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Crónicas do quinto império: Uma viagem a Pompeia

Foi em Pompeia, precisamente, que mais notámos esse desleixo tão evidente face ao património fazendo-nos ver que, afinal de contas, nem tudo era mau em Portugal.

Joaquim Ruivo, professor jruivo2@sapo.pt

O Público noticiou, no passado dia 27, uma “Nova derrocada nas ruínas de Pompeia”. Lemos a queixa de Luísa Bossa, antiga presidente da Câmara de Herculano: “Isto é um tormento sem fim. (…) Há três anos que protestamos, mas o mais importante sítio arqueológico do país continua a ruir. (…) foi deixado ao abandono durante anos e anos e estamos a pagar o preço”.

Não me admira. Há cerca de sete anos tivemos a possibilidade de percorrer demoradamente toda a zona a sul de Roma até Nápoles, hóspedes de um casal amigo residente em Anzio, e pudemos verificar que os italianos têm muito mais património do que efectivamente as suas políticas culturais têm capacidade de proteger e salvaguardar. Lembro-me que percorremos algumas pequenas vilas, fora dos circuitos turísticos de massas, e desde vestígios romanos em grande abundância, até casas apalaçadas de novecentos, passando por alguns modestos templos renascentistas, tudo coexistia por vezes no mesmo lugar, nalguns casos num evidente estado de abandono.

O nosso anfitrião Pio Breddo, veneziano de gema, bem se desculpou, justificando com alguma razão que há duas Itálias: a Itália do Norte e… a outra Itália, a que fica a sul de Roma.

Foi em Pompeia, precisamente, que mais notámos esse desleixo tão evidente face ao património fazendo-nos ver que, afinal de contas, nem tudo era mau em Portugal.

Entrámos cedo e caminhámos horas e horas por dezenas daquelas ruas “congeladas” no tempo, sempre nos admirando pela falta de vigilância, bem como pelo estado arruinado e negligenciado de inúmeras construções. Com facilidade podíamos aceder, sem qualquer controlo, a recantos de habitações totalmente desprotegidos, os pisos já invadidos por matagais que marinhavam muros, enquanto rebocos pintados se desfaziam e pedaços de cerâmica e de mármore se encontravam disponíveis para os amantes de recordações arqueológicas.

Achámos estranho que ao longo do nosso percurso de horas e horas tivéssemos visto apenas cinco ou seis vigilantes displicentes. Curiosamente, encerrada a visita, constatámos que mais de 20 deles, saídos não sabemos de onde, se haviam juntado à saída numa animada conversa final antes de darem por finda a sua “exaustiva” jornada de trabalho.

Mas é bem verdade que há património e património. A mesma notícia do Público informa-nos que a União Europeia disponibilizou perto de 200 milhões de euros para um programa de restauro e preservação de Pompeia.

(texto publicado na edição em papel de 6 de Janeiro de 2012)