O conjunto de polémicas acerca de Reguengos, primeiro sobre o que se passou num lar, depois sobre a vida política e social local, passando pelo confronto entre o presidente da ARS de Évora e a Ordem dos Médicos, são um espelho de um certo Portugal, ainda paroquial, clientelar, onde a pequenez provinciana foi esventrada pelo turbilhão informativo e onde a caça ao escândalo foi mais excitante do que uma análise ponderada de factos, problemas e responsabilidades.

O que se passou no lar de Reguengos, por tudo aquilo que se tem conseguido apurar através das notícias vindas a público, é relativamente semelhante ao que se tem passado em inúmeras estruturas idênticas, seja pelo país fora, seja no estrangeiro; nenhum lar estava preparado para uma pandemia desta natureza, como nenhuma escola, nenhuma família, nenhum país.

Ao invés de se esperar por um relatório credível, assistiu-se a uma disputa jornalística pelos títulos mais chocantes com o apoio insensato da Ordem dos Médicos, transformando uma ocorrência de saúde pública numa chicana política, esquecendo os interesses dos utentes e das suas famílias e procurando apenas desacreditar os responsáveis do lar, os autarcas, o presidente da ARS e, claro, o Governo.

Não se duvida que muita coisa estaria mal na instituição, mas essa é a regra, quando todas estão subfinanciadas e servidas por quadros de colaboradores com pouca formação e salários mínimos. A área social, quase toda entregue ao chamado sector solidário, vive do Estado e dos baixos salários, logo as condições são as possíveis, raramente as desejáveis.

Quanto à teia de interesses agora vindos a público, são o espelho do país e se em Reguengos manda o PS, noutros concelhos mandam outros; a história é conhecida; infelizmente, é o país que temos e que os portugueses continuam a sustentar com o seu voto.

(Artigo publicado na edição de 27 de agosto de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)