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A calçada portuguesa começa em Porto de Mós. E pode acabar ali.

Concelho está na origem de grande parte da pedra usada na calçada portuguesa. Cabouqueiros e calceteiros alertam para a falta de quem queira aprender os ofícios que sustentam uma das maiores marcas identitárias do país.

Em Alqueidão da Serra, o cabouqueiro é uma tradição que atravessa gerações mas está em risco de desaparecer Foto de Arquivo: Joaquim Dâmaso

Tomé Ramos, 47 anos, natural de Alqueidão da Serra, é cabouqueiro. Teme pelo futuro da profissão. “Somos poucos e cada vez mais cansados e mais velhos. Malta nova não quer aparecer para trabalhar”, lamenta.

Tem muitos anos dedicados à atividade que extrai a pedra e a transforma em cubos que os calceteiros irão depois esculpir e assentar no chão, criando padrões únicos que fazem da calçada portuguesa uma arte que se pisa em Portugal e no mundo. Herdou o ofício da família e observa: “Ninguém quer aprender, porque aquilo é muito, muito duro.”

A calçada portuguesa que desenha praças e ruas de norte a sul do país nasce muito antes de um calceteiro pousar a primeira pedra no chão. Boa parte dela começa na serra de Porto de Mós.

Esta terça-feira, dia 22, o Dia Nacional do Calceteiro e da Calçada Portuguesa foi assinalado no concelho de onde é extraída grande parte da pedra que sustenta esta marca identitária portuguesa e que assume um papel relevante na candidatura a Património Cultural Imaterial da UNESCO, a par de Lisboa — capital do país e berço da calçada portuguesa — e de outros municípios.

Na tertúlia realizada durante a tarde, no Fórum Cultural de Porto de Mós, os profissionais alertaram para um perigo que consideram bem real.

Não admira, por isso, que Jorge Vala, presidente da Câmara Municipal de Porto de Mós, tenha deixado transparecer essa preocupação: “Assinalamos este dia sempre com receio de que amanhã não haja quem faça”, resumiu.

Ali não só se extrai a pedra como também nasceram muitos dos mais reputados calceteiros do país. A ameaça de extinção poderá traduzir-se numa verdadeira crise existencial para esta atividade: não haverá calçada portuguesa para preservar, por muito reconhecimento internacional que venha a alcançar.

Cortar calçada para pagar estudos

A pedra encaixada no chão, formando padrões que prendem a atenção de quem visita Portugal, transporta a história de várias famílias. Na zona de Alqueidão da Serra — um dos principais polos desta atividade —, recordou Jorge Vala, muitos jovens que frequentavam o ensino superior, nas décadas de 1960 e 1970, passavam os fins de semana a “cortar calçada” para ajudar no orçamento familiar. E, mesmo depois de licenciados, acrescentou Adérito Matos, mestre calceteiro, continuavam a fazê-lo até encontrarem emprego.

Tertúlia desta tarde decorreu no Forum Cultural de Porto de Mós

Existe, por isso, uma identidade profundamente enraizada entre quem convive com a pedra como forma de arte e de vida. “Porto de Mós está no início de todo o processo”, reforça Jorge Vala. “A calçada sai das mãos de verdadeiros artistas”, afirmou. “Primeiro dos cabouqueiros, que partem a pedra, e depois dos calceteiros, que a transformam em arte.” Adérito Matos é um desses artistas, com trabalhos espalhados por vários pontos do país e do estrangeiro.

“Tenho mais de 40 anos de profissão e ainda hoje continuo a aprender.” “A calçada não parte à máquina”, reforça. “Desde o bloco grande até ao cubo pequeno é tudo feito à mão.” É precisamente essa dimensão artesanal que distingue a calçada portuguesa de outros pavimentos. “Para manter a calçada portuguesa há que manter os artistas.”

Cabouqueiros, calceteiros e responsáveis locais depositam esperança no sucesso da candidatura que está em marcha. Para António Prôa, secretário-geral da PORPAV – Associação da Calçada Portuguesa, a candidatura à UNESCO pretende precisamente reconhecer toda esta comunidade de saberes.

“Queremos valorizar todo o processo, desde a extração da pedra até ao trabalho final do calceteiro.”  Segundo explicou, a candidatura recebeu já uma primeira avaliação positiva da Comissão Nacional da UNESCO e foi entretanto reforçada com o apoio de mais municípios e com a criação do Dia Nacional do Calceteiro e da Calçada Portuguesa.

“O reconhecimento da UNESCO pode ajudar a afirmar a calçada como uma arte e a dignificar quem a faz.” Para Adérito Matos, o maior reconhecimento continua a acontecer quando trabalha fora de Portugal. “No estrangeiro ficam a ver nascer o tapete. Fotografam todos os dias o trabalho. Cá ninguém liga nada a um calceteiro.”

É essa diferença de reconhecimento que espera ver mudar com o eventual reconhecimento da UNESCO. “É preciso mostrar aos jovens que isto é uma arte. Enquanto pensarem que é só meter pedra, ninguém vai querer aprender”, aponta. “Se conseguirem provar que isto é uma arte, isso pode puxar mais jovens”.

Mural homenageia profissão

À entrada do Fórum Cultural de Porto de Mós existe agora um mural que homenageia a profissão de calceteiro. Rúben Escória é o autor da obra. Apresentou a ideia à autarquia, que decidiu encomendá-la. É natural de Pedreiras — freguesia cujo próprio nome revela a importância da pedra na identidade local — e já trabalhou neste setor.

“O saber fazer da calçada está muito enraizado na nossa cultura e identifica-nos em Portugal e pelo mundo fora”, afirma. A obra integra referências às pedreiras de Porto de Mós e ao processo de extração da pedra, estabelecendo uma ligação entre a arte urbana pintada nas paredes e aquela que diariamente é construída no chão.

Rúben Escória junto ao mural inaugurado esta terça-feira

Por estas paragens, manter vivas as duras profissões ligadas à pedra arrancada da serra e transformada em histórias desenhadas nos pavimentos é uma preocupação permanente e uma corrida contra o relógio. Patrícia Santos, presidente da Junta de Freguesia de Alqueidão da Serra, sublinha a importância desta atividade para a identidade da terra e desmonta um dos argumentos mais usados contra a calçada portuguesa: “Criou-se o mito de que as pessoas não podiam andar de tacão alto na calçada portuguesa, mas, se ela for bem feita, não há problema nenhum.”

Tomé Ramos continua arrancar à terra a pedra que pavimenta partes do país e do mundo. E a acreditar que a profissão tem futuro. Diz que é um trabalho de que “gosta muito”. Mas não esconde a preocupação que o acompanha sempre que olha para a serra onde aprendeu o ofício. “Se os cabouqueiros deixarem de existir, mais tarde acaba tudo.”


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