O município de Castanheira de Pera prevê lançar no último trimestre a primeira edição do Prémio Literário Kalidás Barreto, para incentivar a produção literária e homenagear o deputado da Constituinte e cofundador da CGTP falecido em 2020.
À agência Lusa, o presidente da Câmara, António Henriques, disse esta semana que o prémio é “uma forma de homenagear alguém que teve um percurso com relevância no concelho” e teve “um papel fundamental naquilo que é a monografia do concelho”.
“Era um homem de memórias e que deixa uma parte muito importante de Castanheira de Pera escrita”, afirmou António Henriques.
O prémio vai ser apresentado por ocasião da Feira do Livro do concelho, no final de julho e início de agosto, devendo o lançamento da primeira edição ocorrer nos últimos meses do ano.
Segundo o regulamento do Prémio Literário Kalidás Barreto, em consulta pública, a iniciativa visa incentivar e valorizar a produção literária, a divulgação da cultura deste território, e “homenagear e perpetuar a memória duma figura de relevo para a história” deste concelho do distrito de Leiria.
O prémio pretende ser “o tributo da terra adotiva a um homem de vasta cultura, no reconhecimento de que, por detrás do sindicalista e do deputado constituinte, Kalidás Barreto foi, perenemente, um homem das letras e um pensador da liberdade”, refere.
Destinado a distinguir “uma obra inédita e com conteúdo original, escrita em português”, o prémio tem periodicidade bienal e as modalidades poética, ficção narrativa/romance/infantojuvenil e historiografia local.
Podem concorrer autores de língua portuguesa que residam em Portugal ou tenham autorização de residência no país há mais de dois anos.
Já as obras a concurso, entre outros requisitos, devem ser inéditas e redigidas em língua portuguesa.
Entre os critérios a valorar pelo júri está a “qualidade da escrita e estilo”, enredo e narrativa, personagens, temática e relevância, e temática diretamente relacionada com Castanheira de Pera, no norte do distrito de Leiria.
O prémio tem o valor de 10 mil euros, com a Câmara a garantir a primeira edição da obra até 100 exemplares.
Filho do intelectual republicano de origem goesa Adeodato Barreto, Kalidás Barreto nasceu em Montemor-o-Novo (distrito de Évora), em 16 de outubro de 1932, mas muito jovem radicou-se com a família na Castanheira de Pera, onde trabalhou como contabilista em diversas fábricas têxteis.
Participou em iniciativas de oposição à ditadura de António Salazar e Marcelo Caetano, designadamente como membro da comissão de apoio à candidatura do general Humberto Delgado à Presidência da República, em 1958, e como organizador da Oposição Democrática em Castanheira de Pera, nas eleições de 1969.
Em 1975, na sequência da Revolução do 25 de Abril de 1974, foi eleito deputado à Assembleia Constituinte, nas listas do PS.
No âmbito das comemorações do 30.º aniversário do 25 de Abril, em 2004, foi agraciado pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio, com o grau de grande-oficial da Ordem da Liberdade.
Após ter participado ativamente na criação da Intersindical Nacional, mais tarde Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP), em 1970, Kalidás Barreto liderou o Sindicato dos Têxteis do Centro, foi dirigente nacional da CGTP e conselheiro técnico de missões portuguesas à Organização Internacional do Trabalho.
Colaborou na imprensa regional, foi provedor do associado do Instituto Nacional para o Aproveitamento dos Tempos Livres (Inatel) e tem vários livros publicados, incluindo a “Monografia do Concelho de Castanheira de Pera”, que a Câmara considera “a obra-prima da historiografia local”.
Kalidás Barreto morreu aos 88 anos, em 30 de outubro de 2020, em Castanheira de Pera.