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Cidade imaginária: A passagem

Certificou-se, da porta aberta silenciosamente, que ele dormitava no cadeirão.

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João B. Serra, docente da ESAD.CR do Instituto Politécnico de Leiria serra.jb@gmail.com

Certificou-se, da porta aberta silenciosamente, que ele dormitava no cadeirão. A luz do fim da tarde penetrava pela janela parcialmente velada. Era possível vislumbrar lá fora o contorno verde escuro de uma colina arborizada e, num plano mais próximo, os telhados e os últimos pisos de um quarteirão urbano.

Compôs a manta que lhe protegia as pernas e passou-lhe ao de leve a mão pela testa. Ouviu-o sussurrar, como se o sonho irrompesse a semiconsciência:

– Porque vieste, então, a esta cidade?

Ela continuou o périplo pelo quarto, repondo a ordem dos objetos retirados do seu lugar próprio.

– Para continuar o jogo! Respondeu ela, baixinho, levando o candeeiro de pé para junto da secretária.

– Donde vens? Perguntou ele, continuando de olhos cerrados e respiração de adormecido.

– Do norte, de onde as cidades têm a energia do granito. – E da indústria. Pegou nos jornais espalhados pelo chão e cadeiras e deitou-os no cesto dos papéis.

– Onde domina o granito, há rios poderosos – comentou ele.

– Vales profundos, margens arroteadas com sofrimento sem par. – E cidades que sonham pontes. Procurou no roupeiro sítio onde arrumar o casaco de malha abandonado nas costas da cadeira.

– Cidades que adoram ser cortejadas…

– Mas não seduzidas. Retorquiu ela.

– Pois, são cidades guerreiras… – Amas a tua cidade! Ele continuava sem dar sinais de ter acordado.

– A cidade onde crescemos acompanha-nos pela vida toda. Deitou-lhe água no copo e substituiu o guardanapo amarrotado.

– Que fazes por ela, a tua cidade?

– Imagens.

Ele abriu os olhos, finalmente, e encarou-a fascinado.

– Capturas a tua cidade?

– Não é isso, acho eu. A fotografia dá atenção às coisas pequenas de que se faz a cidade. Repara: a roupa que se estende à janela nos domingos de sol. É sempre diferente. Há ruas que percorro centenas de vezes e, de cada vez, descubro novos aspectos, novos ângulos.

– Parece que descobriste a passagem entre as pedras e o tempo. – Sozinha?

– Há um amigo meu que me acompanha às vezes. Sorriu, enquanto lhe ajeitava o colarinho da camisa branca. – Mas parece mais interessado em mim que na cidade.

– Na tua cidade, as mulheres sorriem?

– Cantam com os lábios, sim, mais do que com a voz.

– E tu, sorris sempre assim?

Olharam-se de frente. Ele reparou no belo vestido estampado de flores em amarelo, verde e azul, uma mão acima do joelho, nas sandálias de couro que realçavam a elegância do corpo. Ela rodopiou sobre si própria, mirando-o furtivamente, para avaliar o efeito que produzia.

– Só para quem espera de mim este sorriso.

(texto publicado na edição de 30 de abril de 2014)