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Caminhando – or piango or canto…: Acabaram os postais de natal…

A escrita devolve-nos a não-divindade do nosso percurso e reconcilia-nos com a trivialidade do dia-a-dia, faz-nos ironizar com o rame-rame do nosso quotidiano e refletir sobre o desejo de querer continuar em frente.

Cristina Nobre, professora no Instituto Politécnico de Leiriacristina.a.nobre@gmail.com
Cristina Nobre, professora no Instituto Politécnico de Leiria cristina.a.nobre@gmail.com

Finalmente chegou… Chegou na 4.ªf passada o postal de Natal de que eu estava à espera: o que todos os anos chega e o que me habituei a esperar com o verdadeiro cheiro natalício.

É um postal artesanal, feito por todos os membros da família (sem esquecer os cães e os gatos) e com a receita das bolachas – as Christmas crackers – que nesta época fazem a delícia do nosso paladar.

Depois é um dos cães – o último a entrar na família, um cão abandonado que foi recebido naquela casa – a dar as notícias de tudo e de todos, como um repórter experiente: observa com muita atenção e segue as autoridades dos mais velhos e sábios ou a irreverência dos mais novos e sonhadores. Ficamos a saber das alegrias da Mãe da família com os seus estudos e das viagens que vai fazendo na divulgação do seu trabalho; do quotidiano do Pai, atravessado por um phd com viagem semanal a Lisboa e o amontoado de livros que o ocupam nos parcos tempos livres/ocupados; da chegada do filho pródigo, desejoso de acompanhar a Mãe sempre que pode e de aprender mais, mudando o seu visual de acordo com as mudanças de paisagem; a alegria com a filha benjamim e o seu primeiro trabalho remunerado, na época da precariedade em tudo.

Estamos imersos na época natalícia e eu fico sempre encantada e reconfortada com os postais natalícios enviados por velhos amigos, que ainda chegam por correio. A diferença pode parecer pequena, mas entre uma carta, à antiga, que vem dentro do envelope, foi transportada pelos correios, que é preciso abrir, e ler à lareira, no calor de uns joelhos aconchegados, e os muitos e-mails com flores de azeviche brilhantes e saltitantes, com a mesma mensagem para todos, vai a diferença de dois mundos, direi, de duas maneiras de ver e sentir o universo que nos cerca.

A crise tem-nos roubado muita coisa, mas não o afã consumista de invadir grandes superfícies… Por que razão, então, a escrita parece cada vez mais distante de nós, num mundo quase só de aparências visuais e deleites digitais? Por que razão estão a acabar os postais de Natal tal como os conhecemos durante toda a nossa vida? Por que razão esquecemos que a nossa humanidade frágil é o que nos aproxima do divino, a gota que faz a diferença no nascimento num estábulo?

A compulsão da escrita dá-nos o toque do longínquo, o tato do inefável, o olfato dos cheiros e suores humanos. A escrita devolve-nos a não-divindade do nosso percurso e reconcilia-nos com a trivialidade do dia-a-dia, faz-nos ironizar com o rame-rame do nosso quotidiano e refletir sobre o desejo de querer continuar em frente. É natal: que seja um feliz Natal para todos e que o saibamos tomar como tema de inclusão no nosso processo complexo de seres humanos.

(texto publicado na edição de 18 de dezembro de 2014)