Leiria, Marinha Grande, Batalha, Porto de Mós, Ourém, Pombal, Alcobaça e até Alcanena. Nenhuma área da Diocese de Leiria-Fátima escapou à fúria de Kristin. A depressão atingiu metade das igrejas do mapa diocesano, afetando parte considerável do património cultural do quotidiano das populações e que é memória da história que nos trouxe aqui. São locais de culto, claro, mas sobretudo referências na paisagem e nos espíritos, independentemente do credo de cada um.
“Nalguns lugares, os únicos edifícios notáveis, juntamente com um cruzeiro, uma fonte ou umas alminhas, são as igrejas paroquiais”, salientou ao REGIÃO DE LEIRIA o diretor do Departamento do Património Cultural (DPC) da Diocese de Leiria-Fátima. “Este património que está junto das populações, que os seus antepassados construíram, grita por socorro”, alerta Marco Daniel Duarte.
A grandeza do estrago é tal que “apenas poderemos comparar a cataclismos mais antigos na história deste território”. Logo após 28 de janeiro, lançaram-se ações de “primeiros socorros”, tapando coberturas e salvaguardando imagens e outro património móvel. Tarefa dificultada pela falta de comunicações, vias obstruídas e vagas sucessivas de mau tempo que, depois do património arruinado, “aceleraram o processo de degradação”.
Os danos estruturais têm um padrão: edifícios com pináculos e fogaréus viram esses elementos caírem sobre os telhados. “Chegaram a destruir os forros das igrejas”. “As balaustradas pétreas e outros elementos ornamentais foram também afetados. Das torres sineiras às portas e janelas – algumas com elementos artísticos – dos templos existem danos muito profundos”, notou Marco Daniel Duarte.



A prioridade foi fechar telhados para evitar a entrada de água nas igrejas. Também se removeram elementos suspensos ou em risco de cair. “Sensíveis ao seu património artístico, pelo qual as populações nutrem especial afeto, algumas esculturas foram retiradas e aguardam ainda uma avaliação do seu estado de conservação”, ressalvou.
O Santuário de Nª Srª da Encarnação tornou-se “o ícone da tempestade”, pela dimensão da destruição e impacto das imagens da cobertura esburacada. Uma intervenção com “extrema urgência” foi desencadeada pelo instituto público Património Cultura: em 35 dias úteis, por quase 60 mil euros, uma empresa removerá o telhado para montar novo. “Mas são múltiplos os edifícios com danos graves”, frisa o diretor.
Alguns são classificados, como a Srª da Encarnação ou a Sé de Leiria. Outros não têm essa proteção mas mostram “diferentes tipos de esmero estético, como acontece com o Santuário dos Milagres ou com as paroquiais de Santa Eufémia ou de Vermoil”.


Uma primeira estimativa, “ainda pouco consolidada”, aponta que serão necessários 12 milhões de euros para recuperar tudo. “Penso que, quando se fizerem os orçamentos pormenorizados a partir de empresas especializadas para intervenção em património, esta verba será insuficiente”.
Como encontrar esse (e outro) dinheiro? “Não será possível devolver à comunidade este património sem um compromisso do Estado”, alerta o responsável. E há receio que, no investimento anunciado pelo Governo, “se apliquem tabelas de classificação para hierarquização de património a partir da antiga ideia de património cultural”. Ou seja, dar prioridade ao património classificado, “descurando o património que, efetivamente, se encontra no convívio quotidiano das populações”.
Isso preocupa o diretor do DPC: “Temo que não seja ainda desta vez que haja coragem de canalizar verbas para socorrer o património dos mais afastados dos círculos artísticos que a história da arte de elite estuda”.
Marco Daniel Duarte não tem dúvidas: “A forma como tratarmos este património espelhará a ideia que temos dos que nele vivem”.