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Cultura

Exposição multissensorial de Tânia Bailão Lopes em Lisboa

A exposição multissensorial “Olha para mim”, com quadros de Tânia Bailão Lopes e produção do Instituto Politécnico de Leiria, estará patente no Edifício dos Serviços Sociais da Câmara de Lisboa.

Quem não vê vai poder ver, pela primeira vez em Lisboa, uma exposição onde as obras são descritas com música, poesia e… sabores. “Olha por Mim” estreia terça-feira e vai pintar, através de sons, a visão de cegos.

"Olha para mim" é o título da exposição

Esta exposição, a primeira multissensorial e inclusiva em Portugal, nasceu em 2009 no Instituto Politécnico de Leiria com quadros de Mirtilo Gomes, um dos heterónimos da pintora leiriense Tânia Bailão Lopes e já correu de norte a sul do país. Terça-feira chega a Lisboa com uma inovação: o “soundpainting”.

“É uma áudio descrição diferente da que normalmente se encontra em museus. É uma áudio descrição com alguma subjetividade: usamos música, poesia e efeitos sonoros numa técnica que chamamos soundpainting – pintura com o som”, explicou à agência Lusa a corresponsável pelo projeto, Josélia Neves.

Walter Marcos, responsável pelo arranjo sonoro, procurou sons específicos e para um quadro específico usou um tema original do antigo teclista do músico inglês Sting, Delmar Brown.

Na poesia, Josélia Neves usou comparações e metáforas como “cara de chocolate” para se referir a uma personagem negra e “cara de cereja” para descrever os contornos num outro quadro.

No entanto, “cada quadro não vive sozinho” nesta exposição e que “há uma história construída com os quadros” e as pessoas “são levadas a percorrer a vida através das palavras e vão complementando a visita auditiva com a visita tátil”, avançou a especialista em áudio descrição.

“Quem não consegue ver pode tocar numa réplica que ganhou relevo e na maioria dos outros quadros imagens relevadas, papel onde os contornos das figuras foram desenhados em relevo”, descreveu Josélia Neves.

O trabalho de soundpainting “nunca foi feito sozinho” e serviu sempre como um “tubo de ensaio” e de “testagem de soluções” com várias pessoas com deficiências visuais e auditivas que “iam dizendo ou não se funcionava”.

Josélia Neves negou que o soundpainting limitasse a perceção da arte por serem dadas tantas ideias: “Nestes dois anos em que a exposição tem decorrido, fizemos um levantamento das perceções que se vão criando e o que se tem notado é que mesmo condicionando a interpretação as pessoas continuam a fazer leituras diferentes das peças”, disse.

“As pessoas fazem sempre as suas próprias leituras, recriam o mundo”, rematou.

A exposição “Olha para mim” estreia dia 15 às 15:00 e vai estar patente, durante um mês, no Edifício dos Serviços Sociais da Câmara de Lisboa para “pessoas ditas normais, com cegueira, cegueira ligeira, surdez ou qualquer outra deficiência”.

Além do soundpainting, a exposição disponibiliza também áudio descrição normal para todos os quadros e em vídeo para surdos. Em papel são feitas descrições em Braille para quem quiser criar os seus próprios sons e cores para a exposição.