Auditório 1 da ESTG, Leiria. São 14h51 de 21 de maio de 2026: “Aprovámos hoje a criação de duas novas universidades públicas em Portugal, a Universidade de Leiria e a Universidade Técnica do Porto”. A frase foi proferida pelo ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre. E, quando isso aconteceu, irrompeu um aplauso da plateia que durou praticamente meio minuto.
Foi naquele momento que o Governo anunciou que o Politécnico de Leiria viu acolhida a pretensão de evoluir para universidade. Coube a Fernando Alexandre, governante e antigo membro do Conselho Geral do Politécnico de Leiria, tornar pública a notícia, saída do Conselho de Ministros que decorreu nessa manhã em Pombal.
Ao que tudo indica, no próximo ano letivo, aqueles que a região se habituou, após mais de quatro décadas de convívio, a chamar “alunos do politécnico” passarão a “estudantes universitários”. A universidade – já bastante anunciada e até inscrita como intenção no recente PTRR – terá ainda de passar pela promulgação presidencial e de chegar ao Diário da República até ser realidade.
O momento simbólico, contudo, aconteceu na tarde desta quinta-feira. A comunidade académica foi convidada a assistir, a par com autarcas e vários outros responsáveis da região. O auditório estava cheio e após o almoço, que elementos do Governo e autarcas tomaram numa cantiga do Politécnico de Leiria, chegou a já muito anunciada sobremesa: o anúncio que formalmente empossa o capital político governamental que permitirá a existência real da universidade.
A criação da Universidade de Leiria e Oeste (ULO) foi apresentada pelo ministro da Educação como um passo decisivo na valorização do ensino politécnico e na adaptação do ensino superior aos “desafios” de um país e de uma Europa em mudança. No anúncio, o governante sublinhou que o Governo pretende “manter o sistema binário, mas permitir que ele evolua”, defendendo uma convivência entre os subsistemas universitário e politécnico “com as suas características muito próprias”.
Fernando Alexandre não deixou de elogiar a valia do projeto apresentado pela instituição de Leiria e que alavancou a elevação a universidade: “Gostaria de destacar o facto de terem conseguido juntar 24 municípios em torno de uma estratégia de desenvolvimento que tem no seu centro uma universidade”.
Antes do anúncio governamental, que todos sabiam que ia acontecer, Carlos Rabadão, presidente do Politécnico de Leiria, aproveitou o discurso de abertura da cerimónia para sublinhar a importância do momento. “Hoje é um dia verdadeiramente histórico para o Instituto Politécnico de Leiria, para a região de Leiria e Oeste e, estou convicto, para Portugal”.
A aprovação, em Conselho de Ministros, da criação da Universidade de Leiria e Oeste “representa o reconhecimento de um percurso construído ao longo de 45 anos com trabalho, visão, capacidade de inovação e uma ligação profunda ao território, às empresas e às pessoas”, enfatizou.

Segundo Carlos Rabadão, o Politécnico de Leiria “afirmou-se como uma das instituições de ensino superior mais dinâmicas e inovadoras do país”, sublinhando o crescimento da investigação, da internacionalização e da ligação às empresas. “O ensino superior só cumpre verdadeiramente a sua missão quando consegue transformar a vida das pessoas e contribuir para o desenvolvimento dos territórios”, afirmou.
Defendeu ainda que a nova universidade nasce para responder aos desafios da transformação tecnológica, da inteligência artificial e da transição energética. “Hoje, fazer bem aquilo que sempre fizemos já não chega”, afirmou, defendendo uma instituição capaz de “transformar conhecimento em inovação”.
A futura universidade pretende afirmar-se como “um ecossistema integrado de ciência, tecnologia, inovação e qualificação avançada”, organizado num modelo multicampi, com vocações diferenciadas para Leiria, Caldas da Rainha e Peniche. “Não queremos ser apenas mais uma universidade. Queremos ser uma universidade diferente”, concluiu.
Montenegro e a importância de Leiria e [do] Oeste
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, também frisou a importância de a instituição não perder a sua identidade e aquilo que a diferencia, agora que passará a universidade. A nova instituição deverá preservar os “traços distintivos” do atual Instituto Politécnico de Leiria, nomeadamente “a grande ligação entre o ensino, o ensino de natureza tecnológica, com vocação para a inovação técnica” e a forte articulação com empresas e comunidade.

A identidade é um fator de relevo para o líder do Governo que, ironicamente, cometeu um repetido lapso ao referir-se à nova instituição como Universidade de Leiria e do Oeste, acrescentando-lhe o “do”, que não faz parte do nome oficial.
Com “do” ou sem “do”, o certo é que Luís Montenegro classificou a criação da nova universidade como “um marco para o país” e para a região, sublinhando que se trata de uma decisão histórica, numa altura em que Portugal cria duas novas universidades públicas pela primeira vez desde os anos 80.
O governante enquadrou a medida numa estratégia nacional centrada na “educação, ciência e inovação”, defendendo que o país deve aproveitar “o potencial supremo” do capital humano. “Quando um de nós não aproveita todo o seu potencial, perdemos todos”, afirmou, defendendo maior igualdade de oportunidades no acesso ao ensino superior.
Uma metamorfose com dois anos
Foi há dois anos, em abril de 2024, que Carlos Rabadão, presidente do Politécnico de Leiria, anunciou ter formalizado junto do Governo, o pedido para a transformação em Universidade de Leiria e Oeste.
A proposta – que vinha a ser preparada há muito -, explicou na altura, “fundamenta-se numa trajetória de quatro décadas dedicadas à excelência académica, à investigação aplicada e ao impacto socioeconómico”. Além do mais, “supera os requisitos legais para se constituir como universidade” e está “plenamente capacitada para assumir este estatuto”, reforçou.
O sinal mais marcante de que essa pretensão seria atendida, surgiu depois da tempestade Kristin se abater sobre a região em finais de janeiro deste ano. Menos de um mês depois da tempestade, o Governo anunciou a pretensão de que politécnicos de Leiria e do Porto passem a universidades, visando “alavancar” as regiões afectadas. Isso mesmo constava no programa Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência (PTRR), apresentado nessa altura.

Criado formalmente em 1980, mas com a sua atividade a arrancar em 1987 com a comissão instaladora a entrar em funções, o Politécnico de Leiria consolidou-se na região, surgindo como uma das principais instituições públicas de ensino superior da região Centro. Leiria, Caldas da Rainha e Peniche são os concelhos onde se concentra a esmagadora maioria da sua atividade de componente formativa.
Atualmente, o Politécnico de Leiria tem cinco escolas superiores (três em Leiria, uma nas Caldas da Rainha e outra em Peniche), além de núcleos de formação em Pombal e Torres Vedras, e 15 unidades de investigação. Conta com uma comunidade académica constituída por mais de 16.000 pessoas: cerca de 14.500 estudantes e cerca de 1.650 professores, investigadores, técnicos e administrativos.
As áreas de formação abrangem engenharia, tecnologia, gestão, saúde, turismo, artes, design, educação, comunicação e ciências sociais.
A ligação ao tecido económico regional é uma das marcas da instituição, sobretudo nas áreas industriais, tecnológicas e do turismo. Em Peniche, a ESTM mantém atividade ligada às ciências do mar e à economia marítima; em Caldas da Rainha, a ESAD.CR consolidou reconhecimento nas áreas do design e das artes visuais; enquanto a ESTG, em Leiria, concentra parte significativa da formação tecnológica e de engenharia.
O Politécnico integra ainda a aliança universitária europeia RUN-EU (Regional University Network – European University), que reúne instituições de vários países europeus e promove programas de mobilidade, investigação e formação conjunta.
Com um orçamento anual a rondar os 60 milhões de euros, a instituição tem vindo a investir no reforço de residências para estudantes, com obras atualmente em curso.
A instituição integra cinco escolas superiores: a Escola Superior de Educação e Ciências Sociais (ESECS), a Escola Superior de Tecnologia e Gestão (ESTG) e a Escola Superior de Saúde (ESSLei), em Leiria; a Escola Superior de Artes e Design (ESAD.CR), em Caldas da Rainha; e a Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar (ESTM), em Peniche.