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É sexta-feira foge comigo

É sexta-feira foge comigo: “O trabalho”

No fim de uma entre muitas, eternas e tristes manhãs, o telefone tocou e ele atendeu com uma voz a tentar disfarçar a sonolência (fora apurando a técnica com o passar dos anos). Não podia dar parte de fraco, tinha de soar enérgico e pronto para a batalha:

No fim de uma entre muitas, eternas e tristes manhãs, o telefone tocou e ele atendeu com uma voz a tentar disfarçar a sonolência (fora apurando a técnica com o passar dos anos). Não podia dar parte de fraco, tinha de soar enérgico e pronto para a batalha:

– Estou sim? – disse ele com uma voz talvez um pouco alta demais para a ocasião.
– Bom dia senhor… Desidério? É assim que se pronuncia, não é?
– É, mas se for mais fácil pode chamar-me Dédier, que até é o meu nome original.
– Estou a ligar – lhe por causa da sua entrevista de emprego… – Explicaram do outro lado.
– Ah, claro, diga diga! – Disse ele a tentar manter uma voz limpa e energética de quem está acordado há horas.
– Infelizmente não foi seleccionado – Comunicou a senhora apressadamente.
– Está bem, obrigado – Concluiu ele, desta vez com uma rouquidão sincera de quem já não precisa e está – se nas tintas para disfarçar o quer que seja.
– Talvez para a próxima – Arriscou a senhora com um riso nervoso e notoriamente desejosa por desligar o telefone para se ver livre daquela situação incómoda.

A maneira como sorriu e se voltou para dormir naquele quarto acastanhado, minúsculo, de umas águas furtadas, denunciava a sua angústia.
Numa outra ocasião, mais atrás, quando acabou o secundário, foi a uma entrevista e fingiu ser um tagarela. Para alguém que era muito calado, aquilo tinha sido digno de se ver. Para o engodo, inspirou – se na mãe descompensada de uma amiga da altura, e lá foi para o escritório do stand falar pelos cotovelos, na tentativa vã de ser vendedor de automóveis.

«Infelizmente não foi seleccionado», disseram mais tarde por carta.
Em casa sempre o incentivaram a não ser tímido, a falar mais com as pessoas, a ir dançar, como se isso resolvesse alguma coisa. Não resolvia nada, do mesmo modo que uma mãe não resolve o problema do filho fazer barulho. È que ela própria faz ainda mais barulho ao mandá-lo calar.

Ao vivo no bar Cinema Paraíso, Leiria, 07/10/2009
para o jornal: Região de Leiria
texto e som: Pedro Miguel
voz: Adolfo Luxúria Canibal (Mão Morta)
câmara: Hugo Ferreira
assistência técnica: Tiago Carvalho
Edição vídeo: Manuel Leiria