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É sexta-feira foge comigo

É sexta-feira foge comigo: “Another one bites the dust”

J’ai faim! Merde, j’ai faim!

J’ai faim! Merde, j’ai faim!

Era com esta lembrança de um filme francês e com a barba de uma semana, que Elliot se debatia à uma da manhã numa noite de Inverno de segunda para terça. Estava frio, mas quanto a isso não havia problema. A técnica estava apurada, fruto de um casamento há muito afundado, mas que lhe deixou alguma sabedoria, como por exemplo ir ás bombas de gasolina a meio da noite para ir comprar à sua mulher grávida uma bocata de atum.

O truque era repetir um velho hábito de infância escolar, naquelas manhãs ainda de noite, sem tirar o pijama em tons de um triste cinza. Vestiu uma camisola larga por cima do pólo de algodão oferecido pela sogra, entalou com as meias a parte de baixo (subitamente delegadas à constrangedora posição de ceroulas) para quando vestisse as calças por cima, as ditas não subissem pelas pernas acima.

Enquanto se equipava, pensava nas últimas palavras da ex-mulher antes de sair de casa. “Não te vais safar!”, disse ela com um sorriso triunfal antes de bater de vez com a porta. Com efeito, a despensa de Elliot estava vazia, não porque passava necessidades, mas porque era desleixado.

Estava com uma fome idiota e já só tinha no frigorífico um naco de pêssego em calda, que misteriosamente ainda mantinha a sua tonalidade artificialmente laranja choque. Já na rua, o frio bateu-lhe como uma chapada daquelas de mão aberta e com balanço, o rádio teimava em memorizar uma estação religiosa, e por entre as lombas claramente acima dos limites da lei na zona escolar, fez duas rotundas, passou num viaduto bordado de luzes brancas a acompanhar o desenho, e chegou ao destino sem encontrar um único carro na rua.

O barulho do gerador da roulote devia chatear bastante as pessoas que moravam nos prédios em frente, mas numa atitude de “antes eles que eu”, lá fez o pedido “super-especial para embrulhar se faz favor”, comprou duas cervejas pelo triplo do preço do que num supermercado e foi para casa. Enquanto comia a bifana, não tão especial quanto isso, lembrava-se das palavras da ex-mulher: “Não te vais safar!” “Não te vais safar!”

Amaldiçoou-a duas vezes entre cada dentada.

texto: Pedro Miguel
locução: Cátia Ribeiro e Sílvia Barbeiro
música: Louro & Lima
actores: André Louro e Cátia Ribeiro
vídeo e montagem sonora: Cátia Ribeiro

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