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Nascentes. Escutar a aldeia com ouvidos atentos e surpresa no coração

De auscultadores na cabeça e microfones binaurais a postos, há mais Passeios Sonoros prestes a acontecer nas Fontes este fim de semana. Uma aventura delicada e surpreendente proporcionada pelo paisagista sonoro Luís Antero.

Um grupo de pessoas, várias com auscultadores, está reunido numa rua. Em primeiro plano, um homem segura um equipamento de gravação com microfone.
Há quatro anos que Luís Antero (em primeiro plano) revela a que soa a aldeia das Fontes FOTO: Vera Marmelo/Nascentes

Os artistas e a música chegam da Suécia, da Alemanha, da Colômbia e até do Bairro do Fim do Mundo, em Cascais. Mas nas Fontes, a aldeia que volta a dar vida ao Nascentes desde ontem, 1 de julho, o festival também desafia a descobrir o lugar com outros ouvidos, através dos passeios sonoros de Luís Antero.

Em três anos, aconteceram 18 incursões imersivas e, nesta edição, há mais seis nas manhãs de sábado e domingo. Há anos (desde 2008), que o paisagista, arquivista e documentarista sonoro grava sons pelo país fora. Pontualmente, leva convidados. É o caso do Nascentes, onde nove pessoas o acompanham a cada saída. “Os meus passeios sonoros são de escuta atenta amplificada”, conta.

Os vários microfones binaurais permitem sentir a realidade de uma forma surpreendente e até revolucionária. “O som é coletivo mas cada escuta é individual”, ou seja, cada pessoa pode escutar pormenores acústicos diferentes. Luís usa sempre “escutar” e não “ouvir”:

“Escutar é diferente, é estar atento, é uma relação de compromisso entre o participante e a paisagem sonora”. Revelando essa dimensão acústica que usualmente passa despercebida, convida-se à reflexão sobre a importância do som no quotidiano.

Aqui, o paisagista opera o(s) microfone(s) e os participantes ouvem a captação através de auscultadores conectados por fio uns aos outros. “Estão todos interligados, o que também faz disto um passeio de cuidado”. Para não “desligar” ninguém. É, também, uma performance onde se dá atenção à paisagem sonora e ao próximo. “É uma coisa muito bonita que estes passeios proporcionam”.

E o que se ouve nas Fontes? Quase o mesmo que nas manhãs de qualquer aldeia: do cantar do galo aos tratores que passam – nestes dias para tratar da produção do festival -, mas também as crianças a chapinhar, os almoços em preparação e os primeiros sound checks.

No Nascentes, do que Luís mais gosta é chegar onde nasce o rio Lis e convidar os participantes a ficarem “uns dez longos minutos só a escutar aquele concerto que a natureza nos dá”: o vento na folhagem das árvores.

O que mais os surpreende contudo, é quando lhes pede para tirarem os auscultadores: “Ficam completamente surpresos pela diferença de volume entre a experiência que estão a ter e a experiência de ouvir como ouvimos diariamente”. No final, todos levam o mesmo para casa: a sensação de que vão escutar o mundo de forma diferente.

Um homem de boné e óculos segura auscultadores num espaço ao ar livre. À direita, outra pessoa segura um par de auscultadores vermelhos.
Luís Antero já realizou 18 Passeios Sonoros nas Fontes e prepara-se para orientar mais seis nos dias 4 e 5 de julho

A participação nos Passeios Sonoros é gratuita. As inscrições para as vagas ainda disponíveis para esta edição do Nascentes, nos dias 4 e 5 de julho, podem ser feitas aqui.

Emoções até domingo

Das vivências mais intimistas, aos momentos em família, até experiências de forte intensidade física e emocional, Nascentes está aí até domingo, dia 5. Fontes, em Leiria, transforma-se em espaço de encontro, escuta e transformação, com concertos, oficinas, experiências, jogos e petiscos.

Prato forte é a música, do psicalismo à tradição, passando pelo improviso, eletrónica ou jazz. O nome mais sonante é Tó Trips, que atua hoje, 2 de julho (18h). Mas há muito a descobrir na adega do Luís, na horta da D. Maria dos Anjos, na casa da Lisete, na eira das Camarinhas ou, claro, na nascente.

Destaque para a coreana Dasom Baek (na foto), do turco Elektro Hafiz, dos catalães ZA!, de EZEZEZ, de Bilbau, dos londrinos MADMADMAD, dos japoneses WaqWaq Kidgdom, ou dos caboverdianos Conjunto Contratempo.

Toda a programação e outras informações sobre o Nascentes estão disponíveis online em https://www.nascentes.pt/