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Nem tudo é o que parece ou “O dia em que se soltou o grito”

Este sábado, dia 23 de maio, o Leirena estreia uma nova peça na sua sede, nos Marrazes. Um projeto que envolveu jovens institucionalizados, que encontraram no teatro um espaço de liberdade e afirmação.

Momento de um dos ensaios da nova peça "O dia em que o grito se soltou" FOTO: Melanie Parreira/Leirena

Ana Carolina tem 17 anos e não tem dúvidas: quer ser atriz, de preferência no estrangeiro. Mariana Oliveira, 19 anos, está na dúvida entre a carreira na área da Saúde e do teatro. Com outros 12 jovens, elas preparam desde novembro de 2025 um dos projetos de intervenção social do Leirena Teatro. “Atrás do grito” junta jovens de instituições sociais de Leiria (Lar Santa Isabel e colégio D. Dinis) e Caldas da Rainha (Lar da Santa Casa da Misericórdia das Caldas da Rainha), dando-lhes uma experiência, desvendando – quem sabe – uma vocação.

Ao longo de sete meses, o grupo desenvolveu, com outras dezenas de jovens, trabalho na área do teatro, luz e som, música, cenografia e adereços e produção e comunicação, neste projeto do Leirena chamado “Atrás do grito”, apoiado por fundos europeus através do programa Centro 2023,na iniciativa “Inclusão pela Cultura”.

O resultado é “O dia em que se soltou o grito”, peça criada a partir de “No dia em que a C+S fechou”, de Marcantonio Del-Carlo, com direção de Frédéric Pires e encenação de Diana Cunha.

Segunda-feira, num ensaio antes da estreia, Ana Carolina assumiu que queria por “mãos na massa” e criar uma peça de raiz. Mas veio a tempestade e trocou-lhes as voltas. “Não foi possível. Tivemos de arranjar uma peça já feita”. Mas a atriz, com experiência escolar e no próprio Leirena, acredita que será um sucesso. “Sem revelar muito, passa-se numa escola, na sala de direção; os alunos portaram-se mal e cada um tem um segredo… Se calhar vai de mal a pior… ou então não! Quem vir a peça tem de decidir”.

Há temas delicados em causa, nota Mariana Oliveira. Mas, “nem tudo é o que parece”. “As pessoas podem estar em maus momentos da sua vida e deixar imagens daquilo que não são. Não se deve julgar uma pessoa por aquilo que ela aparenta ser”, nota, ela que estuda na ESSLei, mas está rendida à sensação que o palco dá. “A Saúde ocupa mais o meu tempo, mas o teatro é mais libertador”.

Já a encenadora Diana Cunha mostra-se surpreendida com a resposta dos participantes:

“Nunca trabalhei com este tipo de jovens, que estão nesta situação [de institucionalização], mas é bastante gratificante e impressionante o que eles conseguem. A maior parte nunca fez teatro e, de repente, entram aqui, num espaço vazio, e a sua personalidade revela-se”.

Diana Cunha acredita que “Atrás do grito” pode deixar sementes na vida dos envolvidos. Afinal, “aprenderam muito sobre comunicação, escrita, dicção e a estar em cena” e encontraram na experiência teatral “um espaço de liberdade e de não-julgamento”. 

“Muitos já me vieram dizer que gostam de teatro e estão a pensar seguir teatro. Para mim é muito gratificante, poderem aqui descobrir uma vocação”, assumiu.

E o que esperar de “O dia em que se soltou o grito”? Mariana gostava que o público saísse com “sorrisos e gosto de ir a peças de teatro”. Ana Carolina acredita que a peça vai ser inesperada. “Quem for, pode esperar surpresa, risos e carinho, porque há momentos de ternura”.

Já a encenadora lembra que durante o processo “houve muitas interrupções e dificuldades”, mas confir anos seus atores. “Acima de tudo, isto é para eles se divertirem, aprenderem o que é o teatro. E, se quiserem, levar alguma coisa para as suas vidas”, concluiu.

E isso não é pouco.

“O dia em que se soltou o grito” é apresentado na sede do Leirena, nos Marrazes, no sábado, dia 23 de maio (21h30, com tradução em Língua Gestual Portuguesa), e no domingo, dia 24 (16 horas).

O elenco e a encenadora da peça “O dia em que se soltou o grito”