“Podemos perder tudo o que temos em pouco tempo: escola, casa, luz e água. Ainda hoje não tenho televisão.” A frase é de um jovem entre os 10 e os 12 anos, residente em Leiria. Como muitos milhares de outros jovens, viveu com intensidade a tempestade Kristin, a 28 de janeiro.
Este testemunho surgiu no âmbito de um inquérito que o REGIÃO DE LEIRIA lançou junto de várias escolas de Marinha Grande, Leiria e Pombal, concelhos particularmente afetados pela tempestade. Que impactos trouxe esta experiência? Como a encaram os jovens? E que ligações estabelecem entre o fenómeno extremo que virou a região do avesso e as alterações climáticas?
As 580 respostas obtidas deixam pistas reveladoras: a tempestade deixou marcas significativas entre os jovens inquiridos. Cerca de 70% afirmam ter sentido algum ou muito impacto direto da tempestade, enquanto 64% dizem ter ficado mais preocupados com as alterações climáticas após o episódio. A grande maioria dos participantes (75%) considera que fenómenos meteorológicos extremos como esta tempestade estão relacionados com as alterações climáticas, e quase três quartos (73%) acreditam que a sua geração será mais afetada pelos seus impactos. Entre as consequências mais referidas surgem os danos materiais, as interrupções no quotidiano e o medo ou preocupação, evidenciando que a experiência vivida contribuiu para tornar mais concreta a perceção dos riscos associados às alterações climáticas.
Há, portanto, preocupação, ansiedade e relatos de que o fenómeno meteorológico extremo provocou medo. Mas há também aprendizagens para o futuro. “Aprendi que devemos apoiar-nos uns aos outros, que devemos ter mais empatia, mais cuidado com a forma como deixamos as coisas, e aprendi que devemos dar muito valor às nossas coisas e às pessoas próximas de nós”, refere um outro jovem de Leiria, aluno do ensino secundário, no intervalo etário dos 16 aos 18 anos.
As respostas obtidas são anónimas — é impossível sequer identificar a escola de onde é proveniente cada aluno, havendo apenas referência ao concelho de residência, ao grau de ensino e à idade, distribuída por intervalos etários. As identidades individuais são irrelevantes neste contexto. Mas as tendências são centrais.






É assim que sobressai, nas respostas ao nosso jornal, um padrão de empatia. E há muitas outras lições a retirar desta experiência.
Ambiente e humanidade são lições da Kristin
Entre os jovens, a preocupação não é apenas ambiental — é humana. São vários os alunos que se referem ao sofrimento de quem perdeu bens, casas ou condições de vida. “O que mais me preocupa é ver pessoas que perdem as suas casas, os seus bens, que ficam desamparadas sem nada”, aponta um aluno do ensino básico de Marinha Grande. A sua preocupação não fica por aí: “preocupa-me também o quanto o clima está a mudar e o quanto pode ser prejudicial para nós e para os nossos ecossistemas”, reforça, dizendo-se igualmente preocupado com as “pessoas que moram na rua e nem sequer têm um teto para se abrigar”.
Este sentimento é partilhado por vários outros estudantes, que confessam que a tempestade os fez pensar “nas pessoas mais prejudicadas, que têm as vidas arruinadas” — escreve um aluno de Leiria, do ensino secundário, entre os 13 e os 15 anos — ou ainda, nas palavras de um colega de Marinha Grande: “pôs-me no lugar das pessoas que não têm mesmo nada.”
Várias respostas deixam ainda a certeza de que esta tempestade, pela sua violência no dia 28 de janeiro, tornou evidente que as alterações climáticas têm impacto na vida concreta. Eis um exemplo, de um aluno do ensino básico de Marinha Grande: “Alterações climáticas não são apenas buracos na camada do ozono e aumento da temperatura — alterações climáticas são tempestades e chuvas fortes. Tempestades que destroem a tua casa, mudam a tua vida, e chuvas fortes que acabam com o que sobrou e te afogam nas suas cheias.” A tempestade tornou o problema concreto. Palpável.
Nesta geração que cresce ligada e rodeada de tecnologia e de redes aparentemente omnipresentes, a vulnerabilidade desses sistemas foi uma surpresa — e trouxe consigo descobertas interessantes. “Não precisamos de estar sempre no telemóvel”, escreve um aluno de Leiria. É que, afinal, “a sociedade tem uma dependência enorme da internet e da eletricidade”, constata um colega. “Podemos ser felizes sem os telemóveis. Durante a tempestade, muitas pessoas saíram de casa e aproveitaram o tempo com os amigos”, reforça um outro. Este tipo de constatação é frequente nas respostas, mas não falta também quem considere penosa a privação da tecnologia: viver sem internet foi “horrível”, confessou um aluno adulto de Leiria.
Viver sem internet: da aprendizagem ao “horrível”
Um tema que surge com surpreendente frequência é a dependência da eletricidade, das comunicações e da tecnologia. “Aprendi a desenrascar-me sem luz, sem televisão e sem telemóvel”, aponta um jovem da cidade de Leiria. Foi, portanto, necessário aprender “a viver sem certas tecnologias, arranjando hobbies diferentes”, resume um estudante de Pombal.
Uma das conclusões deste inquérito é que a grande maioria dos jovens associa diretamente o evento às alterações climáticas: “Aprendi que devemos proteger mais o planeta para este tipo de casos não acontecer com tanta frequência”, explica um aluno de Marinha Grande. Este tipo de eventos “vai ocorrer mais vezes, cada vez mais recorrente”, reforça outro colega, também de Marinha Grande.
Há quem viva de perto uma mudança mais radical — e acabe por dela dar eco. É o caso do Pinhal de Leiria, espaço florestal que, depois dos violentos fogos de 2017, foi agora decepado pelo vento extremo. Um aluno de Marinha Grande, do ensino básico, escreveu a sua resposta em inglês para descrever essa preocupação: “a maior preocupação climática em Marinha Grande é a perda permanente do Pinhal de Leiria. A combinação única de temperaturas em subida, secas prolongadas e tempestades violentas cria um ciclo contínuo de destruição que não dá tempo ao pinhal histórico para recuperar. Os grandes incêndios do passado já tinham marcado a paisagem, e fenómenos extremos recentes, como a tempestade Kristin, destruíram as árvores adultas que restavam, transformando a região num barril de pólvora para incêndios.” O mesmo aluno resumiu ainda, também em inglês, a sua principal aprendizagem com o episódio: “a tempestade Kristin provou que as alterações climáticas podem destruir décadas de crescimento florestal num único dia, transformando as florestas sobreviventes em focos imediatos de risco de incêndio.”
Um olhar mais aprofundado sobre os dados revela que a experiência pessoal da tempestade parece fazer a diferença. Entre os jovens que afirmam não ter sentido qualquer impacto, apenas uma minoria (21%) diz ter ficado mais preocupada com as alterações climáticas. Pelo contrário, entre os que sofreram consequências diretas — danos materiais, interrupções no quotidiano ou sentimentos de medo e insegurança — a proporção que ficou mais preocupada sobe acentuadamente, ultrapassando os 70% em todos esses grupos.
Por outro lado, o medo foi mais marcante do que os prejuízos materiais: o impacto emocional teve um peso particularmente importante. Os jovens que referem ter sentido medo ou preocupação durante a tempestade são os que mais frequentemente afirmam ter ficado mais atentos ao problema das alterações climáticas — quase 8 em cada 10. Da mesma forma, quem estabelece uma ligação entre eventos extremos e alterações climáticas tende a estar mais preocupado: entre os jovens que acreditam que tempestades como a Kristin podem estar relacionadas com as alterações climáticas, cerca de três quartos (73%) afirmam que a sua preocupação aumentou após o episódio. Entre os que não estabelecem essa ligação, ou que têm dúvidas, essa proporção desce para pouco mais de um terço (35%).
Os resultados sugerem que a forma como os jovens compreendem os fenómenos meteorológicos extremos influencia fortemente a sua perceção do risco climático.
Entre os jovens que responderam ao inquérito do REGIÃO DE LEIRIA, os que acreditam que a sua geração será particularmente afetada pelas alterações climáticas tendem também a revelar níveis mais elevados de preocupação. Por outras palavras: quanto mais próximo e pessoal é percebido o problema, maior parece ser a sensibilização para os seus efeitos. Em resposta à pergunta sobre o que mais preocupa quando se pensa em alterações climáticas, um aluno do ensino básico de Marinha Grande resume, numa frase, o receio de muitos dos seus colegas: “O meu futuro como jovem a observar grandes mudanças a nível climático a acontecerem pelo mundo.”
Quem participou no inquérito
A produção deste artigo é apoiada por uma bolsa do projeto Climate Frontline, liderado pelo EJC, em parceria com a REVOLVE.
O questionário online foi disponibilizado, de 26 de maio a 12 de junho, a alunos do Agrupamento de Escolas de Vieira de Leiria, Agrupamento de Escolas Marinha Grande Poente, Agrupamento de Escolas Rainha Santa Isabel, Agrupamento de Escolas Henrique Sommer, Agrupamento de Escolas Domingos Sequeira, Escola Secundária Francisco Rodrigues Lobo, Escola Secundária Afonso Lopes Vieira, Agrupamento de Escolas de Pombal e Agrupamento de Escolas da Guia. Foram obtidas 580 respostas. As respostas são anónimas e não incluem a identificação dos participantes por sexo ou por escola. Os resultados apresentados dizem respeito exclusivamente aos alunos que responderam ao questionário e não constituem uma amostra representativa da população estudantil da região, pelo que não podem ser generalizados ao conjunto dos jovens.
O REGIÃO DE LEIRIA agradece às escolas e aos alunos que participaram neste estudo.