Há hoje um desencontro entre a maioria de nós e aquilo que devia ser melhor nas vidas de cada um. “Vivemos um tempo em que todo o futuro nos parece negro, o que é resultado de uma vivência cínica, com valores errados e que, vendo o mundo em negro, mais cínicos nos tornamos e mais medrosos ficamos”. Hirondino Pedro Duarte acredita que a resposta para outro caminho está na arte. A sua proposta para uma alternativa está na pintura.
No Teatro José Lúcio da Silva, o pintor mostra um conjunto de aguarelas e óleos, criados desde 1995 até à atualidade, na exposição “Reencantar o futuro”. “Se não renovarmos a nossa visão do que é o bem viver, a grande pergunta da filosofia, continuamos nessa situação de agravamento”. A partir da ideia de como reencantar o futuro – uma coisa que sempre foi passando pelo meu trabalho, mesmo sem ter esta formulação -, apresenta uma retrospetiva de como essa vontade foi atravessando a sua obra.
“Há pinturas negras da dúvida, de reconhecimento do erro, e todas as outras são tentativas de, através da arte, contribuir para a construção de caminhos e formas mais acertadas de existir. É uma relação de reconhecimento da beleza que existe em todas as existências do mundo, incluindo a natureza, e de sairmos da ideia e do registo comum de que a felicidade está ligada à acumulação, à competição pura ou à descredibilização do outro para nós sermos maiores”, explica o artista.
Pelo contrário, a pintura de Hirondino Pedro Duarte procura mostrar que “é neste mundo que a felicidade existe e é no reconhecimento de que no mundo natural, e na nossa relação atenciosa com o mundo – ou como digo numa obra, na relação amorosa com o mundo – que podemos construir uma relação espiritual mais frutífera para o futuro”.
Através da arte, tenta encontrar e partilhar “um valor de criação de beleza” e “a possibilidade de transformação social e transformação espiritual”. “Há uma ideia de passar esses valores através da alegria e pela alegria podermos pensar o que nos pode construir este bem viver”, acrescenta.
Hirondino, que encara a arte como “uma maneira de que toda a vida passe para a frente – é uma luta contra a morte”, procura nesta exposição, como sempre, dar respostas:
“Se puder dar pistas e possibilidades de criação de vida, devo dá-las. Não ficar só pela denúncia, pela perturbação, mas sim pela criação de beleza. Para mim, é simplesmente uma outra forma da apologia de vida”.
“Reencantar o futuro” está patente no foyer do Teatro José Lúcio da Silva até 30 de novembro, com portas abertas todos os dias, das 18 às 22 horas.




