Passámos a medir os dias pelas notícias disparadas no boletim de guerra, apresentado em direto por conferência de imprensa. É a partir daqui que medimos a esperança de fugir da curva de mortos e feridos de Itália e Espanha. Aqueles primeiros minutos revelam o Estado da Nação. O país suspende a respiração ao meio-dia e a roleta da estatística faz de bandeira nacional.

Ironia da vida, a hora outrora dedicada à Oração de Ângelus foi tomada pelos relatos da guerra. A ladainha diária dos responsáveis da saúde condiciona o resto do dia e determina o discurso de um enorme cortejo de especialistas, que irá dissecar cada sinal, com uma suposta interpretação científica.

A curva da nossa desgraça é melhor que a de Itália? Será paralela à de Espanha? Ah, estamos no bom caminho, o número de mortos é menor. Atónitos, alimentamos a ideia de que na comparação com a desgraça dos outros, cada morto a menos é uma esperança a mais.

Não restam dúvidas, estamos mesmo na hora da Oração de Ângelus. A manhã fecha-se e nasce a tarde. Foi tudo um sopro, há muito que os rituais perderam crentes, neste estado de guerra a meditação dos católicos em honra de Cristo crucificado perde-se em definitivo ou pelo menos fica adiada para mais tarde.

Entre a salvação que vem do céu e o inferno que nos ameaça na terra, damos prioridade ao mais urgente. E para tratar dos casos urgentes, temos gente que está ali, hoje e sempre. Não têm hora marcada para começar nem para sair, são sempre os primeiros a entrar em combate. São soldados que lutam com poucas armas, às vezes nem fardas têm, estão ali a salvar quem esteja em perigo. Estes soldados não podem regressar ao conforto de suas casas, têm lá família que pode apanhar a peste que receiam transportar.

Os soldados desta guerra são médicos e enfermeiros, técnicos e auxiliares de saúde, especialistas em socorro e proteção civil. Para eles, todos os minutos são horas de Ângelus.

(Artigo publicado na edição de 2 de abril de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)