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Elogio da cidade: Mobilidade

“País desenvolvido não é onde pobre tem carro, é onde o rico anda de transporte público!”.

João B. Serra, professor do Instituto Politécnico de Leiria serra.jb@gmail.com

A edição do dia 20 de Junho, da revista Veja, que se edita em São Paulo, chamava a título da capa “Os sete dias que mudaram o Brasil”, antecedido de uma impressiva chamada de atenção: “Edição histórica”. Nestes sete dias, um número que se estima superior a 1 milhão de brasileiros manifestou-se nas principais cidades brasileiras, em moldes até aqui inéditos. As manifestações aparentemente não tiveram enquadramento político nem sindical, foram convocadas através das redes sociais e outras formas de comunicação que recorrem à internet e ao telemóvel. Os manifestantes empunharam cartazes com reivindicações muito díspares, o que dificultou a leitura dos objetivos centrais do movimento. É possível, no entanto, detetar alvos comuns nos protestos: a deficiente cobertura e qualidade dos serviços públicos, a corrupção e a sua impunidade, os gastos excessivos com obras de reduzido alcance social, como as da Copa do Mundo, por cuja realização o Brasil terá a responsabilidade em 2014. Mas o rastilho que incendiou as ruas contra o poder político foi o aumento do preço das passagens de ónibus, ou seja de um dos mais utilizados meios de transporte de massas suburbano no Brasil.

O investimento na modernização das infraestruturas e equipamentos da rede de transportes, tem sido pouco significativo e os cidadãos que habitam na periferia do Rio, a maioria, gastam 4 a 6 horas na viagem casa-emprego, emprego-casa.

Será esse o destino inexorável das grandes cidades, das megapolis (a cidade do Rio tem cerca de 6,5 milhões de habitantes)? As grandes cidades europeias exibem com orgulho a sua evolução positiva nos últimas décadas: recuo do transporte baseado no automóvel familiar movido a gasóleo ou gasolina, diminuição do tempo médio de deslocação centro-periferia. Pelo contrário os indicadores das grandes cidades dos países sul-americanos, africanos e asiáticos mostram uma tendência inversa. O arquiteto Sérgio Magalhães, presidente do Instituto dos Arquitetos Brasileiros, apontava, no jornal Globo, o dedo à ausência de planeamento urbano. A falta de investimento continuado no transporte público explica o resto. Uma ativista das manifestações desta semana deixou-se fotografar com o seguinte cartaz: “País desenvolvido não é onde pobre tem carro, é onde o rico anda de transporte público!”

(texto publicado a 27 de junho de 2013)