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Fátima: “O caos sanitário que vivemos transformará para sempre as nossas vidas”

“Nenhum de nós pode dormir descansado se sabe que à sua beira existe uma família que passa fome”, disse bispo

O bispo auxiliar de Lisboa, Américo Aguiar, disse esta sexta-feira, dia 12, em Fátima que o “caos sanitário” vivido recentemente devido à pandemia de covid-19 transformará para sempre a vida das pessoas.

“Diante do homem moderno que pensava que o controlo da Natureza era só uma questão de tempo, o caos sanitário que vivemos recentemente transformará para sempre as nossas vidas”, afirmou Américo Aguiar, na celebração da palavra que marcou o arranque da Peregrinação Internacional Aniversária, que termina este sábado no Santuário de Fátima.

Na sua intervenção, perante um recinto com algumas centenas de devotos – naquela que é a primeira peregrinação com a presença de peregrinos desde o início da situação causada pelo novo coronavírus -, o bispo auxiliar de Lisboa assinalou que a pandemia remete para as identidades genética, social e eclesial.

“A pandemia recordou-nos a nossa identidade genética: somos frágeis e mortais. A pandemia confirmou a nossa identidade social: já não pertencemos à nossa pequena comunidade local, mas somos membros de uma comunidade mundial interligada entre si. A pandemia potenciou até uma renovada identidade eclesial, uma Igreja mais doméstica, mais laical e capaz do digital”, argumentou Américo Aguiar, que preside à Peregrinação Internacional Aniversária.

A pandemia, “mais do que nunca, exige-nos a nossa identidade cristã. Não podemos abandonar o nosso próximo”, continuou o bispo, defendendo que os cidadãos estejam “juntos no combate” à doença e transformem “a sua inevitabilidade numa oportunidade”.

“Que cada pessoa seja mais humana e os cristãos mais autênticos. Nenhum de nós, crente ou não crente, pode dormir descansado se sabe que à sua beira existe uma família que passa fome. Os pobres não podem esperar”, avisou.

Numa alocução em que alegou que “o maior poder que a Igreja tem chama-se caridade”, Américo Aguiar considerou que o alimento “é expressão mais básica” da cultura humana, sendo comprado pelo trabalho, preparado para dar forças e “consumido na partilha da mesa”.

“A falta de alimento significa, quase sempre, falta de emprego e as consequências estão à vista de todos. Mais do que nunca, este é um ‘tempo de misericórdia’, como nos recorda a temática anual do Santuário de Fátima”, referiu o bispo auxiliar de Lisboa.

No início da sua intervenção, Américo Aguiar agradeceu a “coragem e força” dos fiéis que se deslocaram numa “noite fresquinha” ao Santuário de Fátima, num processo de desconfinamento face à pandemia de covid-19, que definiu como “descongelamento” que deve ser realizado “devagarinho”.

“Quando pomos coisas a congelar, convém descongelar devagarinho para as coisas não perderem o sabor”, ilustrou o bispo.

Na celebração, a quase totalidade dos peregrinos presentes no recinto envergava máscara facial, as distâncias de segurança aconselhadas pelas autoridades de saúde terão sido cumpridas pelos crentes – com as pessoas, por vezes, em pequenos grupos, aparentemente de uma mesma família – e a própria Capelinha das Aparições tinha lotação reduzida nos lugares sentados: dos cerca de 300 habituais estavam disponíveis menos de um terço, apenas 92, disse à Lusa fonte do Santuário de Fátima.

Antes da saída da Procissão das Velas, o padre Jorge Batista pediu aos peregrinos para manterem as distâncias de segurança, “seja durante a celebração, seja durante a procissão”.

“Não tenhamos receio que ela se torne longa”, advertiu.

Este sábado, as cerimónias começaram pelas 09h00, com o rosário na Capelinha das Aparições e a missa internacional decorre a partir das 10h00, no Recinto de Oração, com a tradicional Bênção dos Doentes e a Procissão do Adeus.