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Rita M. Pereira

Designer e leitora

Caleidolivro: A Trilogia de Copenhaga

Ao longo de toda a obra da dinamarquesta Tove Ditlevsen, é inevitável a reflexão sobre a vida artística no feminino.

Mergulhar na obra de Tove Ditlevsen é como atravessar uma história de vida em apneia. A edição portuguesa, da editora Dom Quixote, reúne num só volume três livros: “Infância”, “Juventude” e “Relações Tóxicas” – uma confissão singular, marcante e ferozmente sincera das memórias da autora dinamarquesa, nascida no fim da Primeira Guerra Mundial.

“Infância” descreve, com desapego, o seu início de vida num bairro operário e pobre de Copenhaga.

Neste ambiente opressivo cresceu sem afeto, por entre uma sociedade com problemas de emprego e dificuldades económicas – foi aqui que começou a escrever.

Em “Juventude” continua, de forma crua, o relato de uma época marcada por expectativas falhadas, descrevendo objetivamente a sucessão de acontecimentos que a destinaram ingenuamente a falhar.

Por fim, “Relações Tóxicas”, narra a relação chocante com o marido Carl, um médico que lhe receitava drogas a pedido, num casamento desequilibrado, durante o qual a sua saúde mental ficou profundamente afetada.

Ao longo de toda a obra, é inevitável a reflexão sobre a vida artística no feminino: as dificuldades em conciliar o ato de criar com os diferentes papéis que a sociedade espera que a mulher desempenhe, em conseguir independência financeira, reconhecimento literário e, no caso da autora Tove, o problema de toxicodependência.