecida”. Acrescenta que foram criados vários pontos de recolha e distribuição de bens essenciais e medicamentos nas zonas mais afetadas.

Para Maribela, uma das prioridades passa agora pelo acompanhamento das crianças que sobreviveram à tragédia. “Acima de tudo, é preciso apoio psicológico e atividades para as crianças. Não há entidades suficientes para lhes dar esse acompanhamento”.

Já Derek acredita que esta experiência deve servir de alerta para reforçar a preparação da Venezuela perante futuros fenómenos sísmicos. “Espero que exista uma maior consciência sísmica, com simulacros regulares, sistemas de alerta e protocolos de atuação obrigatórios”.

Apesar da destruição provocada pelos sismos, ambos acreditam na capacidade de recuperação do povo venezuelano e deixam uma mensagem de esperança. “Apesar de termos caído mais uma vez, tenho a certeza de que nos vamos levantar ainda com mais força. Que nunca nos falte coragem para seguir em frente”, afirma Maribela.

Derek reforça essa esperança ao deixar uma mensagem de solidariedade às vítimas e às suas famílias. “Quero deixar uma mensagem de apoio ao povo venezuelano, às famílias das vítimas e a todos os que perderam os seus lares. Espero que o povo venezuelano saiba que não está sozinho”.

BS com MG


Deixar um comentário

Artigos relacionados

Subscreva!

Newsletters RL

Saber mais

Ao subscrever está a indicar que leu e compreendeu a nossa Política de Privacidade e Termos de uso.