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Crónicas do quinto império: As pinturas de S. Francisco

Não devo estar muito errado ao afirmar que a descoberta mais relevante do séc. XX, no que concerne ao património artístico-reli­gioso da cidade de Leiria, foi a das pinturas murais da Igreja de Francisco.

Joaquim Ruivo, professor jruivo2@sapo.pt

Não devo estar muito errado ao afirmar que a descoberta mais relevante do séc. XX, no que concerne ao património artístico-reli­gioso da cidade de Leiria, foi a das pinturas murais da Igreja de Francisco. Escondidas por detrás da caliça de séculos, várias pinturas medievais; foram tímida e surpreendentemente surgindo, à medida que as obras de recuperação iam avançando.

Sempre tenho dito que a valorização do património, a sua salvaguarda e recuperação, tem que ver fundamentalmente com sensibilidade, cultura e emoção e só depois com dinheiro. Ora, a recuperação desta Igreja de S. Francisco, que ocasionou a descoberta de tão importantes pinturas, é paradigmática da capacidade da iniciativa pessoal quando se é sensível ao património.

Perante a decadência e ruína desta Igreja, também a sua proprietária – a Ordem Terceira de S. Francisco – poderia alegar falta de meios e de apoios, quer municipais quer estatais. E com isto todos se poderiam conformar, na desconsolada certeza que os tetos continuariam a ruir, as infiltrações alastrariam até à degradação da estrutura do edifício e se verificaria o apagamento irremediável dos vestígios das pinturas ainda existentes.

O Sr. Luís Roda, então ministro da Ordem, entendeu que era prioritária e urgente a recuperação desta Igreja. Desde sempre habituado às vicissitudes da intervenção cívica em causas de solidariedade, não soçobrou a sua vontade nem pela falta dos apoios estatais, nem pela ausência dos apoios comunitários. Com pouco mais que a promessa de um apoio simbólico da autarquia de então, o Sr. Luís Roda motivou consciências e vontades até encontrar na Ordem de que era ministro os recursos necessários para o projeto. Tendo desde logo mobilizado a título gracioso o seu filho, o Arq. João Roda, para a responsabilidade técnica do projeto de recuperação, paulatinamente, quase sem darmos por isso, quase sem sabermos como, se recuperou a Igreja e se revelou à sociedade, a descoberta de tão importantes pinturas (essas sim, só em parte restauradas com o apoio do IPPAR).

Quando me encontrar, o Sr. Luís Roda esclarecer-me-á, no seu despojamento de qualquer vaidade, que a ele nada se deve; outros me dirão que estas são as tais exceções que confirmam outras regras. Eu sempre continuarei a insistir que o fundamental, nestas coisas do património, é a sensibilidade e uma certa consciência cultural.

(texto publicado na edição em papel de 3 de agosto de 2012)