“Começaram a fechar as fronteiras em Portugal e eu depois tive medo que não conseguisse regressar”. O relato da estudante Bruna Carreira, não difere muito de outros emigrantes que assistem ao tsunami da Covid-19 inundar o mundo.

A viver em Londres há três anos, com o intuito de tirar o curso de engenharia informática, a portuguesa de 20 anos resolveu fazer o caminho de volta à terra, a freguesia da Bidoeira de Cima, para passar a fase crítica do vírus com a família.

O comportamento de quem uma vez escolheu viver fora de Portugal, todavia, requer cuidados e tem posto em alerta as autoridades.

Em Pombal, concelho com o maior registo de casos positivos para o novo coronavírus – 28 até a data de fecho da edição de 2 de abril –, foi confirmado que uma das infetadas havia regressado da Holanda.

“Os nossos emigrantes são muito importantes para a nossa comunidade”, reconhece o presidente da Junta de Freguesia. “No entanto, este não é o momento para voltarem para casa”, enfatiza Pedro Pimpão. Até terça-feira, dia 31, o concelho tinha 167 pessoas em estado de vigilância.

Cuidados

No caso de Bruna Carreira, as medidas de isolamento e proteção partiram da mãe, que é enfermeira. Desde a ida ao aeroporto, quando levou máscara, luvas e cobriu os bancos e o porta-malas com mantas para evitar
contacto direto da filha, Virgínia Moreira tem seguido à risca as recomendações de higiene.

“Nós criámos um circuito de limpos e sujos e temos uma janela para o exterior que é por onde eu lhe dou a comida”, relata, ao mencionar o espaço na parte baixa da casa, que tem servido como um T1 exclusivo para Bruna.

A profissional de saúde reconhece, porém, que boa parte dos emigrantes que têm regressado do estrangeiro, não adota as mesmas medidas. “Eu conheço muitas outras pessoas na situação da Bruna que não tinham conhecimento do e-mail que tinham de enviar para o Ministério da Saúde”, cita como exemplo. Foi através desse canal que Bruna foi contactada e acompanhada por um centro de saúde de Leiria.

No caso de Horácio Padeiro, 42 anos, o acompanhamento das autoridades veio através da Segurança Social, visto que a empresa em que trabalhava em França, tinha também sede em Portugal. Foi o delegado de saúde de Lei
ria que o informou sobre o isolamento profilático a ser seguido por 14 dias.

Em cada um deles, o emigrante era contactado por telefone. “Eles fazem todos os dias o mesmo questionário: se temos sintomas, quais e também temos que dar a temperatura do corpo”.

Habituado a viver no estrangeiro há 10 anos, Horácio viveu as primeiras duas semanas de regresso também à distância da mulher e dos filhos. “Eu fiquei isolado de todos”, conta sobre a reclusão no rés de chão da casa, também na Bidoeira de Cima.

O representante da freguesia, Jorge Crespo, sublinha que agora não é mais a altura de voltar. “Por favor, fiquem em casa, protejam a vossa saúde e a saúde dos vossos familiares”, pede, em concordância com os comunicados que têm sido publicados nas páginas das autarquias do distrito.

E completa: “Se for mesmo necessário o regresso, peço que contactem a Junta de Freguesia para que seja articulado com a USP Pinhal Litoral a monitorização do período obrigatório de quarentena”.

(Artigo publicado na edição de 2 de abril de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)