Joaquim Ruivo, presidente do CEPAE. jruivo2@sapo.pt

Imaginem se qualquer um de nós, eleito para um executivo camarário, pudesse dispor de 450 mil euros mensais (limpos) para promover a cultura no seu concelho.

Imaginem que desses 5 milhões e 400 mil euros anuais se poderiam canalizar 150 mil euros para publicar obras de investigação científica, bem como de divulgação e marketing cultural (roteiros, livros de arte, catálogos, etc).

Imaginem que desse montante anual se poderia encaminhar 1 milhão para apoio ao Festival Música em Leiria, ao Pinhal das Artes, ao Fade-In, ao Festival Acaso e a um festival de Cinema, tornando-os incontornáveis no panorama nacional e de dimensão internacional.

Imaginem que se poderiam utilizar 2 milhões para reabilitação e conservação do património rural civil e religioso em colaboração com as associações e paróquias locais?

Imaginem que 1 milhão, pelo menos, se poderia gastar em projectos de desenvolvimento turísticocultural.

Imaginem, ainda, que 500 mil euros pudessem ser destinados à promoção e “marketing” do concelho.

Imaginem, finalmente, que depois destes investimentos ainda sobravam 750 mil euros para utilizar em projectos pontuais, sempre de cariz cultural: residências temporárias para artistas convidados, bienais de arte, congressos, workshops, etc, etc?

Que irracionalidade, diriam, despender este montante em cultura! Mas então como é possível que o Euro de futebol 2004 continue a justificar anualmente esses encargos? Quinze dias de futebol trouxeram alguns milhares de turistas à cidade, que se tornou – após 2004 – um grande pólo turístico europeu?

Ao redor do estádio floresceu o comércio? Construíram-se novos hotéis? Revitalizou-se a cidade? Promoveu-se o desporto federado e escolar? (Pobre cidade de Viseu, que tanto lutou pela participação no Euro e, não o conseguindo, agora se vê irremediavelmente empobrecida!)

Sem qualquer ironia – porque a situação é dramática – a minha proposta é séria e simples: reunir todos os que apoiaram então publicamente o projecto, o estudaram, acalentaram e decidiram. Tenho a certeza que todos aqueles que na altura encontraram argumentos consensuais para justificar a construção do estádio, da mesma forma encontrarão soluções inteligentes e solidárias que permitam pôr cobro aos encargos que delapidam financeiramente o concelho e que condicionarão durante décadas investimentos cruciais para o seu desenvolvimento.

(texto publicado na edição em papel de 4 de Novembro de 2011)