Andam de bicicleta, fazem tarefas domésticas e têm saudades da instituição, dos amigos e dos formadores. O testemunho é de jovens do Cinform (Centro de Integração e Formação Socioprofissional) da Cercilei, em Leiria, numa altura em que a pandemia também os levou a estar confinados nas suas habitações.

Também eles estão preocupados com o amanhã, numa altura em que a incerteza bate à porta de muitos portugueses.

A poucos dias da reabertura em segurança de centros de atividades para pessoas com deficiência, prevista para 18 de maio, à semelhança do que acontecerá com as creches, a Cercilei partilhou com o REGIÃO DE LEIRIA algumas das experiências dos jovens e o método utilizado pelos técnicos do Cinform para articular o contacto com os formandos, “saber como se encontram a nível emocional, familiar, económico, avaliar as suas necessidades e encontrar a melhor resposta possível”.

Para João, um dos formandos da Cooperativa de Ensino e Reabilitação de Crianças Inadaptadas de Leiria, o período de isolamento trouxe a vantagem de “passar muito tempo com a família e de saber que está tudo bem”, mas a desvantagem de ter que manter “a distância social entre eles”.

Preocupado “em não arranjar trabalho em lado nenhum” no futuro, o jovem formando confessa sentir “falta de ir trabalhar novamente”.

Já Inês admite que “as primeiras duas semanas até que passaram bem… depois foi complicado… a falta dos amigos, do trabalho, do convívio”.

“Sinto falta dos meus amigos, principalmente dos formandos e dos formadores do Cinform. Mudaram a minha vida! Quando me mandaram para casa fiquei em choque…”, reconhece, preocupada em “não conseguir concretizar” os seus sonhos. “O pensar assim pode levar-me a desistir e a não ter objetivos”, acrescenta.

Família e instituição são porto seguro

“A fasquia das ambições dá lugar aos mais fortes e acentua as diferenças, fragilidades e angústias. A família e a Instituição acabam por funcionar como um porto seguro para as suas emoções”, afirma Susana Silva, diretora de serviços do Cinform.

“A pandemia provocada pela Covid-19 levou todos ao isolamento social, a viver o afastamento, a sentir fragilidades e a valorizar sentimentos e emoções, a cimentar valores, a mudar regras de conduta, a encontrar alternativas de comunicação e trabalho, no fundo, a aprender a viver outra forma de vida”, explica Susana Silva, diretora de serviços do Cinform.

Durante este período de isolamento social – que “não é estranho para muitos dos jovens que frequentam as diversas valências da Cercilei” e onde a “resiliência é quase uma capacidade obrigatoriamente adquirida”, indica a informação enviada ao REGIÃO DE LEIRIA – a cooperativa aproveitou as redes sociais para propor atividades e lançar desafios aos formandos.

Entregou fichas e trabalhos na casa dos jovens sem acesso às plataformas digitais e ainda encaminhou situações identificadas, por exemplo, para apoio à alimentação, na Rede Solidária do município, ou para serviços de acompanhamento social.

Alguns formandos receberam material de trabalho em casa. Foto: Cercilei

Sem conseguir ver o filho o número de vezes que gostaria, devido às medidas de distanciamento social, Andreia ocupa os seus dias em tarefas de casa ou pequenos passeios.

“Das poucas vezes que vou à rua é para ir comprar alguma coisa ou dar só uma voltinha para apanhar um pouco de ar puro”, conta. Sente-se triste “por um lado, com medo de ficar doente ou de alguém de quem goste ficar. Por outro, triste e com medo de não voltar a ter” a sua ‘liberdade’.

As horas que está no Cinform, refere, fazem-na “sentir útil e capaz”, gosta de “rir com as pessoas que estão lá, de estar sempre a ouvir o formador a dizer faz isto faz aquilo”. “Não lhe diga mas tenho muitas saudades dele”, acrescenta Andreia.

Nas respostas ao inquérito promovido pelo Cinform, Ricardo elogia o trabalho que a instituição está a fazer, de forma virtual, com os formandos.

“Muito irritado” por não ter acabado a formação, por apenas 15 dias, tem ajudado os pais e os avós e diz estar preocupado com o período que a sociedade vive.

“Ninguém se cumprimenta por uma questão de segurança e, daqui a algum tempo, uma pessoa vai para cumprimentar outra e isso pode ser visto como uma ofensa e ameaça, e não com uma saudação”, salienta.