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Saúde

Há 38 mil utentes sem médico de família na região

“Vírus” da falta de médicos ataca e populações queixam-se da demora do “surto”. Há extensões fechadas e outras a meio gás, mas também há quem respire saúde

A quinta-feira de manhã tinha um significado especial na Memória, Leiria. Era dia de médico. Aliás, o único período em que a extensão de saúde abria portas. Mas desde outubro que a história é diferente: “Avisam-se os utentes que por falta de recursos humanos este centro de saúde vai encerrar temporariamente. A partir de outubro, os utentes vão passar a ser assistidos no centro de saúde de Colmeias”, lê-se num papel afixado na entrada.

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Em Memória, o Centro de Saúde está fechado desde outubro

“É preocupante”, manifesta Artur Santos, presidente da Junta de Freguesia de Colmeias e Memória. “Mais de 40% da população [de Memória] tem acima de 60 anos. Ter uma manhã de consultas é pouco e Colmeias não tem capacidade para receber todos os ficheiros”, explica, alegando ainda a distância e a falta de meios de transporte.

E as dificuldades em conseguir uma consulta médica continuam. No polo de Colmeias (Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados Flor do Liz) trabalham dois médicos, um dos quais em regime de pré-reforma, para 3.600 utentes. Com os habitantes de Memória (cerca de 700), o ficheiro sobe para os 4.300, bem longe do número de 1.500 utentes, regra geral, atribuído a cada médico.

A população, em conjunto com a autarquia local, lançou um abaixo-assinado, que conta já com cerca de um milhar de signatários, a reivindicar melhores condições de saúde e que pretende entregar, em breve, às entidades locais responsáveis.

A falta de médicos de família ou a dificuldade em marcar uma consulta não é caso único na Memória e Colmeias. Em Leiria, localidades como Bidoeira de Cima, Monte Redondo, Santa Catarina da Serra e Maceira são outros dos locais onde não há resposta para tanta procura.

38

Mil utentes não têm médico de família:
19 mil em Leiria,
9 mil na Marinha Grande,
6 mil em Pombal
e 4 mil em Porto de Mós

 

Monte Real, por exemplo, vive uma situação semelhante a Memória: um médico duas vezes por semana e um dia encerrado por falta de pessoal administrativo.

Faltam 25 médicos para suprir todas as necessidades do Agrupamento de Centros de Saúde Pinhal Litoral (ACES PL), informa a Administração Regional de Saúde do Centro ao REGIÃO DE LEIRIA.

“Estamos a viver um período complicado com a falta de profissionais. E os que estão ao serviço dão o seu melhor”, explica Ana Barros, da delegação de Leiria da Ordem dos Médicos. Acredita que é uma “situação que tem tendência a ser normalizada”, à medida que novos clínicos são formados, e que a contratação de profissionais da América do Sul é “uma péssima solução”. São “pessoas desligadas do contexto e inserção social”, argumenta.

O caminho, segundo a responsável, passa pela reforma do sistema de saúde em curso, com a reorganização de serviços em novas unidades (Unidade de Saúde Familiar [USF] e Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados [UCSP]).

O cenário com os enfermeiros não está melhor. “São precisos, pelo menos, mais duas dezenas de enfermeiros e essa necessidade não está a ser cumprida”, admite Isabel Oliveira, responsável pela delegação do Centro da Ordem dos Enfermeiros. Há seis meses, a OE efetuou uma visita de acompanhamento ao Centro de Saúde Dr. Arnaldo Sampaio, em Leiria, e ficou “preocupada”. “Algumas extensões não têm as condições mínimas para funcionar. Das 11 que existem no Centro de Saúde, quatro não tinham enfermeiro por falta de recursos humanos. É preocupante. Há 38 mil pessoas que não têm acesso aos cuidados de enfermagem”, adianta Isabel Oliveira, que aguarda uma resposta das entidades oficiais sobre a questão.

141

médicos e 151 enfermeiros estão colocados no ACES PL.
Em 2013 foi aberto concurso para 10 vagas mas apenas quatro foram preenchidas.
Em setembro foram colocados quatro médicos cubanos
e. até ao final do ano, estão previstas seis aposentações.

 

A UCSP Flor do Liz, por exemplo, foi criada há cerca de cinco meses nos Milagres, e abrange as extensões de Bidoeira, Colmeias, Memória, Regueira de Pontes, Souto da Carpalhosa e Ortigosa. Além do horário de funcionamento das 9 às 17 horas, com consultas médicas e enfermagem, o serviço estende-se até às 20 horas, de segunda a sexta-feira, em consulta aberta, possibilitando a quem necessita de médico ter uma resposta pronta. “É uma mais-valia e as pessoas estão satisfeitas. Toda a gente tem médico e não há grandes queixas”, confirma Mário Gomes, presidente da junta de Milagres.

Marina Guerra (texto)
marina.guerra@regiaodeleiria.pt
Joaquim Dâmaso (foto)
joaquim.damaso@regiaodeleiria.pt

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