Espero que esta crónica vos vá encontrar de boa saúde. Nós por cá vamos andando na forma do costume. Estamos preocupados com a COVID-19. Não se vê e só se nota passados uns dias depois do contágio e, sem conhecimento científico, andaríamos à mercê de explicações sobrenaturais, influências dos astros, castigos divinos e bruxarias. Felizmente, hoje há esperança de que a ciência e o bom senso compensem o perigo de desinformação e declarações irresponsáveis de alguns líderes políticos e religiosos.

Não há ainda vacina que neutralize diretamente este coronavírus, mas a investigação científica em vírus e os estudos epidemiológicos do SARS, Ébola, HIV, etc., já nos dão bases credíveis para estratégias de contenção da COVID-19. Graças aos investimentos públicos em investigação científica básica, desenvolvida nas universidades, sabemos que o coronavírus se transmite em partículas e aerossóis de saliva e há modelos matemáticos que nos permitem estudar cenários de evolução de epidemias e calcular os riscos que põem para a saúde publica. As recomendações de distanciamento social e de higiene pessoal que têm sido adotadas pelos diferentes países, são baseadas nesses conhecimentos.

Na Suécia, as medidas propostas até agora têm sido menos dramáticas e restritivas do que no resto da Europa. Estão proibidas as visitas a lares de terceira idade, há um limite de 50 pessoas em locais de festas ou acontecimentos públicos e os restaurantes só podem ter serviço de mesa e têm que garantir uma distância de segurança entre as mesas. Nas ruas, nos parques e na floresta pode passear-se normalmente desde que se mantenha uma distância razoável entre as pessoas e os transportes públicos funcionam normalmente e estão sobredimensionados para o volume de passageiros de forma a facilitar a dispersão dos utentes. As creches e as escolas de ensino básico continuam abertas, mas o ensino pré-universitário e universitário faz-se à distância usando sistemas de teleconferência.

Como os epidemiólogos da Autoridade de Saúde Pública (Folkhälsomyndighet) propõem informação e autodisciplina sem medidas coercivas, surgiram alguns autodenominados “peritos” e estatísticos amadores que exigem proibições à livre circulação, como noutros países europeus. É um debate interessante com afirmações bombásticas que ignoram diferenças demográficas e culturais e os autores quase nunca têm dados ou competência na matéria. Aqui não têm público, mas alimentam a infodemia receada pela Organização Mundial de Saúde de que políticos internacionais, incompetentes e até com conflitos de interesses, se tornem megafones de desinformação e apregoem “curas” falsas e perigosas.

Não esqueçamos que a COVID-19 começou em Wuhan, onde poderia ter sido contida se os médicos que alertaram para os casos iniciais tivessem sido ouvidos pelas autoridades e pela comunidade científica em vez de serem presos e ouvidos pela polícia por “conspiração contra o regime”. A pandemia poderia depois ter ainda sido contida se as autoridades dos países para onde o coronavírus foi exportado tivessem ouvido os alertas de epidemiologistas em vez de seguirem líderes religiosos, políticos ou desportivos, com interesses económicos e políticos imediatos.

E agora, que chegámos a este estado de coisas, temos todos a responsabilidade de reduzir os riscos de contágio para não sobrecarregar os sistemas de saúde. É necessário proteger os profissionais de saúde e gerir o equipamento hospitalar para salvar o maior número de vidas possível, mas informação pública correta, conhecimento científico e solidariedade democrática continuam a ser componentes fundamentais para o sucesso do combate à COVID-19.

Um abraço a todos e até breve!

(Artigo publicado na edição de 16 de abril de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)