A toalha estendida na mesa acusa o excesso de assiduidade dos inquilinos, que geralmente não andam por ali a tempo inteiro, menos ainda, ao molho em jornadas coletivas de 24 horas. Dando sinais de cansaço, os recantos domésticos protestam e revelam sujidades urgentes. ‘

‘A Casa’ tornou-se um acampamento de desencontros em vez de regressos. Os silêncios gritam muito acima das risadas, sem volume, e os vazios, esses, ocupam um espaço que não tem lugar em lado nenhum.

Contar palavras ao vento tornou-se um desafio tentador. Ele, à janela, fuma para se anestesiar; o ‘smog’ bebe-lhe as ideias e ajuda-o a esquecer outro amanhecer. Apaga o cigarro nas plantas dela, queima-lhe a presença, suga-lhe as vontades, e volta para dentro de si mesmo, porque a porta sempre esteve fechada.

Noutra divisão, ela calça os saltos para saber que ainda é alguém, olha para o espelho e confirma que está além da transparência. Com fúria de novidade, resolve experimentar dezenas de amostras de cremes, mesmo que estejam fora da validade (quer lá saber!). Entretanto, os cabeleireiros abriram e talvez largue o vício.

Os afetos, impossíveis de ativar com comandos de televisão, são incompatíveis com corpos sentados a metros de distância, embora isso ajude a cumprir escrupulosamente o isolamento físico exigido (já ouvi desculpas melhores…).

As pipocas, a servirem de fronteira entre olhares, são para lá de convenientes. Talvez o dito romance seja só um arquivo de realidade aumentada, materializado pelas novas tecnologias. Será possível viver memórias imaginadas?


Desorientados, os diálogos procuram personagens ausentes há demasiadas temporadas. Ele, saturado daquele perfume, enfrenta conversas riscadas e preenche as pausas como quem vai para uma fila de peixe fresco cheia de gente à frente. Ela sabe, afinal, sempre foi a distância que os uniu.

Lá fora, esticam-se os lábios e dão-se as mãos (poucos casais o fazem). A máscara já lá estava, mas agora é feita de tecido vermelho às bolinhas.
Volta para a tua vida e eu volto a amar-te (cardinal) #VaiFicarTudoBem.

Ilustração: Jorge Morgado

(Artigo publicado na edição de 21 de maio de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)