De forma mais ou menos súbita, o mundo que conhecíamos ficou paralisado. Coisas a que atribuíamos importância foram-se esbatendo, para nos atermos apenas ao essencial. Estávamos habituados a ver cenas dramáticas nas periferias do nosso mundo desenvolvido, enquanto fruíamos a vida. Agora, é connosco.

Os nossos antepassados viveram situações de calamidade que perduraram na memória colectiva. Tinham consciência da precariedade da vida. Diferentes doenças faziam-se sentir de forma agressiva, acompanhadas pela fome. Durante séculos, a “peste negra” dizimou a Europa e gerou crises demográficas e de subsistência. As cidades fechavam-se em quarentena dentro das muralhas. Desencadeavam-se comportamentos de histeria colectiva, perante a ameaça cruel, cuja origem, modos de transmissão e de cura se desconheciam. A vida confrontava-se, prematuramente, com a morte. No rescaldo da 1ªG.M. surgiu a gripe pneumónica que vitimou cerca  de 70.000 portugueses.

Após a guerra total de 1939-1945, marcada pelo seu manancial de horrores, a economia e a sociedade de consumo prosperaram e deixámos de ser prudentes, estimulados por uma falsa ideia de felicidade que se mede pela capacidade de adquirir bens e pelo prolongamento da vida, graças aos progressos da ciência e da medicina, em tempo de paz.

Não é de estranhar que alguns governos, menos avisados, bem como demasiados cidadãos, tenham revelado incapacidade para antecipar o que aí vinha e medir as suas consequências.

A nossa situação actual tem pouco a ver com o ocorrido no passado. Num tempo curto, tomou-se conhecimento do genoma do vírus, dos seus meios de propagação e dos cuidados a ter. A médio prazo, vai surgir uma vacina e meios de tratamento eficazes. Sabemos como agir.  Não podemos perder a lucidez nem enveredar por comportamentos que ponham em causa deveres de cidadania e de solidariedade para com os outros, em particular, os mais vulneráveis.

E quando a pandemia se atenuar, temos de analisar o ocorrido e de enfrentar a grave recessão económica e os seus efeitos políticos que podem corroer a democracia. Agora, é preciso mobilizar todos os recursos, criar uma estratégia eficaz de combate ao vírus, adoptar um novo modo de estar, assegurar a coesão social e saber preservar a segurança individual e colectiva.

Escrito de acordo com a antiga ortografia

(Artigo publicado na edição de 26 de março de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)