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Margem esquerda: No tempo dos Capuleto

Naquele tempo, o governador governava e era pessoa influente. Amigo do seu amigo, ora distribuía benesses, ora protegia comandantes e diretoras de altos cargos públicos.

Adérito Araújo, professor universitário aderito.araujo@gmail.com

Naquele tempo, o governador governava e era pessoa influente. Amigo do seu amigo, ora distribuía benesses, ora protegia comandantes e diretoras de altos cargos públicos.

Para presidir a uma sagrada fundação, o governador não se esqueceu do seu primo doutor. Nas contas a sua mana, ele próprio na magna assembleia. Tudo em família, portanto. E como a família existe para se ajudar, a fundação do professor comprava tudo à farmácia do primo e de sua mana. Alguém os pode criticar? Eu não, certamente.

Fruto das influências, o governador teve de ir para a capital, deixando vaga a apetecida cadeira. E quem melhor que o primo doutor para o substituir? Este já lhe tinha feito tantos favores! Depois de saber que “aquilo” dava uns milhares por mês, não muitos, o professor lá aceitou, passando a ser, também ele, pessoa influente.

Como não percebia nada nem conhecia ninguém, o novel governador deu a mão a um astuto valete, mas cometeu o crime de não nomear a esposa de outro Capuleto, serôdio mas influente, muito amigo do seu primo, pessoa que muito considerava.

No pico do calor e no buraco da dívida, os Montéquio chegaram ao poder e a tragédia dos Capuleto começou. Rasgaram-se cartões, revelaram-se pressões inimagináveis, acusaram-se primos e primas. A cidade perdeu o governador mas ganhou uma novela shakespeariana. Esperemos pelos próximos capítulos.

(texto publicado na edição em papel de 13 de janeiro de 2012)