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Florestas: Travar rastilho de pólvora deixado pela Kristin é uma corrida contra o tempo

Aproxima-se um verão “muito duro”. Kristin deixou as matas transformadas num pasto fértil para o fogo e as autarquias estão sem recursos para limpar os caminhos. Pedem-se medidas excecionais.

Nos municípios afetados pela tempestade, o material lenhoso acumulado é um “barril de pólvora” FOTO: Joaquim Dâmaso

“Venham e tragam a motosserra”. Foi este o aviso que deixou o cidadão que, no dia 16 de março, alertou a Proteção Civil para um incêndio florestal em Chãs, no concelho de Leiria.

A área florestal da região, no seguimento do “comboio de tempestades”, ficou praticamente toda derrubada e são ainda muitos os caminhos que estão obstruídos, nalguns casos mesmo intransitáveis, o que preocupa as autoridades, especialmente com o aproximar do período de temperaturas mais elevadas.

Daí que as baterias estejam, neste momento, apontadas para a limpeza dos caminhos florestais e, numa segunda fase, para a retirada do material lenhoso, de forma a diminuir o perigo e risco de incêndio. Proteção Civil, GNR, bombeiros, equipas municipais, Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas e até forças militares estão no terreno a tentar minimizar o que consideram “o perigo número um” deste verão.

“O nosso grande esforço está em limpar o máximo possível os caminhos que nos permitam entrar dentro da floresta, em caso de necessidade. Nesse sentido, montámos um posto de comando, nos Sapadores de Leiria, para toda a região afetada, e estamos a perceber em conjunto com os municípios e as forças no terreno como é que estamos a avançar”, refere Carlos Guerra, comandante sub-regional de Emergência e Proteção Civil de Leiria.

Vivemos um “novo normal”, resultante da tempestade Kristin. “Tínhamos uma floresta, predominantemente, vertical, em que, a partir do solo, todo o nosso espaço superior estava coberto por copas de árvores. Neste momento, todo o nosso território está coberto de árvores que caíram, e temos apenas continuidade horizontal composta por árvores secas, o que torna muito rápida a sua combustão e há sempre continuidade. Deixámos de ter parcelas de terreno que não tinham nada e hoje estão cobertas de ramos, folhas. Este é o nosso grande problema”, explica.

E é possível realizar a limpeza antes do verão? “Temos a consciência plena de que não vamos conseguir desimpedir todos os caminhos, mas vamos fazê-lo, pelo menos, naqueles que dão acesso ao que chamamos de interface urbano-florestal, aquela parcela de terreno que faz proteção às aldeias e casas, e que permite aos veículos de combate a incêndios entrar dentro da floresta”, afirma.

Nesta árdua tarefa, garante, não há datas nem tempo a perder e, enquanto a operacionalidade o permitir, o trabalho de limpeza será realizado. “Se não conseguirmos um ataque inicial musculado, vamos ter problemas”.

Proteção civil é de todos

O ministro Luís Neves também não poupa nas palavras para falar sobre o verão que se aproxima: “Vai ser muito duro”. E apela à população para que “também faça a sua parte”, limpe os seus terrenos e proteja as habitações. Quanto ao Estado, está a tentar “minimizar os estragos no mais curto espaço de tempo possível”.

“A proteção civil é de todos, cada cidadão tem a obrigação de cumprir com a sua parte. Quando não intervir, o Estado intervém”, realçou o ministro da Administração Interna à margem da cerimónia de comemoração dos 19 anos da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, que aconteceu no dia 1, em Pombal.

O período de limpeza de terrenos privados foi alargado até 30 de junho e mais de seis mil cidadãos na região já manifestaram intenção de retirar o material lenhoso. No entanto, reconhece Carlos Guerra, a tarefa é difícil, uma vez que o mercado não consegue dar resposta. “Se estivermos a falar no mundo rural, que está envelhecido e um pouco debilitado, nem pessoas para ajudar existem. Quanto mais caminhamos para o interior, pior será a situação”, diz, satisfeito ainda assim pela “tentativa clara” dos proprietários em contribuir para um propósito que é coletivo.

“Estamos perante uma situação de anormalidade, que exige medidas de exceção. A primeira que se impõe é que cada pessoa deste território esteja consciente da sua responsabilidade perante o mundo rural e perceba que há comportamentos de risco que têm de ser evitados. Agora, diria, são potencialmente proibidos. Não podemos ter problemas com queimas, queimadas ou desleixos de churrascos”, exemplifica.

“Depois, se for proprietário florestal ou tiver responsabilidades no mundo rural, tenho de fazer o que humanamente me for possível para retirar o material lenhoso, desimpedir os caminhos, limpar à volta da minha casa. É uma responsabilidade que é minha e se já fazia diferença nos anos anteriores, este ano faz toda a diferença”, conclui.

Forças Armadas ajudam

Em Figueiró dos Vinhos, a autarquia voltou apelar às Forças Armadas para desobstruir os caminhos florestais. “Com os nossos recursos não conseguíamos, então pedimos ajuda ao ministro da Defesa, no seguimento do apoio que já tinha sido dado durante a tempestade”, contou o presidente da Câmara, Carlos Lopes.

O Exército e a Força Aérea começaram os trabalhos de limpeza na passada segunda-feira, mobilizando quatro destacamentos de engenharia. Durante os próximos meses, máquinas de rasto e niveladoras vão percorrer os mais de 400 km de rede viária florestal, afetada pela tempestade Kristin.

Carlos Lopes prevê que a totalidade dos caminhos fique desobstruída até fim de maio, permitindo aos operacionais combater aos incêndios. No terreno estão também a trabalhar diariamente elementos da autarquia e sapadores florestais.

CS/MG/MR

A produção deste artigo é apoiada por uma bolsa do projeto Climate Frontline, liderado pelo EJC, em parceria com a REVOLVE


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