Natural de Leiria, Fernando Camarate Santos regressa este verão à região para apresentar o seu primeiro romance, “A face sombria do amor”, uma história passada em Moçambique, na época colonial e no pós-independência. O autor fala de “A face sombria do amor” na Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira, em Leiria, esta sexta-feira, dia 14 (17h), e no sábado, dia 15 (17h) vai até à Feira do Livro da Nazaré, para uma apresentação no Centro Cultural.
Atualmente a viver e trabalhar na Baviera, na Alemanha, Fernando Camarate Santos mudou-se aos 14 anos para Moçambique com os pais, onde estudou. No regresso a Portugal, formou-se no Instituto Politécnico de Leiria e voltou, pouco depois, a emigrar, passando pela Alemanha, Irlanda, Inglaterra.
Profissionalmente está dedicado à área de desenvolvimento de negócio B2B, encontrando na escrita “uma forma de reflexão, de escape e também uma maneira de manter uma ligação às minhas próprias raízes”. Ao REGIÃO DE LEIRIA respondeu, por escrito, a questões sobre o seu primeiro romance, “A face sombria do amor”, autoeditado no final de 2025 e que é motivo para as duas apresentações deste fim de semana.
Como surge o romance “A face sombria do amor”?
A ideia geral da história acompanha-me desde os meus 15 anos, mas durante muito tempo foi algo que fui adiando. A certa altura, senti que já não podia continuar a adiar esse projeto e que tinha finalmente chegado o momento de arriscar. Também percebi que só nesta fase da minha vida tinha a experiência e a maturidade necessárias para escrever esta história da forma como queria. O livro aborda temas como a identidade, a paternidade e as relações humanas, e senti que precisava de alguma experiência de vida para lhes dar a profundidade que procurava. Quando comecei a escrever, não tinha totalmente definido o rumo que a história iria seguir. Fui, de certa forma, descobrindo-a à medida que escrevia, deixando que as personagens e os acontecimentos me fossem conduzindo. Havia ainda uma motivação mais pessoal: a vontade de deixar algo que permanecesse para além de mim. Um livro acaba por ser também uma espécie de testemunho, uma pequena parte de nós que fica. Essa ideia de poder deixar algo para a posteridade também teve peso na decisão de finalmente começar a escrever.

Porque escolheu escrever uma história passada em Moçambique?
A escolha de Moçambique está muito ligada ao período em que lá vivi, entre 1994 e o final de 2000. Quando nos mudámos para o país, estavam a realizar-se as primeiras eleições democráticas após a guerra civil, e Moçambique vivia um momento muito particular de transição entre um passado marcado pelo colonialismo e pelo conflito e um futuro enquanto país independente. Esse contexto teve naturalmente uma influência muito forte em mim. Além disso, na minha própria família havia pessoas que tinham vivido em Moçambique durante o período colonial e que puderam observar, ao longo do tempo, as profundas mudanças que o país foi atravessando. Ao escrever o livro, quis de certa forma acompanhar essas transformações através das personagens. Interessava-me perceber como as grandes mudanças históricas se refletem na vida individual, nas relações, na identidade e na forma como cada pessoa interpreta o mundo à sua volta. A escrita tornou-se também uma forma de eu próprio compreender melhor o Moçambique que conheci. Por isso, embora a história comece no período colonial, acompanha depois as personagens ao longo de várias décadas, até se aproximar precisamente da época em que eu próprio vivi no país.
O livro foi lançado no final do ano passado. Que percurso tem tido? Quais têm sido as reações?
Enquanto novo autor, e conciliando a escrita com a minha atividade profissional, tenho procurado, nesta fase, sobretudo dar a conhecer a obra e perceber melhor como funciona todo o processo de divulgação de um livro enquanto autor autopublicado. Algumas pessoas já leram o livro e, de uma forma geral, tenho recebido opiniões bastante positivas. Mas, neste momento, em relação a esta obra, o meu foco está muito direcionado para a sua tradução para inglês, que já comecei a preparar. Tenho particular curiosidade em perceber como o livro será recebido por leitores que, provavelmente, terão um conhecimento muito mais reduzido sobre o contexto histórico de Moçambique, tanto no período colonial como no pós-independência. Ainda assim, mais do que o contexto histórico em si, espero que aquilo que chegue ao leitor seja sobretudo o drama humano: as consequências que a guerra pode ter nas relações, na paternidade, nas escolhas que fazemos no dia a dia e na forma como lidamos com os nossos próprios conflitos interiores.
Está já a preparar um próximo livro?
“A face sombria do amor” é a minha primeira obra publicada e o próximo livro terá como título “A última refeição”. Desta vez, a história terá lugar em Portugal, com ligações a Leiria e à Serra da Estrela. A narrativa acompanha um casal marcado pela perda de um filho. Anos depois, já numa fase muito avançada das suas vidas, recebem no restaurante que gerem, situado num local bastante isolado da Serra da Estrela, a visita inesperada de um homem que acreditam estar ligado à morte do filho e que nunca chegou a ser responsabilizado pelo sucedido. Ele não os reconhece, mas eles reconhecem-no imediatamente. E é nesse momento que decidem preparar-lhe aquilo que poderá ser a sua última refeição. Será uma história mais assumidamente próxima do thriller psicológico e também uma forma de explorar uma componente literária diferente daquela que trabalhei em “A face sombria do amor”. Ainda assim, haverá novamente uma ligação a momentos e, sobretudo, a lugares que marcaram a minha própria vida.